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O admirável mundo novo da inovação no mercado agrícola

As cadeias produtivas do agro paulista se mobilizam para atender às determinações do Governo do Estado de São Paulo e continuar produzindo e escoando a produção para garantir o abastecimento de alimentos a população.
Foto: Ilustração (Crédito: Governo do Estado de SP)
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Durante muitos séculos, o sucesso da produção agrícola esteve relacionado apenas a ter acesso a mais terras produtivas. Essa era a forma de se aumentar a produção agrícola. Até que, depois da I Grande Guerra veio a interessante e importantíssima fase dos fertilizantes nitrogenados (o tijolo, a base de construção das plantas e dos seus frutos).

Durante a I Guerra, foram feitos enormes investimentos na produção de N (principalmente nitratos) para a produção de explosivos, munição e bombas. Com o fim da guerra, surgiu a pergunta de US$1 milhão: o que fazer com tanta fonte de produção de nitrogênio? Resposta: fertilizantes nitrogenados!

Amônia, ureia e nitratos passaram então a ter produção e disponibilidade crescentes a custos cada vez mais reduzidos, o que justificavam seu uso no campo – o Grande Ponto de Inflexão da agricultura, já que antes a disponibilidade de fertilizantes nitrogenados estava praticamente limitada ao uso de materiais orgânicos disponíveis em cada região (esterco e restos de plantas).

E depois veio a II Guerra e um novo super empurrão foi dado na produção de explosivos (ou seja: nitrogênio), o que mais uma vez, indiretamente, depois alavancou a produção de mais fertilizantes nitrogenados e reduziu mais ainda seus custos. E então bum! Big bang! A produção mundial de alimentos começa a escalar de forma excepcional, dando embasamento à produção de alimentos para uma população que crescia exponencialmente, graças às revoluções da medicina, da ciência, do saneamento básico e do aumento da renda desde o final do século XIX.

Com a maior disponibilidade de N, a agricultura precisou dar um novo passo. Só com N não era
suficiente e, então, a inovação foi usada mais uma vez, com a inclusão em grande escala dos demais macronutrientes, acrescentando primeiro P e K, depois S e, finalmente, os micronutrientes, graças à compreensão dos estágios das plantas e das suas necessidades em cada fase (a famosa Lei de Liebig, também conhecida como lei do mínimo ou do barril). A essa altura, a agricultura já era um segmento pujante da economia mundial e já justificava os investimentos necessários.

Disponibilidade de terra prontamente agricultável deixou de ser o fator exclusivo para o crescimento da produção dos alimentos, embora ainda fosse importante (vide os trabalhos da EMBRAPA no cerrado brasileiro). À medida que as monoculturas foram se espalhando mundo afora, os problemas com insetos e ervas daninhas foram crescendo. E um novo “bum” de inovação se seguiu: as moléculas de inseticidas, herbicidas e outros controladores de pragas foram expandidos – um novo empurrão exponencial foi dado na indústria de produtos agrícolas e na produção de alimentos.

Resolvido parcialmente o problema das pragas com o uso de agroquímicos, um novo problema surgiu: os efeitos deletérios do uso indiscriminado destes produtos para o solo, para a fauna e
para as pessoas. Junto a este novo desafio, surgiram também em sequência uma série de oportunidades para ganhos na agricultura com: fertilizantes foliares (inovação); produção de combustíveis como uma área paralela à produção de alimentos (inovação para cana-de-açúcar, milho e soja); alavancagem dos biológicos (inovação) e mais recentemente a produção de hidrogênio a partir de biomassa (inovação) e da agricultura regenerativa e compartilhada (inovação).

Todos em direção a uma agricultura mais sustentável, alavancados pela busca de produtividade e da urgente questão climática (pegada de carbono, pegada material e efeito colateral). Junte-se a isso as novidades relacionadas à:

  • Rápida concentração de mercado pelo agigantamento de multinacionais de produtos químicos por meio de: M&A – aumento rápido de portiólio, acesso a tecnologias sustentáveis e aumento da base de clientes; empresas de Private Equity – junção de empresas pequenas e médias para posterior venda; e expansão da indústria agrícola na cadeia de valor pela aquisição de revendas e distribuidores;
  • Questões geopolíticas globais e políticas individuais de vários países importantes, incluindo-se aí o Brasil;
  • Evolução tecnológica dos tratos agrícolas, criando a necessidade de mão de obra cada vez mais qualificada;
  • Inovação criada por pequenas empresas/ start ups, algumas vezes concentradas em hubs/ garage techs, e suas respectivas novas formas de captação e crescimento exponencial por meio de capital venture, shark tanks, crossfunding etc;
  • Avanço das grandes empresas/fazendas agrícolas na produção de insumos e beneficiamento de produtos agrícolas;
  • Novidades para um melhor uso da água por irrigação e tratamento de efluentes (já operando com força na cana com a vinhaça por ex.);
  • Tendência forte de avanço mundo afora no aumento do tamanho das propriedades/empresas agrícolas, de modo a fazer frente às atuais complexidades do agronegócio;
  • Busca de velocidade por meio da inovação para expansão do negócio agrícola para outros segmentos de mercado rentáveis e mais estáveis como, por exemplo, a produção de combustíveis automotivos e de aviação, e de energia sustentável (solar, eólica, gás e H2 a partir de biomassa) e de como financiar isso.

Tudo isso aí em cima aconteceu em cerca de 120 anos, depois de mais de 10 mil anos de “marasmo”! O mundo ficou complexo muito rápido e vai continuar avançando neste sentido. E a inovação tem uma participação importante em todo este processo. Particularmente no mundo da cana-de-açúcar, que tem que lidar as inesgotáveis tarefas cotidianas, ao mesmo tempo que “gira os pratos” para se desviar dos imprevisíveis mercados de commodities e clima – olhar para o futuro com mais velocidade e assertividade pode ser difícil no meio de tudo isso.

A inovação simplesmente deixou de ser incremental, lenta, de moda, só para a turma do P&D ou para quando sobrar tempo, para se tornar disruptiva, veloz, obrigatória e corporativa. As usinas também precisam mergulhar na nova ordem mundial – várias já estão fazendo isso, mas ainda existe uma avenida grande a ser percorrida.

A inovação hoje atingiu um estado holístico (assim como a sustentabilidade). Precisa ser um assunto da alta administração, partir de um plano estratégico, em que todas as caixinhas estão andando na mesma direção, regidas por uma visão que enxerga longe e corrige desvios rápido.
Essa definição é quem gera a visão de quais ferramentas usar, entre as inúmeras disponíveis.

O resultado dessa forma de atuação precisa ser de 1 + 1 = 3, 4, 5 e além. Não pode ser mais pela forma antiga, em que cada setor faz um esforço individual dentro da sua caixinha para no final ver se 1 + 1 deu 2.

Outro ponto interessante é que sem investimento e sem risco não existe inovação. E risco significa possibilidade de perda. A estratégia de inovação precisa estar clara, bem compreendida, gerar união dos departamentos (o que é sempre uma dificuldade), além de discussões francas, bem-intencionadas e “sem melindres” para acelerar ou corrigir o rumo. Isso cria a necessidade de diagnóstico do quanto as usinas estão pronta para o desafio e, também, se e quando vai investir nas mudanças estruturais necessárias. E por fim o financiamento. O dinheiro para ser usado em inovação não cai do céu – é dinheiro que deixa de ir para o caixa, ou para outro uso necessário da usina.

Felizmente, existem hoje uma série de opções de captação: créditos de carbono, fundos de risco, inovação aberta para solução de pequenos problemas, as garages/hubs/lab techs de start ups, crossfunding, trabalho com parceiros (quase não dá mais para fazer inovação sozinho), financiamentos especiais do governo para inovação, grant etc.

A criatividade é o limite e o limite quem faz é o tamanho da visão ou da percepção de que a onda chegou e está na hora de ir para o mar com a prancha debaixo do braço.

 

*Antonio Machado ajuda empresas a melhorar seus resultados por meio de processos de Inovação, Desenvolvimento de Novos Mercados e Redução de Pegada de Carbono por meio da sua consultoria Machado Inovação (machado@inovador.ind.br)

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