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Produtores de cana de PE ameaçam suspender fornecimento com preço abaixo do custo

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Canavieiros apontam remuneração de R$ 139,27 por tonelada diante de custo total de R$ 215,05/t e cobram revisão dos valores no Consecana-PE

A diferença entre o preço recebido pelos fornecedores de cana de Pernambuco e o custo total de produção chegou a cerca de R$ 75 por tonelada. Nesta semana, a matéria-prima está sendo comercializada a R$ 139,27/t, enquanto levantamento do Projeto Campo Futuro aponta custo total de R$ 215,05/t na safra 2025/26. Diante desse cenário, produtores discutem suspender o fornecimento de cana às usinas a partir de 14 de setembro caso não haja avanço nas negociações sobre a remuneração da matéria-prima.

O assunto foi discutido nesta terça-feira, 1º, durante reunião realizada na Associação dos Fornecedores de Cana de Pernambuco (AFCP). No encontro, os produtores decidiram que poderão interromper as entregas de cana a partir do dia 14 caso suas reivindicações não avancem.

Antes disso, uma reunião entre representantes dos fornecedores e das usinas está prevista para o dia 9, na própria AFCP, em busca de uma solução negociada. No dia 14, o tema deverá voltar à discussão no Consecana-PE, fórum que reúne produtores rurais e indústrias sucroenergéticas para calcular, definir e divulgar valores de referência e preços da cana-de-açúcar.

O levantamento utilizado pelos produtores foi realizado no âmbito do Projeto Campo Futuro, iniciativa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e a Pecege Consultoria e Projetos. Os dados foram levantados com produtores e técnicos de Recife e região em reunião realizada em 29 de julho, organizada e intermediada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe), com apoio do Sindicato dos Cultivadores de Cana-de-Açúcar (Sindcape).

O estudo considera como referência um módulo médio de produção de 170 hectares e analisa desde o preparo de solo até a colheita, incluindo custos operacionais e totais e as respectivas margens da atividade. O boletim também destaca diferenças entre a Mata Norte e a Mata Sul de Pernambuco. Na Mata Norte, predominam menos produtores com áreas maiores, enquanto a Mata Sul reúne maior número de fornecedores, com propriedades menores e presença de agricultura familiar.

Custo total chega a R$ 215,05 por tonelada

Para a safra 2025/26, o levantamento considerou produtividade média de 55 toneladas por hectare, produção total de 7.747,14 toneladas no módulo analisado, seis cortes por ciclo, teor médio de 130,07 kg de ATR por tonelada e raio médio de transporte de 30 quilômetros. O preço do ATR utilizado no estudo foi de R$ 1,13 por quilo.

Segundo o boletim, a qualidade da matéria-prima voltou a um patamar considerado normal depois de a safra 2024/25 registrar 141 kg de ATR por tonelada, maior índice da série histórica utilizada no levantamento, influenciado por fatores climáticos.

Na composição dos custos por hectare, o preparo de solo foi estimado em R$ 976,38; o plantio, em R$ 5.625,54; os tratos da cana-planta, em R$ 661,25; e a formação do canavial, que reúne essas etapas, em R$ 7.263,17.

Os tratos da cana-soca foram calculados em R$ 1.430,63 por hectare e a colheita, em R$ 5.337,47. As despesas administrativas somaram R$ 1.117,28 por hectare, enquanto o capital de giro ficou em R$ 114,58 e outros custos, em R$ 495,31.

A partir desses parâmetros, o Custo Operacional Efetivo (COE) da produção foi calculado em R$ 145,45 por tonelada. O Custo Operacional Total (COT) alcançou R$ 179,02/t, enquanto o Custo Total (CT) chegou a R$ 215,05/t.

O COE considera despesas como insumos, mão de obra, impostos e taxas, energia elétrica, combustíveis e manutenção de máquinas, equipamentos e benfeitorias. O COT acrescenta ao custo efetivo a depreciação de máquinas, implementos, equipamentos e benfeitorias, além do pró-labore do produtor. Já o custo total inclui também a remuneração do capital imobilizado e circulante próprio e o custo de oportunidade da terra.

Com isso, o preço atualmente informado pelos fornecedores, de R$ 139,27 por tonelada, está inclusive abaixo do custo operacional efetivo de R$ 145,45/t apurado para a safra 2025/26.

Levantamento já apontava resultado negativo

Quando o estudo foi realizado, o Projeto Campo Futuro considerou receita bruta de R$ 166,98 por tonelada. Mesmo nesse patamar, superior ao preço atualmente indicado pelos fornecedores, o resultado econômico da atividade já era negativo.

A margem bruta, calculada pela diferença entre receita e custo operacional efetivo, foi positiva em R$ 21,53 por tonelada. Já a margem líquida, que desconta o custo operacional total, ficou negativa em R$ 12,05/t. O lucro econômico, calculado pela diferença entre a receita e o custo total, ficou negativo em R$ 48,07 por tonelada.

Na análise por quilo de ATR, o custo operacional efetivo foi de R$ 1,1183, o custo operacional total de R$ 1,3764 e o custo total de R$ 1,6534. A receita bruta considerada foi de R$ 1,2838 por quilo de ATR, resultando em margem líquida negativa de R$ 0,0926 e resultado econômico negativo de R$ 0,3696.

Entre os componentes do custo total, a colheita aparece como o principal item, com participação de 45,13%. Na sequência estão os tratos da cana-soca, com 12,10%, as despesas administrativas, com 9,45%, a remuneração do capital, com 8,52%, e a remuneração da terra, com 8,23%.

O boletim destaca especificamente colheita, tratos de cana-soca e remuneração da terra como os três componentes de maior participação no custo total da produção.

Produtores cobram revisão no Consecana

Os fornecedores afirmam que os custos elevados, principalmente de insumos, vêm comprometendo a viabilidade da produção mesmo diante de medidas emergenciais adotadas pelos governos estadual e federal, como apoio relacionado a fertilizantes e a subvenção econômica destinada aos produtores independentes de cana do Nordeste.

Na avaliação dos canavieiros, porém, a situação também exige uma revisão da remuneração da matéria-prima dentro do próprio Consecana-PE.

O boletim do Projeto Campo Futuro ressalta que os produtores pernambucanos utilizam o preço do ATR indicado pelo sistema de remuneração adotado no estado e que, no cálculo do resultado econômico final, está incluída também a remuneração da terra, seja ela própria ou arrendada.

A próxima tentativa de acordo entre produtores e representantes das usinas ocorrerá no dia 9. Caso não haja uma solução até a reunião do Consecana-PE prevista para o dia 14, os fornecedores afirmam que poderão interromper a entrega de cana às unidades industriais a partir dessa data.

Para conferência dos dados do boletim: o estudo identifica o Projeto Campo Futuro como iniciativa da CNA em parceria com Senar e Pecege e apresenta custo total de R$ 215,05/t, COT de R$ 179,02/t e COE de R$ 145,45/t.

Natália Cherubin para RPAnews

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