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Opinião: A distopia do açúcar

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Alcançamos apenas 25% do ano de 2026 e já atravessamos todo tipo de turbulência que dificulta qualquer planejamento sério: guerras tarifárias, invasões, ameaças, narrativas contraditórias, inflação ressurgente. O protagonista dessa distopia que o mundo vive é um sujeito inescrupuloso que, se tiver os códigos de destruição em massa ao seu alcance, não hesitará em usá-los. Nesse cenário, construir um orçamento para uma usina de açúcar tornou-se um exercício de coragem — ou de resignação.

Existe uma palavra que descreve bem o mundo em que o mercado de açúcar opera hoje: distopia. Não a distopia literária de Orwell ou Huxley, com suas alegorias cuidadosamente construídas, mas uma versão mais banal e mais cruel — aquela em que as regras mudam a cada tuíte, em que uma trégua de dois minutos é vendida como paz duradoura, em que o petróleo sobe e cai conforme o humor de um único homem, e em que o produtor de açúcar precisa tomar decisões de longo prazo num ambiente que não respeita nem o curto prazo. É nessa distopia que as usinas brasileiras estão tentando fixar preço, planejar safra e sobreviver.

O mercado parecia, por alguns dias, prestes a sair do pesadelo. Os conflitos no Oriente Médio fizeram o preço do petróleo explodir, os fundos correram para cobrir suas posições vendidas a descoberto e NY chegou a subir quase 250 pontos. Era o tipo de recuperação que os mais otimistas vinham esperando há meses. Durou menos do que uma pausa para o café.

Quando nosso modelo apurou o total acumulado de açúcar de exportação fixado para a safra 26/27 até 31 de março, o volume surpreendeu pela aceleração significativa ocorrida nos últimos dois meses. Fevereiro e março registraram um volume de negociação na bolsa de NY de mais de 8.5 milhões de contratos, que se traduziu parcialmente num volume de fixação de 5.7 milhões de toneladas — elevando o percentual acumulado de fixação da safra para 55%, a um preço médio equivalente de 2,217 reais por tonelada FOB Santos, originados de uma fixação média em NY de 16.15 centavos de dólar por libra-peso.

Esse percentual de fixação é um terço menor do que aquele observado um ano atrás para a safra 2025/26, algo que já abordamos em comentários anteriores. O fato é que o mercado talvez tenha subestimado o volume que as usinas ainda tinham para fixar — e esse volume travou a recuperação. As usinas retardatárias, sem alternativa, jogaram a toalha nos momentos de alta e coibiram exatamente o movimento que o mercado precisava para respirar. Isso também ocorreu essa semana com o mercado em queda.

Os fundos, segundo o COT (Commitment of Traders),  o relatório dos comitentes publicado pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), a agência americana reguladora do mercado de commodities, com base nos dados de terça-feira dia 7 de abril, adicionaram mais 20,000 lotes vendidos à descoberto perfazendo um total de 101,000 lotes de posição short. Note o seguinte: em três semanas (período entre 18 de março e 7 de abril), o mercado praticamente ficou inalterado de 14.45 centavos de dólar por libra-peso para 14.58. Nesse período, os fundos compraram 104,000 lotes e o mercado subiu apenas 13 pontos. Por quê? As usinas retardatárias aproveitaram o rally e fixaram o máximo que podiam. Mas, especificamente nessa semana, o sentimento é que aquelas em posição mais critica (leia-se, sem nenhuma fixação significativa) venderam no pânico. E os fundos devem ter aproveitado a onda.

O fechamento desta sexta-feira mostrou NY encerrando a 13.76 centavos de dólar por libra-peso no vencimento maio/26, acumulando uma perda de 120 pontos na semana, equivalentes a 26.50 dólares por tonelada. A lógica predominante nos pregões parece apostar que, com a trégua de duas semanas concedida pelo ciclotímico presidente americano Donald Trump — candidato voluntário ao Prêmio Nobel da Paz —, o petróleo retornará aos níveis anteriores à escalada. Essa perspectiva, somada à valorização do real frente ao dólar (que chegou a negociar R$ 5,0049), alivia a pressão por reajuste da gasolina na refinaria e puxa o preço do etanol para baixo.

Para boa parcela do mercado e dos baixistas, esse quadro sinaliza que as usinas vão virar o mix para produzir mais açúcar. O que o mercado talvez não entenda é que usina tem planejamento. Mudar o mix não é apertar um botão na fábrica. As usinas já fixadas acomodam seus volumes pela ordem de vencimento — e não seria surpresa que muitas já estejam totalmente comprometidas para as entregas de maio e julho.

Possivelmente os fundos aumentaram as posições vendidas a descoberto de terça para cá, considerando que o mercado caiu mais 73 pontos, contando com a ajuda das usinas retardatárias e com na espera de aumento da produção de açúcar. Uma aposta perigosa. Esse sentimento simplesmente não existe no setor. As usinas vão continuar a preferir produzir etanol porque, pelos preços de sexta-feira, vender etanol equivalia a um açúcar de 16.50 centavos de dólar por libra-peso — 225 pontos acima do NY. Enquanto essa paridade persistir, o argumento do mix é ficção.

Há uma pergunta que toda usina deveria se fazer neste momento — e que pouquíssimas fazem com a seriedade necessária. Não é “essa opção está cara ou barata?” A pergunta certa é: quanto custa evitar um erro grave? Se o mercado sobe 300 pontos e você não tem proteção, o custo é enorme. Se você paga 40 pontos numa call e não a utiliza, o custo é controlado. O custo da proteção é, quase sempre, menor do que o custo de estar errado. Essa aritmética simples desaparece nos momentos em que o mercado parece comportado — e ressurge com força brutal quando ele não é.

Até outubro, que nos parece o vencimento onde se concentra o maior percentual de açúcar ainda a ser fixado, muita coisa pode acontecer. Esses preços baixos acendem um alerta para produtores cujo custo de produção elevado os impede de pensar em renovação, expansão e investimento. Com o real se fortalecendo dessa forma nós temos o custo de produção no Centro-Sul beirando os 18 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos. A queda de NY nos últimos dias combinada com a valorização do real está fazendo um estrago na receita esperada pelas usinas. É um derretimento de 20-25% da receita. Você, caro leitor e leitora, acredita em investimento na renovação de canavial, ou na expansão com esse encolhimento de recursos?

Algumas usinas já preveem um início de safra com queda na ATR em relação ao início do ano passado. Problemas climáticos no Brasil, Índia e Tailândia seguem no radar. O mercado ainda pode cair mais? Difícil encontrar base sólida para acreditar nisso.

O vencimento maio/26, após retornar a trabalhar dentro da banda de Bollinger dos 50 dias, perdeu a média móvel de 9 dias em 15.62 centavos e derreteu. Na sequência, perdeu também a média móvel dos 50 dias em 14.36 centavos e agora encontra suportes apenas em 13.62, 13.33 e, finalmente, nos 12.90 centavos de dólar por libra-peso. No curto prazo, o mercado precisa fechar o gap deixado entre os dias 7 e 8 de abril — entre 14.57 e 14.51 centavos — para retomar eventual potencial de tendência de alta. Fechado esse gap, as próximas resistências estão em 15.13 e 15.80 centavos de dólar por libra-peso. Essa é a visão técnica do nosso colaborador Marcelo Moreira.

 

*Arnaldo Luiz Corrêa é analista de Mercado e diretor da Archer Consulting

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