Com produção recorde de etanol prevista para 2026, país eleva mistura na gasolina, amplia consumo interno e pode reduzir o excedente de milho destinado ao mercado externo
Nem só o Brasil vive o boom dos biocombustíveis: a Argentina também está entrando em um período de transição energética e de ajustes do setor.
Embora a atual Lei de Biocombustíveis permaneça em vigor até 2030, o governo propôs recentemente uma nova legislação que liberalizaria substancialmente o mercado, aumentaria os mandatos de mistura e criaria um arcabouço regulatório para biocombustíveis avançados, como o combustível sustentável de aviação (SAF), o diesel renovável (HDRD), o hidrogênio e o biometano.
Se uma nova lei de biocombustíveis for aprovada, ela representará a reforma mais significativa do setor de biocombustíveis da Argentina desde a promulgação da Lei de Biocombustíveis original, em 2006. A reforma proposta aumentaria o mandato nacional de mistura de bioetanol de 12% para 15% e o mandato de biodiesel de 7,5% para 10%.
Embora as negociações continuem no Senado, a proposta recebeu maior apoio político e da indústria do que tentativas de reforma anteriores. As disposições sobre o etanol contam com amplo apoio, enquanto o biodiesel permanece a questão mais controversa devido às preocupações dos pequenos produtores nacionais sobre o aumento da concorrência de grandes exportadores verticalmente integrados e empresas petrolíferas.
Metas ambientais
A Argentina se comprometeu a limitar as emissões de gases de efeito estufa a 375 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2030, com a expansão dos combustíveis de baixo carbono entre as medidas previstas.
Segundo relatório do adido do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em Buenos Aires, a Argentina mantém isenções fiscais para biocombustíveis, enquanto os preços oficiais de compra sob o mandato de mistura continuam sendo regulamentados pela Secretaria de Energia.
“No entanto, os atrasos nos ajustes de preços têm reduzido periodicamente a lucratividade dos produtores, principalmente para pequenas e médias empresas de biodiesel que dependem do mandato nacional”, aponta.
Produção de etanol em alta
De modo geral, a perspectiva para os biocombustíveis na Argentina é cada vez mais positiva. A produção de etanol deve ser recorde em 2026, com 1,35 bilhão de litros. Como base de comparação, o Brasil produz mais de 40 bilhões de litros do biocombustível. Do total produzido por lá, cerca de 60% vem do milho.
O avanço argentino ocorre, portanto, em uma escala muito menor que a brasileira, mas com a mesma característica importante de expansão no mercado interno.
O consumo doméstico também deve bater recorde, alcançando 1,28 bilhão de litros, alta de 8,5% em relação a 2025. A mudança nas regras de mistura, que permite às distribuidoras negociar voluntariamente até 15% de etanol na gasolina, deve acrescentar cerca de 100 milhões de litros à demanda neste ano e elevar a mistura efetiva para perto de 13%.
E a maior parte desse etanol não deve cruzar a fronteira. Cerca de 95% da produção argentina deve ser destinada ao mercado doméstico. As exportações estão projetadas em 80 milhões de litros em 2026, abaixo do recorde de 131 milhões de litros de 2025. E o Brasil deve continuar como o principal destino dos embarques argentinos.
Para o Brasil, portanto, a movimentação argentina merece atenção não apenas pelo comércio de etanol, mas também pelo aumento da transformação do milho em combustível na região. Ao mesmo tempo em que amplia a mistura obrigatória e abre espaço para novos investimentos, a Argentina começa a consumir mais do próprio etanol que produz – reduzindo o excedente disponível para exportação.
Capacidade ociosa no biodiesel
No biodiesel, a produção projetada é de quase 1,2 bilhão de litros, um aumento de 8% em relação a 2025. O consumo doméstico deve crescer 20%, para 960 milhões de litros, enquanto a mistura média deve chegar a 7,2%. Apesar disso, as usinas devem operar com apenas cerca de 27% da capacidade instalada, mostrando que o setor ainda está longe de utilizar todo o seu potencial industrial.
Apesar do crescimento do biodiesel, o produto argentino enfrenta restrição ao acesso de muitos mercados internacionais. Desde 2018, os Estados Unidos estão efetivamente fechados ao biodiesel argentino devido a direitos antidumping e compensatórios combinados de aproximadamente 130% a 160%. Segundo o USDA, uma revisão obrigatória de extinção quinquenal não é esperada até 2028.
A União Europeia continua sendo praticamente o único grande destino de exportação. De acordo com um acordo de 2019, o biodiesel argentino se beneficia de um preço mínimo de importação e de uma cota anual isenta de impostos de 1,36 bilhão de litros.
CNN| Fernanda Pressinott


