Monitoramento de solo, planta, clima e sistema hidráulico ampliam a precisão das decisões, aumentam a eficiência operacional da irrigação e ajudam as usinas a reduzir a exposição aos riscos climáticos
A irrigação na cana-de-açúcar está passando por uma transformação silenciosa, mas cada vez mais estratégica para as usinas canavieiras. O avanço de sensores, estações meteorológicas, plataformas digitais e sistemas automatizados está mudando a forma como a água é aplicada no campo e como as decisões são tomadas dentro das operações agrícolas.
Mais do que garantir produtividade em períodos de estiagem, a irrigação vem assumindo um papel central na gestão agrícola, permitindo maior previsibilidade da produção, uso mais eficiente dos recursos e menor dependência das oscilações climáticas.
Segundo Danilo Silva, gerente de Desenvolvimento de Mercado e Digital Farming da Netafim, a tecnologia tem ampliado significativamente a capacidade de monitoramento e controle dos sistemas irrigados. Além da fertirrigação automatizada, do uso da vinhaça via gotejamento e da aplicação de insumos por meio da irrigação, sensores e plataformas digitais passaram a integrar informações de solo, planta, clima e operação em um único ambiente de gestão.
O sistema de irrigação também vem sendo utilizado para aplicação de fertilizantes, produtos biológicos e outros insumos, ampliando seu papel dentro da estratégia agronômica das usinas. Além disso, as tecnologias permitem estratégias mais avançadas de manejo, como a restrição hídrica controlada para indução de estresse da planta e concentração de açúcares.
“Todo esse conjunto de informações pode ser integrado a Centrais de Operações Agrícolas, com foco em eficiência operacional e produtiva”, afirma.

Sensores ampliam a capacidade de decisão
A evolução tecnológica permitiu que a irrigação deixasse de depender exclusivamente da experiência de campo para se tornar uma operação orientada por dados. Hoje, sensores hidráulicos monitoram parâmetros como pressão, vazão e consumo energético, permitindo identificar desvios operacionais e antecipar necessidades de manutenção. Sensores climáticos acompanham informações como chuva, radiação solar, evapotranspiração, temperatura e umidade do ar, enquanto sensores instalados no solo monitoram a disponibilidade de água e a concentração de sais em diferentes profundidades.
Há ainda sensores capazes de acompanhar diretamente o comportamento da planta, fornecendo informações sobre crescimento, expansão vegetal e níveis de estresse hídrico.
Na Usina Santa Adélia, em Pereira Barreto (SP), o monitoramento das áreas irrigadas é realizado por meio de plataformas digitais utilizadas no gerenciamento da operação. Segundo o diretor agrícola da companhia, Cássio Paggiaro, ferramentas como Dataclimate, Tomografia do Canavial, Growphere e Scheduling contribuem para o acompanhamento dos sistemas irrigados e para o gerenciamento da operação agrícola.
“Guiadas pelas diretrizes agronômicas, as plataformas conectadas proporcionam informações online para a tomada de decisão de fornecer água e nutrientes adequados à planta no momento correto, garantindo o gerenciamento da produtividade e dos custos”, afirma.
Segundo Silva, a principal mudança está na capacidade de ampliar a coleta de dados em frequência e escala impossíveis de serem obtidas por métodos tradicionais. “A irrigação orientada por dados amplia significativamente a base de informações disponíveis, tornando as decisões mais assertivas, consistentes e escaláveis. O profissional passa a tomar decisões fundamentadas em evidências quantitativas, reduzindo riscos e variabilidade operacional”, afirma.
A integração dessas informações ocorre por meio de plataformas digitais que centralizam dados provenientes dos sensores e das estações meteorológicas, transformando-os em gráficos, indicadores e painéis de gestão.
Em algumas operações, essas informações já são integradas às Centrais de Operações Agrícolas (COAs), permitindo acompanhar indicadores de irrigação, clima e desempenho operacional em um único ambiente de monitoramento.
Segundo Paggiaro, um dos principais ganhos obtidos com o uso dessas ferramentas está relacionado à velocidade com que as informações chegam às equipes responsáveis pelo manejo.
“A velocidade da informação para a tomada de decisão é o principal benefício observado com a utilização das tecnologias, refletindo em gerenciamento assertivo da utilização dos recursos”, destaca.
Além de acompanhar as condições do campo praticamente em tempo real, o gestor pode realizar ajustes remotos na operação, acionando sistemas de irrigação e fertirrigação diretamente por computador ou dispositivos móveis.

Automação aumenta eficiência e reduz falhas operacionais
A automação também vem ganhando espaço dentro dos projetos irrigados. Segundo a Netafim, atividades como acionamento de bombas, abertura de válvulas, limpeza de filtros e programação da fertirrigação podem ser executadas automaticamente, reduzindo a dependência da intervenção humana e aumentando a precisão das operações.
O resultado é uma aplicação mais eficiente de água, fertilizantes e energia, além da redução de falhas operacionais.
“A água é aplicada no momento correto e na quantidade adequada, favorecendo o pleno desenvolvimento da cana-de-açúcar e reduzindo falhas operacionais”, explica Silva.
O uso da tecnologia também contribui para a redução do consumo energético. Com a automação, os sistemas podem operar em horários mais adequados e de menor custo, além de evitar acionamentos desnecessários.
Outro benefício está na fertirrigação. Equipamentos automatizados permitem aplicações mais precisas e parceladas de nutrientes, aumentando sua disponibilidade para absorção pelas plantas e melhorando a eficiência do uso dos fertilizantes.

Santa Adélia transforma irrigação em investimento estratégico
Esse movimento já pode ser observado em operações comerciais do Centro-Sul. Na Usina Santa Adélia, em Pereira Barreto (SP), a irrigação passou a ocupar posição estratégica dentro dos investimentos agrícolas diante dos déficits hídricos recorrentes registrados na região.
A companhia iniciou seus projetos irrigados em 2023 e atualmente possui cerca de 3 mil hectares implantados, além de outros 1,2 mil hectares em fase de expansão.
Segundo o diretor agrícola da usina, Cássio Paggiaro, a meta é que aproximadamente um terço da área cultivada opere futuramente sob irrigação deficitária, utilizando tanto sistemas de gotejamento quanto pivôs. “A intenção da USA é chegar a um terço das áreas cultivadas sendo irrigadas deficitariamente, tanto pelo processo de gotejamento como por pivôs”, afirma.
A decisão de investir na tecnologia foi impulsionada pelas condições climáticas da região, que historicamente registra déficits hídricos entre 700 e 800 milímetros.
“Aqui são situações bastante difíceis, com déficits hídricos muito grandes, e isso faz com que a gente não tenha previsibilidade da matéria-prima que vamos ter. A irrigação por gotejamento vem justamente para cobrir essa lacuna”, afirma.
Segundo Paggiaro, o histórico recente reforçou ainda mais a necessidade dos investimentos em irrigação. “Nos últimos anos, de cada cinco safras, praticamente quatro tiveram problemas maiores do que o déficit normal da região”, afirma.
Os primeiros resultados já demonstram ganhos relevantes. Os primeiros cortes apresentam incrementos médios superiores a 40 toneladas por hectare em comparação às áreas de sequeiro. Além do aumento da produtividade, a irrigação trouxe maior previsibilidade para a operação agrícola e para a qualidade da matéria-prima destinada à indústria.
“As áreas irrigadas têm nos dado muita previsibilidade de produção, se olharmos pela ótica da estimativa versus realizado, independentemente de como foi o ano climaticamente falando. Da mesma forma que a irrigação nos traz previsibilidade de produção de cana, também nos traz previsibilidade em concentração de açúcar, pureza, fibra e umidade da cana”, acrescenta.
O uso das ferramentas digitais também tem sido direcionado para ampliar a capacidade de antecipação das condições climáticas e ajustar o manejo ao longo da safra.
“Estamos buscando afinar as previsões climáticas de curto e médio prazo. O objetivo é preparar a planta fisiologicamente por estímulos hídricos e nutricionais, buscando a expressão do potencial produtivo de cada variedade cultivada”, afirma Paggiaro.
O avanço da irrigação também exigiu mudanças operacionais dentro da companhia. Com o crescimento das áreas irrigadas, a Santa Adélia criou uma estrutura dedicada exclusivamente ao manejo da cana irrigada.
O modelo de irrigação deficitária adotado em Pereira Barreto opera integrado à fertirrigação, permitindo que parte significativa da aplicação de insumos seja realizada via água. Segundo o diretor agrícola da usina, os ganhos de produtividade devem permitir que o custo da cana irrigada fique abaixo do observado nas áreas de sequeiro quando analisado em reais por tonelada produzida. A expectativa é de retorno dos investimentos entre quatro e cinco anos.
“A irrigação na Unidade Pereira Barreto da USA é considerada estratégica e vista como prioritária entre os projetos de investimento”, afirma Paggiaro.
Irrigação de precisão avança no setor
Para a Netafim, o setor sucroenergético já vive a era da irrigação de precisão. A tendência é que tecnologias cada vez mais integradas e autônomas ganhem espaço nos próximos anos, ampliando a capacidade de análise e tomada de decisão dentro das operações agrícolas.
Segundo Silva, a irrigação deixou de ser apenas uma ferramenta para elevar a produtividade e passou a desempenhar papel estratégico na gestão agrícola e operacional das usinas. “A irrigação passa a atuar como um verdadeiro seguro de produtividade”, afirma.
Na avaliação do executivo, garantir níveis elevados e estáveis de produção significa não apenas colher mais cana, mas também operar a indústria com maior eficiência, reduzir a ociosidade dos ativos e melhorar a competitividade das operações sucroenergéticas. “A produtividade é a engrenagem central que sustenta o funcionamento do sistema sucroenergético”, afirma.
Na avaliação de Paggiaro, o avanço da digitalização tende a ampliar a capacidade das usinas de transformar informações em ganhos operacionais e produtivos. “O futuro está em analisar os dados e as informações com ângulos diferentes da mente humana, gerando possibilidades de geração de valor por aumento de produtividade das lavouras com manutenção ou redução de custos”, afirma.
“Tecnologias autônomas, capazes de orientar e, em alguns casos, tomar decisões de forma automática pelo produtor, tendem a ganhar cada vez mais espaço no cenário da irrigação agrícola”, conclui o especialista da Netafim.
Natália Cherubin para RPAnews


