Mix mais alcooleiro e menor produção acumulada aumentam incerteza sobre a oferta; expectativas para a moagem seguem entre 630 milhões e 645 milhões de toneladas
A produção de açúcar do Centro-Sul deverá recuar na safra 2026/27, mesmo diante das expectativas de uma moagem elevada de cana-de-açúcar. A avaliação é do Rabobank, em análise assinada por Andy Duff, gerente do RaboResearch F&A Brasil e estrategista global para açúcar e etanol, e outros especialistas do banco. Diante do mix mais direcionado ao etanol e do volume produzido até o fim de julho, a instituição considera “quase certo” que a fabricação do adoçante fique abaixo da temporada anterior.
Segundo a análise, a produção de açúcar do Centro-Sul chegou a 16,9 milhões de toneladas até o fim de julho, ante 19,2 milhões de toneladas no mesmo período da safra anterior. Ao mesmo tempo, as expectativas para a moagem permanecem entre 630 milhões e 645 milhões de toneladas de cana, favorecidas pelas chuvas registradas em maio e junho.
A safra também vem sendo marcada por interrupções da moagem associadas às chuvas. Dados citados pelo Rabobank mostram que o mix açucareiro ficou em 42,5% entre abril e junho, segundo a UNICA, enquanto informações do Ministério da Agricultura até o fim de julho indicavam leve avanço, para aproximadamente 44% entre abril e julho.
Mesmo em um cenário de moagem de 640 milhões de toneladas, e considerando qualidade da cana semelhante à da temporada anterior, a análise calcula que o mix destinado ao açúcar precisaria alcançar 53% entre agosto e o encerramento da safra para que a produção de 2026/27 igualasse as 40,4 milhões de toneladas registradas em 2025/26.
“Dado o mix e a moagem até hoje, é quase certo que a produção de açúcar caia em 2026/27, a questão é por quanto”, aponta a análise.
Alta do açúcar pode mudar decisão das usinas
A avaliação ocorre após meses de preços pressionados no mercado internacional. Segundo o Rabobank, os futuros do açúcar bruto permaneceram durante meses ao redor de 14,5 centavos de dólar por libra-peso, antes de registrarem forte valorização em meados de agosto.
O contrato de outubro fechou a 17,5 centavos de dólar por libra-peso em 19 de agosto, maior nível do ano até então, enquanto os contratos para março e maio de 2027 ultrapassaram 18 centavos. Em dólar, a alta foi de aproximadamente 20% frente à média dos três meses anteriores e, em reais, chegou a 23%, em razão também da desvalorização da moeda brasileira.
Diante do nível relativamente baixo de fixação de preços para 2026/27, o Rabobank avalia que a recuperação das cotações cria espaço para as usinas reagirem à mudança na arbitragem entre açúcar e etanol, aumentando o direcionamento da cana para a produção do adoçante.
Ainda assim, mesmo com a possibilidade de uma elevação do mix açucareiro no restante da temporada, o banco avalia que a produção deverá ficar abaixo do ciclo anterior.
Índia também contribui para recuperação dos preços
Fora do Brasil, os acontecimentos na Índia também contribuíram para a valorização recente das cotações. Diante da alta dos preços domésticos, o país autorizou a importação de 1 milhão de toneladas de açúcar. Paralelamente, as monções abaixo da média aumentaram as preocupações com a produção indiana de cana e açúcar na safra 2026/27, que começa no quarto trimestre.
Segundo o Rabobank, os desenvolvimentos registrados no Brasil e na Índia foram favoráveis aos preços e provocaram um reposicionamento dos fundos, ampliando o movimento de alta.
A análise pondera, porém, que vendas dos produtores em níveis de preços que não eram observados ao longo da curva havia mais de um ano podem limitar novos avanços caso não surjam novos fatores altistas.
Clima passa a ser ponto de atenção
Daqui para frente, o clima deverá ganhar ainda mais atenção do mercado. O Rabobank alerta que condições atípicas podem aumentar a preocupação de que não haja tempo suficiente para colher toda a cana disponível no campo.
Nesse cenário, poderão ocorrer novas reavaliações das projeções para o volume de açúcar brasileiro disponível para exportação.
A análise denomina o movimento recente de valorização como a chegada do “prêmio El Niño”, diante da maior atenção dos agentes aos riscos climáticos e seus possíveis impactos sobre a oferta.
No mercado de etanol, os preços também começaram a mostrar sinais de recuperação em agosto. Segundo o Rabobank, ainda não está claro se a reação decorreu principalmente da valorização do açúcar ou de um aquecimento da demanda nos postos, após um período prolongado de elevada competitividade do biocombustível frente à gasolina.
Natália Cherubin para RPAnews





