A decisão da liderança da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos de excluir a liberação da venda de E15 (mistura de 15% de etanol à gasolina) durante o ano todo do pacote de financiamento do governo, optando pela criação do Conselho de Energia Doméstica Rural E15, causou uma onda de revolta entre as indústrias de etanol e milho e acendeu um alerta vermelho entre os produtores de soja.
A medida aprovada pelo Congresso, após semanas de negociações, substitui a legislação que permitiria a comercialização contínua do biocombustível por uma força-tarefa encarregada de “desenvolver soluções legislativas” e apresentar recomendações até meados de fevereiro.
A decisão, aprovada na última semana, foi classificada como uma “farsa” pela Growth Energy e uma “extrema decepção” pela Renewable Fuels Association (RFA), que acusam o Congresso de ceder à pressão de refinarias de petróleo em detrimento dos agricultores norte-americanos em meio à pior crise econômica no campo em décadas.
Para as lideranças do etanol, a criação do conselho é vista como uma tática protelatória. “O Congresso escolheu refinadores estrangeiros em vez de agricultores e motoristas americanos hoje. Que farsa”, disse a CEO da Growth Energy, Emily Skor, em comunicado nessa segunda-feira, 26. Segundo ela, a falha em agir fará com que os produtores percam um mercado crítico.
O CEO da RFA, Geoff Cooper, reforçou a crítica, afirmando que “chutar o problema para frente” e começar do zero com um novo conselho “não faz absolutamente nenhum sentido” quando já existia um acordo de compromisso apoiado por diversos setores.
Por sua vez, o CEO da American Coalition for Ethanol (ACE), Brian Jennings, cobrou que qualquer novo pacote legislativo expanda, e não limite, o acesso ao mercado. “Enquanto a América rural enfrenta algumas das condições econômicas mais difíceis de uma geração, o Congresso deve aproveitar o momento e finalmente tornar o E15 o ano todo uma realidade”, disse.
Apesar da frustração, as entidades indicaram que participarão do processo do conselho para tentar garantir que uma solução legislativa seja aprovada em um cronograma acelerado, visando a temporada de verão.
Soja vê risco de retrocesso
Enquanto o setor de etanol lamenta a oportunidade perdida de expansão imediata de mercado, a Associação Americana de Soja (ASA) manifestou uma preocupação estrutural com o escopo do novo conselho.
Em nota divulgada na segunda-feira, 26, a entidade alertou que a resolução de criação do grupo permite uma revisão ampla de políticas, o que poderia ameaçar a integridade de programas de biocombustíveis de longa data, incluindo aqueles vitais para o biodiesel e o diesel renovável à base de soja.
“As diretrizes em aberto deste conselho criam um precedente perigoso que ameaça a base da indústria de biocombustíveis dos EUA. O conselho não deve abrir 25 anos de sucesso do programa RFS (Padrão de Combustíveis Renováveis) durante apenas algumas semanas de revisão”, afirmou o presidente da ASA, Scott Metzger.
A entidade teme que, ao tentar resolver o impasse do E15, o grupo acabe enfraquecendo políticas bipartidárias que sustentam a demanda interna por soja, tema crucial em um ano em que as exportações da oleaginosa para a China caíram 50%.
Agência Estado| Guilherme Nannini