Captura e armazenamento permanente do CO₂ da fermentação pode gerar créditos de carbono e ampliar as possibilidades de monetização para o setor
A captura e o armazenamento permanente do CO₂ gerado na produção de etanol podem abrir uma nova frente de receita para as usinas sucroenergéticas. Por meio da tecnologia de Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono (BECCS, na sigla em inglês), o gás liberado durante a fermentação pode ser capturado, comprimido e armazenado em reservatórios geológicos, permitindo a geração de créditos associados à remoção permanente de CO₂ da atmosfera.
Segundo Daniel Pedroso, executivo da EnduraCarbon, os créditos gerados a partir de projetos de BECCS tendem a apresentar maior integridade ambiental devido à permanência do armazenamento geológico.
“O carbono capturado por meio da tecnologia BECCS ficará armazenado para sempre em depósitos geológicos, enquanto uma floresta tem sua integridade mais frágil, podendo sofrer danos ligados a desmatamento ou fogo. Por isso o crédito de BECCS vale mais, e aí reside uma grande nova oportunidade de receita para as usinas de etanol”, afirma.
Uma das particularidades da indústria de etanol está justamente nas características do CO₂ gerado durante a fermentação. Diferentemente de outros processos industriais, nos quais o carbono precisa ser separado de uma mistura de gases, a produção do biocombustível libera um fluxo de CO₂ com elevado grau de concentração.
Segundo Everton Oliveira, presidente da Hidroplan, essa característica facilita a captura para posterior transporte e armazenamento.
“Na produção de etanol, a fermentação converte os açúcares em álcool e libera CO₂ praticamente puro, que na maior parte das usinas é simplesmente dissipado para a atmosfera. Entretanto, esse fluxo relativamente concentrado de CO₂ oferece uma oportunidade singular”, explica.
Após a captura, o gás pode ser comprimido e transportado até formações geológicas adequadas ao armazenamento permanente.
“Como o carbono originalmente foi retirado da atmosfera pela fotossíntese e deixa de retornar ao ciclo atmosférico, o resultado líquido é a remoção de CO₂ da atmosfera”, acrescenta Oliveira.
Créditos podem agregar valor ao CO₂ capturado
Na avaliação de Pedroso, a permanência do carbono em reservatórios geológicos é justamente um dos fatores que pode elevar o valor dos créditos gerados por projetos de BECCS em comparação com outras modalidades.
A possibilidade de monetização ocorre em um momento em que o CO₂ da fermentação já apresenta uma característica favorável à captura, por possuir elevada concentração, segundo Oliveira.
Além da comercialização de créditos, o desenvolvimento de projetos de BECCS pode estar associado à certificação de etanol com menor intensidade de carbono e à busca por mercados que valorizam combustíveis com melhor desempenho ambiental.
No caso do etanol, Oliveira destaca que o diferencial está na origem biogênica do carbono: o CO₂ é inicialmente retirado da atmosfera pela cana-de-açúcar durante o crescimento e parte dele volta a ser liberada durante a fermentação. Quando esse fluxo é capturado e armazenado permanentemente, o carbono deixa de retornar à atmosfera.





