Evento promovido pela Canaoeste reuniu lideranças do setor para discutir produtividade, Consecana, sustentabilidade e cenário global
A safra 2026/27 começa em meio a um ambiente de maior pressão sobre custos, volatilidade climática e incertezas no mercado global de energia e alimentos. O cenário foi tema central da Abertura de Safra 2026/27 promovida pela Canaoeste, realizada recentemente em Sertãozinho (SP), reunindo produtores, consultores e representantes do setor sucroenergético para discutir os desafios econômicos, operacionais e ambientais do novo ciclo canavieiro.
O presidente da associação, Fernando dos Reis Filho, destacou a necessidade de fortalecimento do setor diante de um ambiente mais instável. Segundo ele, a atividade agrícola convive diariamente com incertezas, exigindo maior preparo dos produtores para tomada de decisão. “A atividade agrícola convive diariamente com incertezas, mas a Canaoeste continuará atuando para dar suporte ao produtor, levando informação, representatividade e ferramentas para tomada de decisão”, afirmou.
O diretor executivo da entidade, Almir Torcato, avaliou que a nova safra se inicia em um ambiente de maior pressão financeira e operacional. Segundo ele, o setor enfrenta custos elevados, preços pressionados e necessidade crescente de eficiência na gestão das propriedades. “O produtor está enfrentando um mercado mais apertado, com custos elevados e preços pressionados. Isso exige atenção redobrada na gestão e rapidez nas decisões”, disse.
Durante o evento, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan, apresentou projeções para o Centro-Sul na safra 2026/27, estimando moagem entre 631,4 milhões e 639,1 milhões de toneladas de cana, produtividade média próxima de 77 toneladas por hectare e produção de açúcar ao redor de 40 milhões de toneladas.
Segundo Carvalho, o setor atravessa um momento de forte influência de fatores externos, como juros elevados, instabilidade geopolítica e volatilidade nos mercados internacionais de energia, petróleo e alimentos. A análise também apontou preocupação com custos de fertilizantes, logística internacional e possíveis impactos inflacionários decorrentes de conflitos no Oriente Médio.
O consultor alertou ainda para os efeitos do clima irregular sobre os canaviais do Centro-Sul, destacando riscos de florescimento, isoporização e atraso no desenvolvimento da cultura em algumas regiões produtoras.
Custos e produtividade pressionam rentabilidade
Na avaliação econômica da safra, João Rosa, conhecido como Botão, da Pecege Consultoria e Projetos, afirmou que a competitividade do produtor dependerá cada vez mais da eficiência operacional e da qualidade da matéria-prima.
Segundo ele, o custo médio de produção está próximo de R$ 1 a R$ 1,05 por quilo de ATR, enquanto o investimento na formação do canavial pode variar entre R$ 13 mil e R$ 22 mil por hectare, conforme ambiente produtivo e nível tecnológico adotado.
De acordo com o consultor, ganhos de produtividade seguem como principal caminho para diluição de custos. As projeções apresentadas indicam que aumentos de 5% no TCH podem reduzir o custo em aproximadamente 4%, enquanto avanços semelhantes no ATR têm potencial para diminuir os custos em cerca de 4,5%.
As análises apresentadas durante o encontro também apontaram um cenário de maior dependência do mix alcooleiro e forte influência do petróleo sobre os preços do açúcar e do etanol ao longo da safra.
Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana 2026 e integrante do Conselho Consultivo da Canaoeste, afirmou que o setor precisará ampliar a integração entre produtores e indústria diante das transformações no mercado global de bioenergia.
“A agroindústria e os produtores precisam caminhar juntos para enfrentar esse novo cenário internacional e fortalecer o protagonismo brasileiro na bioenergia”, afirmou.
Segundo Montabone, a edição 2026 da Fenasucro & Agrocana deverá ter perfil mais internacionalizado, com representantes de mais de 60 países em busca de tecnologias e soluções ligadas à bioenergia.
Sustentabilidade e certificação avançam entre produtores
A sustentabilidade também ganhou espaço na programação do evento, com destaque para o Programa SEMEIA e os avanços da certificação Bonsucro entre associados da Canaoeste.
O gestor operacional de sustentabilidade da associação, Fábio de Camargo Soldera, afirmou que o programa atua na adequação ambiental, social e de governança das propriedades rurais, buscando ampliar eficiência, competitividade e gestão operacional.
Segundo ele, o trabalho inclui regularização ambiental, apoio em questões trabalhistas e implantação de ferramentas de gestão nas propriedades. “O objetivo é fazer com que o produtor tenha maior controle sobre custos, indicadores e eficiência operacional, melhorando a gestão da atividade”, disse.
Soldera destacou ainda a evolução do processo de certificação conduzido pela associação desde 2022. Atualmente, a Canaoeste possui 13 produtores certificados, somando cerca de 22 mil hectares e produção próxima de 1,5 milhão de toneladas de cana.
O analista de sustentabilidade Gabriel Roque Perticarrari afirmou que o programa busca alinhar os produtores às exigências de mercado e às práticas ESG, criando condições para acesso a novas oportunidades comerciais e melhoria da gestão das propriedades.
Já a gerente Brasil da Bonsucro, Lívia Ignácio, avaliou que a certificação ainda enfrenta desafios comerciais, mas já apresenta ganhos operacionais relevantes ao produtor. Segundo ela, os benefícios vão além da comercialização do produto certificado, envolvendo redução de desperdícios, melhoria da gestão e aumento da eficiência operacional.
Durante o evento, a Canaoeste também homenageou produtores associados certificados pela Bonsucro, reconhecendo avanços em práticas sustentáveis, produtividade e desempenho ambiental das propriedades participantes do programa.
Consecana-SP segue no centro das discussões
O modelo do Consecana-SP também esteve entre os principais temas debatidos durante a abertura da safra.
O CEO da ORPLANA, José Guilherme Nogueira, afirmou que o modelo entra em fase final de implementação, mantendo o fator adicional de 4,5% na remuneração dos produtores.
Segundo ele, os ajustes pendentes das safras 2024/25 e 2025/26 devem ser concluídos até julho, preservando as negociações bilaterais entre fornecedores e usinas. “O modelo mantém a integração entre as partes e prevê revisões periódicas para garantir atualização e equilíbrio ao sistema”, afirmou.
Almir Torcato também comentou os debates envolvendo o Consecana-SP e reconheceu que o processo exigiu negociações complexas entre produtores e indústria. Segundo ele, o setor ainda enfrenta desafios relacionados à volatilidade de preços e às diferenças regionais nos contratos, mas o entendimento construído busca trazer maior estabilidade ao sistema de remuneração da cana.
Informções da Canaoeste


