Transbordos de alta capacidade reduzem custos de CTT? Sim!

Natália Cherubin

Por volta de 2011, uma das maiores novidades tecnológicas que surgiam para o segmento canavieiro eram os transbordos de alta capacidade, pensados e desenvolvidos para transportar quase o dobro de cana, ou até um pouco mais, do que os implementos convencionais usados no setor até então, que tinham capacidade para até 12 t de cana picada. Com preços muito competitivos, se comparados aos modelos convencionais, estes “gigantes” prometiam não só trazer ganhos econômicos, mas também vantagens operacionais importantes.

No início, nem usinas e nem especialistas estavam totalmente convencidos de que estes modelos de transbordos apresentavam só vantagens. Havia uma desconfiança acerca de possíveis danos às soqueiras da cana e não existiam dados suficientes que mostrassem que os prejuízos eram menores que a economia que estes implementos podiam trazer. Mesmo assim, a novidade acabou conquistando o mercado de vez. Hoje, só a Teston, fabricante de transbordos de alta capacidade, tem mais de 200 equipamentos em usinas de cana de várias regiões do país. Já a TMA, que oferece a tecnologia desde 2009, afirma que seus equipamentos já atendem grandes empresas do setor, como Raízen, São Martinho, Bunge, Biosev, Delta, Cerradão, Vale do Tijuco, Cofco Agri e também canaviais de fornecedores de cana, que procuram tecnologia e a consequente redução de custos na produção de cana. “Já vendemos 50 máquinas só no primeiro ano de vendas dos novos modelos de transbordos lançados em 2015”, Artur Monassi, proprietário da TMA.

“Há forte tendência de crescimento do uso deste implemento, principalmente em usinas e fornecedores que possuem suas áreas de produção situados em regiões com bom nível de sistematização de talhão e principalmente uma uniformidade nas carretas transportadoras”, afirma Alexandre Luiz Ferreira, supervisor técnico regional de Vendas da Civemasa.

José Luis Coelho, diretor de Marketing e Vendas da Antoniosi, afirma que desde a safra 2015/16 o mix de vendas (em número de unidades), tem se posicionado entre 50% e 60% do total dos transbordos comercializados no país. “Isso mostra a consolidação dos transbordos de alta performance no mercado brasileiro.”

Passados quase sete anos dos lançamentos destes equipamentos no mercado, será agora possível mensurar os impactos positivos do uso deste modelo de transbordo tanto no tráfego dos canaviais, reduzindo o pisoteio, quanto nos custos de CTT? A RPAnews procurou alguns especialistas e usuários da tecnologia para mostrar quais têm sido os reais ganhos no campo e no bolso do produtor.

No sistema até então usado pelas usinas, o trator traciona dois transbordos para coletar a cana colhida pelas colhedoras. Posteriormente, quando os transbordos estão cheios, o trator abandona a colhedora que está atendendo e segue para um pátio, onde unidades rodoviárias aguardam para receber a cana dos transbordos. Ao final desta operação, o trator e seus transbordos, agora vazios, seguem em busca da colhedora que tinham deixado para ser atendida por outro trator com seu par de transbordos. Este ciclo tem que funcionar muito bem e ininterruptamente porque, se não, a colhedora corre o risco de ficar parada por falta de transbordo (Vejo exemplo no Gráfico 1).

Só para se ter uma ideia, uma colhedora tem eficiência operacional de quase 56%, ou seja, em 44% do tempo a máquina fica parada devido a fatores como mudança de local, troca de turnos, manutenção e abastecimento. Mas o fator que mais consome este tempo é a espera pelo transbordo. “Sabemos que na operação de CT (Corte e Transbordo) o sincronismo entre colhedora e transbordo é essencial para a eficiência da operação. Temos observado que, de forma geral, os tempos de espera são da colhedora. O problema é que não temos conhecimento de algum estudo de T&M (Tempos & Movimentos) comparando transbordo de 10 t versus 21 t, comprovando que os tempos de espera passaram da colhedora para o transbordo, o que seria o ideal”, opina Luiz Geraldo Mialhe, professor titular do Departamento de Engenharia Rural da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo).

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IMPACTOS NO CTT

Apesar de não haver estudos específicos que fazem a comparação entre os dois sistemas, através de um simulador, a RPA Consultoria reproduziu uma comparação entre o ciclo de tratores com transbordos convencionais e tratores tracionando transbordos de alta capacidade num mesmo canavial (Gráfico 2). Fazendo-se uma comparação entre os dois gráficos (1 e 2) para um mesmo canavial de 85 t/ha, o simulador mostra que há uma redução no tempo de ciclo do trator com o transbordo de alta capacidade em relação ao trator com dois transbordos convencionais, de 3 minutos e 16 segundos. A Tabela 1 apresenta os resultados comparativos entre os dois cenários de transbordos.

A melhor forma de traduzir os resultados do comparativo é fazendo o dimensionamento de uma frente de colheita mecanizada. Se o tamanho da frente de colheita tem duas, três, quatro, cinco ou seis colhedoras e qual é o número de transbordos convencionais ou de alta capacidade que são necessários em cada frente. Desta maneira, a simulação demonstra que frentes de colheita de quatro ou mais colhedoras terão a redução de um trator e dois transbordos caso adotem a utilização de transbordos de alta capacidade ao invés dos convencionais. “Se não bastasse, há redução no investimento para formar uma frente, se considerarmos que esta frente terá um trator a menos, estamos falando também da economia no custo operacional deste trator em combustível, lubrificantes, pneus, peças e manutenção, bem como dos três tratoristas mais o folguista que seriam contratados para toda a safra”, explica Antonio Afférri, sócio-diretor da RPA Consultoria.

Em usinas que adotam de 2,1 a 2,5 tratores com dois transbordos convencionais para cada trator, a avaliação da diminuição desta relação sem detrimento da produtividade das colhedoras é um fator importante na redução de custos da colheita mecanizada de cana. “Temos observado, na prática, uma redução de 50% no tempo de transferência da carga para o caminhão canavieiro e um acréscimo de 1 tonelada na carga útil transportada, comparativamente a um conjunto de dois transbordos de 10 t. Por ter menos cantos, quando comparado a composições de dois compartimentos, considerando que ambos possuem o mesmo volume de carga (m3), estes modelos gigantes têm contribuído significativamente para a redução de custos na operação de transbordo”, complementa Afférri.

De acordo com Dario Willia Sodre, da D2G Consultoria, apesar da redução de custos depender da capacidade de transporte dos transbordos maiores, há clara redução no consumo de combustível, no custo fixo de investimento, na qualidade da soqueira de cana após colheita, além dos ganhos agronômicos. “Os transbordos de alta capacidade ainda apresentam melhor manobrabilidade, principalmente em marcha a ré, preservando os canaviais; reduzem o tempo de basculamento e do ciclo total de transbordo; causam menor compactação do solo; menor pisoteio da soqueira; e melhoram a condição operacional na entrada do talhão.”

A redução de custos, segundo Monassi, gira em torno de 10%, dependendo da carga horária dos turnos em que a unidade trabalha. Além disso, há uma grande economia de diesel, de componentes hidráulicos e do motor do trator, em função da redução em 50% dos ciclos de levante e tombamento. “Com o VTX 21.000, por exemplo, conseguimos reduzir em torno de 4 t de tara em relação a dois transbordos de 10,5 e 13 t”, destaca.

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NA PRÁTICA

Na Usinas Itamarati, localizada em Nova Olímpia, MT, que começou a utilizar os transbordos de alta capacidade em meados da safra 2013/14, os benefícios estão mais do que comprovados. Prova disso é que a empresa já possui 14 implementos destes, o que corresponde hoje a 30% da frota de VT (Veículo Transbordo) da empresa. Segundo o gerente Agrícola da Usinas Itamarati, Jari de Souza, o planejamento é continuar substituindo a frota de transbordos de menor capacidade por equipamentos maiores.

A experiência da unidade mostra que houve redução na potência dos tratores, do diesel por tonelada e no gasto com pneus devido à diminuição do conjunto de dois equipamentos para apenas um, o que também garantiu um aumento no rendimento (toneladas/horas) dos tratores.

“A redução nos custos é o principal motivador do uso da tecnologia, que melhorou o rendimento da colheita, facilitou a finalização da carga para o operador da colhedora, reduziu muito nosso tempo de descarga e a compactação. Melhorou rendimento de colheita em mais de 5% quando comparado com equipamentos menores, devido ao maior tempo de atendimento a colhedora e maior facilidade de acabamento da carga”, afirma Souza.

A Usina Cerradão, localizada no município de Frutal, MG, faz uso da tecnologia há dois anos. Por enquanto, de acordo com Michel Fernandes, gerente de Produção Agrícola da unidade, a Cerradão ainda está atuando com estes equipamentos em apenas uma frente, mas a ideia é que se faça a migração para 100% de transbordos de alta capacidade.

“Esperamos ter uma eficiência de 8% a 10% maior na operação. Por enquanto, podemos dizer que conseguimos aumentar o tempo de disponibilidade da colhedora. Além disso, reduzimos o tráfego de outras máquinas, reduzindo o tempo das manobras. A única questão limitante que enxergamos é que teremos que investir em tratores de maior potência se quisermos aumentar nossa frota de transbordos de alta capacidade.”

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Ainda de acordo com Fernandes, o tempo de cada transbordamento caiu em quase 50 segundos, o que significa um ganho de 7%, trazendo um retorno enorme para o CTT. “Uma das nossas preocupações era com o aumento de consumo de diesel dos tratores. No entanto, o aumento, até agora, foi de 3%, valor que é compensado pelos ganhos no tempo de carga e descarga na usina.”

Paulo Teston, além de sócio-diretor da Teston, fabricante dos transbordos de 22 t, também é prestador de serviços e faz a colheita em aproximadamente 60 mil ha por ano, que correspondem a seis usinas, sendo quatro no Estado do Paraná e duas no Mato Grosso do Sul.

A prestadora de serviços utiliza, desde 2009, em 100% da sua frota, os Gigantes de 22 t e, após o início do uso deste modelo de transbordo, Teston revela que os custos com a manutenção em comparação com os modelos de menor capacidade caiu pela metade, devido a simplicidade e alta resistência da máquina.

“Além de custos com manutenção, sua carga é compatível com todos os compartimentos de carga dos veículos rodoviários, sendo necessário para o menor compartimento uma carga e para o maior duas cargas completas; o tempo de transbordamento foi reduzido à metade do tempo de um conjunto de 10 t; as nossas colhedoras rendem, no mínimo, 15% a mais que outras equipadas com transbordos de menor capacidade; o índice de compactação caiu  de 10% a 20%, dependendo das dificuldades do terreno, ou seja, quanto mais oscilação tiver, maior será a vantagem para o modelo de alta capacidade; o consumo de diesel pode cair entre 10% a 20%; o número de acidentes com elevador cai, no mínimo, 50% em comparação com os equipamentos que andam filiados; e o raio de giro diminuiu de 6,5 m interno para 1,9 m, agilizando muito a operação e diminuindo a compactação na saída dos carregadores”, revela Teston.

Um fornecedor de cana, da região de Mato Grosso do Sul, fez um comparativo entre o modelo de transbordo de 22 t, da Teston, com o modelo de 10 t da Valtra, antiga Santal. Segundo as observações do coordenador de colheita desta fazenda, há grande vantagem fica no tempo de descarregamento do transbordo (Como pode ser analisado na Tabela 2).

“Na maioria dos casos de usinas que utilizam este transbordo é notável o aumento de eficiência operacional, principalmente no tempo de descarga de cana nos caminhões e considerável redução de tempo nas manobras. O seu baixo raio de giro, em torno de 12 m, além de ser facilmente manobrado nos carreadores, reduzindo o pisoteio nos talhões, aumenta a eficiência e reduz o custo da operação”, afirma Ferreira.

A unidade de Potirendaba, SP, da Cofco Agri, SP, que moeu na safra 2016/17 quase 3,2 milhões de t de cana, com uma produtividade de 97 t/ha, é outra unidade que tem visto o transbordo de alta capacidade como um fator para a redução de custos do seu CTT.

Para chegar até o transbordo, a usina precisou entender quais eram os custos da sua terra, do seu plantio, dos seus tratos culturais e do seu CTT. Segundo Guilherme da Costa Nunes, gerente Agrícola da unidade Potirendaba, 67% dos custos da unidade, voltado em reais por hectare, correspondem a terra, plantio e tratos culturais, enquanto 32% dos custos, em reais por tonelada, correspondem ao CTT.

“Vale lembrar que tudo que está relacionado com o nosso custo agrícola tem relação com a redução da despesa fixa, aumento de rendimento, redução dos consumos e, o mais importante, aumento do TCH. O TCH é o que temos de mais importante hoje no grupo em relação ao poder de rendimento dos equipamentos. Ele é balizado por três tripés: clima, manejo e solo, que está dentro do nosso programa Viva Cana, que visa a disciplina operacional através do tráfego controlado”, destaca Nunes.

O CTT da unidade Potirendaba é dividido da seguinte maneira:

– 32% do custo corresponde ao corte;

– 19% do custo corresponde ao transbordo;

– 36% do custo corresponde ao transporte;

– 12% do custo corresponde ao apoio.

Nunes conta que a unidade começou com o uso de transbordos de quatro eixos de 45 m3 (21 t), transbordos de 60 m(24 t) com configuração atrelada, e o modelo ‘solteiro’, de 30 m3 (12 t). Hoje, no total, são 39 transbordos em operação, divididos entre estes três modelos.

“Até agora, nossa experiência com o transbordo de 45 m3 tem nos mostrado vantagens e desvantagens. Em vantagens observamos o tempo de carregamento e deslocamento, de 17 minutos, com um basculamento sendo feito em 1 minuto e 45 segundos, fazendo 397 t por máquina/dia. O pisoteio diminuiu para 4%, cortando menos a soqueira, reduzindo também o tempo de ciclo. O custo desta operação para a unidade é de R$ 4,39 por t, com vantagem de usar menos equipamentos para fazer a colheita A única desvantagem analisada pela unidade foi a necessidade do uso de tratores de 200 a 210 cv”, avalia Nunes.

O modelo de 60 m3, apesar da maior capacidade de transporte, que é de 24 t, tem tempo de carregamento, na mesma condição de tiro de 600 m, de 16 minutos, com o basculamento sendo realizado em 2 minutos e 13 segundos, totalizando um ciclo em 23 minutos e fazendo 375 t por máquina/dia. “Apesar da maior metragem cúbica, este modelo causa maior pisoteio, que sobe para 10%, maior custo por tonelada, de R$ 4,48 por t e maior tempo de ciclo, além de também necessitar de tratores de alta potência”, observa Nunes.

Já o modelo de uma caixa de 30 m3, com capacidade de 12 t, mostrou tempo de carregamento de 8 minutos e 16 segundos, um basculamento de 1 minuto e 18 segundos, completando o ciclo em 12 minutos, mas fazendo apenas 310 toneladas por máquina/dia. “Mesmo com o menor pisoteio, de 2%, e do menor tempo de ciclo, este modelo exige mais equipamentos devido a sua baixa capacidade de transporte, o que aumenta os custos para R$ 5,96 por t”, destaca Nunes.

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Ao fazer um balanço entre os três modelos, a unidade concluiu que a melhor escolha técnica e financeira é o transbordo de 45 m3, ou seja, de 21 t de capacidade. Por quê? “Por três motivos: ele atende melhor a questão da tonelada/máquina/dia, tem equilíbrio de pisoteio e atende os custos de tonelada por hectare. Então você tem toda a capacidade do transbordo, um trator que pode ser trabalhado independentemente da situação, e garante que, com a disciplina do operador, vai conseguir atingir 4% de pisoteio. Então incondicionalmente, estas vantagens fizeram com que em 2017 tenhamos mais transbordos de 21 t. E até 2019/20 o plano é que tenhamos substituído todos os transbordos de 30 m3 pelos de 45 m3.”

RESSALVAS

Mesmo com ganhos já comprovados de tempo de operação, redução de compactação e custos por tonelada colhida, alguns itens ainda não foram totalmente esclarecidos, segundo Mialhe.

Se a capacidade de carga de um veículo de transbordo sobe de 10 t para 21 t, certamente o peso próprio do referido será sensivelmente aumentado, de acordo com ele. Sendo assim, é preciso comparar a área total de contato pneu-solo entre cada tipo de transbordo e calcular a pressão aplicada, tendo em conta o peso bruto (peso próprio + carga). “É importante alertar para o fato de que essa pressão (pressão de recalque do solo) é completamente diferente da pressão de inflagem dos pneus. Essas importantes informações técnicas infelizmente não estão disponíveis nos catálogos ou publicações na mídia impressa dos fabricantes de veículos de transbordo. Penso que um aspecto importante a ser considerado também é o aumento da exigência dos tratores ao passar de 10 t para 21 t, uma vez que o aumento de carga implica em aumento da potência. Talvez não haja necessidade de substituição dos tratores de transbordo, pois observa-se, em geral, o uso de máquinas com sobra de potência. Há ainda a questão do consumo de combustível. Um aumento na exigência de potência implica necessariamente em aumento de consumo de combustível”, lembra Mialhe.