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Raizen: da selva da usina à selva da África: Coincidências que o mercado dificilmente ignora

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Ô de casa, a vida corporativa às vezes parece aquelas casas antigas do interior: na sala a família vende os móveis pra pagar contas, na cozinha se corta até o cafezinho, e no banheiro o tio dizia que o papel higiênico tinha que ser usado dos dois lados. Mas, na mesma semana, alguém organiza uma festa daquelas com banda, churrasco a vontade de picanha e fogos para impressionar os vizinhos.

Foi o que se viu agora. A ação da Raízen, que já foi promessa dourada, derreteu até congelar em R$ 1,00 — um número que não é apenas preço, é símbolo de desconfiança. Ao mesmo tempo, de 28 de agosto a 2 de setembro, parte da diretoria e centenas de revendedores embarcam para a Cidade do Cabo, na África do Sul, numa viagem de premiação merecida para quem cumpriu metas no varejo. Nada contra a festa. O contraste é que chama a atenção.

Porque, enquanto no canavial famílias inteiras ouviram o baque seco das demissões em massa como numa das mais tradicionais usina do país, na savana africana o brinde deve ser com champanhe. Enquanto se cortam PLR, cargos e despesas até o osso, no mesmo mês se levantam taças em jantares faraônicos, ao lado de vans de safári.

E não deixa de ser simbólico que o encontro esteja marcado justamente na Cidade do Cabo. Lá está o lendário Cabo da Boa Esperança, que um dia foi chamado de Cabo das Tormentas, pelas tempestades que engoliam embarcações inteiras. Camões deu vida ao gigante Adamastor para simbolizar as forças da natureza que desafiavam os navegadores.
A Raízen, hoje, também enfrenta suas próprias tormentas: ações congeladas a R$ 1,00, dívidas pesadas, cortes de pessoal e um mercado desconfiado. Talvez a viagem até o Cabo da Boa Esperança seja, além da festa, uma metáfora involuntária: a de que, depois da tormenta, ainda pode haver um caminho de esperança — se houver coragem para enfrentar o Adamastor do endividamento e da incoerência.

Poucas companhias conseguem, no mesmo calendário, vender ativos estratégicos, enxugar quadro histórico e, de quebra, oferecer aos clientes uma comemoração digna de novela. Mas aqui está o ponto: o mercado lê símbolos melhor do que balanços. A ação a R$ 1,00 não fala só de dívida, fala de confiança. E confiança não se compra em safári de luxo: constrói-se com coerência entre discurso e prática.

Na roça onde cresci, a gente aprendeu que festa boa é aquela em que todo mundo tem cadeira na mesa. Quando uns celebram no safari e outros amargam a demissão, pode até parecer alegria no brinde… mas o mercado, esse vizinho atento, dificilmente ignora a cena.

São apenas coincidências no calendário corporativo, que o mercado observa com atenção — e cada um interpreta à sua maneira.

*Wladimir Eustáquio Costa é CEO da Suporte Postos, especialista em mercados internacionais de combustíveis, conselheiro e interventor nomeado pelo CADE, com foco em governança e estratégia no setor downstream.

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