Especialistas alertam para falhas no diagnóstico da murcha da cana, a ação conjunta de patógenos no solo, na palhada e na parte aérea e defendem manejo preventivo para preservar produtividade e ATR.
Natália Cherubin
A síndrome do murchamento da cana tem avançado no Centro-Sul e ampliado as perdas no campo e na indústria, com impactos diretos em produtividade e qualidade. Em áreas com cerca de 25% de cana murcha, o prejuízo pode chegar a aproximadamente R$ 3 mil por hectare para o fornecedor, considerando a perda de cerca de 20 toneladas de cana e 2.500 kg de ATR, segundo Victor Silveira, proprietário da VS8 Agrisolutions, durante participação no DaCanaCast, o podcast da RPAnews. Quando os efeitos chegam à usina, esse valor “praticamente dobra” e pode alcançar R$ 6 mil por hectare, sem considerar perdas adicionais ligadas à colheita, ao rendimento industrial e ao aumento de custos no processo fabril.
Apesar da dimensão econômica, o tema ainda enfrenta um entrave básico no campo: diagnóstico e monitoramento. Para Nicholas Christensen, gerente de desenvolvimento da Ballagro, o principal obstáculo está no modo como o problema é observado pelo produtor. Segundo ele, historicamente o canavicultor avalia a cana pela parte aérea, quando, no caso do murchamento, grande parte das causas está associada ao solo, à palhada e ao ambiente de produção como um todo, o que dificulta a compreensão e o diagnóstico correto da síndrome.
Silveira reforça que o murchamento não pode ser explicado por um único fator. Na avaliação do consultor, trata-se de um problema sistêmico, resultado da ação conjunta de diferentes agentes ao longo da safra. Ele define o cenário como uma “trinca de vilões” atuando em posições distintas: abaixo do solo, na palhada e na folha. Além disso, aponta que mudanças no sistema produtivo, como a colheita mecanizada, a expansão de áreas contíguas e o acúmulo de palhada ao longo dos ciclos, elevaram a pressão de inóculo e tornaram o desafio mais complexo do que era há uma década.
Sintomas, agentes envolvidos e o gargalo do diagnóstico no campo
No campo, a síndrome do murchamento se manifesta por um conjunto de sintomas e pode envolver diferentes agentes. Silveira lembra que, por muito tempo, o debate ficou concentrado no Coletotrichum, mas o quadro é mais amplo. “Durante anos, muita gente tratou o problema como se fosse só Coletotrichum, mas o murchamento é resultado da interação de vários patógenos”, afirmou. Ele cita o fungo como um dos envolvidos, com sinais característicos no colmo — manchas avermelhadas com faixas claras transversais quando a cana é cortada — e, em alguns casos, avermelhamento na nervura da folha.
Outro agente frequentemente observado é a pleocita, que provoca murchamento associado a um aspecto conhecido como “marrom glacê” no colmo, acompanhado de odor levemente azedo, semelhante à fermentação. Já o fusarium, segundo Silveira, tem origem majoritariamente no solo e aparece com frequência associado a áreas com alta população de nematoides do gênero Pratylenchus. De acordo com o consultor, o nematoide provoca lesões no sistema radicular, abrindo caminho para a entrada do fungo. “O Pratylenchus faz lesão na raiz e o fusarium entra”, explicou.
A identificação tardia é apontada como um dos principais fatores que ampliam as perdas. Silveira afirma que muitos produtores ainda têm dificuldade em reconhecer os sintomas e agir no momento adequado, o que leva a um manejo reativo. “São vilões silenciosos. Muitas vezes, se o técnico não entra no talhão, não percebe o problema”, disse. Entre os sinais de alerta, ele destaca o achatamento do colmo de um lado só, conhecido como “canoa”, mudanças no aspecto e na coloração da cana e sintomas que só se tornam evidentes com observação mais detalhada. Para ele, o monitoramento precisa ser contínuo e proativo, inclusive para orientar decisões como antecipação de colheita e definição das estratégias de controle.
O consultor também contesta a ideia de que o murchamento seja um problema restrito a regiões secas. Segundo Silveira, a síndrome já foi observada em áreas com boa distribuição de chuvas, como Paraná e Mato Grosso do Sul, e segue presente em São Paulo. “Esse não é um problema só de ambiente seco, ele aparece inclusive em regiões com boa pluviometria”, afirmou. Com base em visitas técnicas e amostragens realizadas ao longo dos últimos anos, ele estima que cerca de 3 milhões de hectares, de um total aproximado de 9 milhões de hectares de cana no Centro-Sul, apresentem algum nível de impacto — o equivalente a cerca de um terço do canavial, na avaliação dele.
Manejo integrado, biológicos e a busca por previsibilidade no controle
Para os especialistas, o enfrentamento da síndrome do murchamento passa pelo reconhecimento das três frentes do problema: solo, palhada e parte aérea. No solo, Victor Silveira destaca a necessidade de voltar a atenção para o manejo de nematoides, especialmente em áreas com histórico de murchamento, já que a associação entre Pratylenchus e fusarium tem se mostrado recorrente. Segundo ele, “controlar apenas um dos fatores não resolve”, já que ambos atuam como detratores de produtividade e acabam se potencializando no ambiente.
Na palhada, o consultor relata que, pelas experiências de campo, fungicidas químicos têm apresentado limitações, principalmente por estarem sujeitos à fotodegradação e por serem desenvolvidos para atuar na folha. Nesse ambiente, os biológicos aplicados em área total têm demonstrado respostas mais consistentes, sobretudo quando integrados a operações já realizadas pelo produtor, como a aplicação de herbicidas. Ao comentar esse ponto, Silveira observa que “o patógeno consegue sobreviver na palhada”, o que torna necessário atuar também sobre esse compartimento do sistema.
Christensen complementa que microrganismos como Trichoderma e Bacillus atuam por mecanismos distintos — parasitismo, competição e produção de substâncias bioativas — e que a compatibilidade entre eles é fundamental para o sucesso do manejo. Na avaliação dele, não basta aumentar o número de produtos utilizados. “Não é porque é biológico que pode misturar de qualquer jeito”, afirmou, ao lembrar que microrganismos ocupam nichos específicos no ambiente e precisam ser posicionados corretamente.
Os entrevistados reforçam que o uso de biológicos exige um nível maior de refinamento técnico. Christensen avalia que o crescimento acelerado do mercado trouxe muitas tecnologias e, com elas, ruído de informação. Segundo ele, muitos produtores passaram a usar diversos produtos sem compreender exatamente o papel de cada um. “O biológico não é bala de prata”, afirmou, ao explicar que os resultados mais consistentes aparecem quando há critério técnico, formulação adequada e acompanhamento no campo.
Na integração entre biológicos e químicos, Silveira afirma que não se trata de substituir uma ferramenta pela outra. Para ele, as tecnologias se complementam. “Tem momentos em que o químico é importante pelo efeito de choque, e o biológico entra pela persistência e equilíbrio do sistema”, explicou. Christensen resume que não existe “receita de bolo”, mas sim protocolos construídos com base em monitoramento, pressão de inóculo e conhecimento do ambiente produtivo.
O impacto econômico, segundo Silveira, reforça a urgência de uma postura preventiva. Ele lembra que a perda de produtividade causada pelo murchamento quase sempre vem acompanhada de perda de qualidade. “Quando a planta trava por dentro, não transloca água nem nutriente”, disse, ao destacar os reflexos diretos na colheita e no processamento industrial.
Para os especialistas, a mudança de chave passa por abandonar o manejo reativo e adotar estratégias que antecipem o problema, reduzam a pressão de patógenos no sistema e preservem tanto o TCH quanto o ATR ao longo dos ciclos. Como resumiu Victor Silveira, “quando a gente age de forma reativa, tudo fica mais caro e a eficiência nunca é a mesma”.
