A força, cada vez mais presente, das “soft skills”

As habilidades interpessoais devem ser cada vez mais valorizadas por empresas e profissionais
*Beatriz Rezende
Início de ciclo, retomadas, recomeços, novas oportunidades, desafios e propostas de mudanças: motivos mais do que suficientes para se curvar a um importante tema que é o de investir e cuidar das nossas habilidades pessoais, hoje fundamentais na composição da nossa marca pessoal e profissional.
Há anos temos falado de forma insistente – e eu sou uma das que toca nesse assunto desta forma – sobre a importância dos aspectos comportamentais e atitudinais nos portfólios de carreira. De que Inteligência Emocional hoje é uma das maiores ferramentas de carreira, tanto que os processos seletivos, movimentações internas (aumentos salariais, evolução em carreira e novos desafios) e outros, estão sendo pautados e definidos pelo perfil pessoal, mais do que as competências técnicas e os resultados operacionais somente.
Por mais que o mercado profissional e empresarial venha trazendo fortemente essa informação nos últimos anos e boa parte das empresas trabalhando já nesse aspecto, o da valorização de bons perfis, aqueles que agregam valor à cultura interna e às relações de parceria, percebo que na prática um grande número de profissionais ainda não têm dado a devida atenção a essa necessidade que, se não cuidada, poderá trazer surpresas e impactos àqueles que não têm se preparado para essa “mudança de chave”.
As Soft Skills são competências que não são desenvolvidas na educação formal (escolas, faculdades, treinamentos técnicos etc), mas sim através de bons exemplos, direcionamentos, esforço da busca de autoconhecimento, autorregulação, autodesenvolvimento, feedbacks para correção e/ou ajustes dessas características, ou até por meio de um ou outro treinamento comportamental vivencial que despertem as pessoas que precisam melhorar suas posturas, mas acrescido de estímulos continuados no dia a dia por parte delas mesmas e dos corresponsáveis pela sua evolução (líder, mentor, apoiador ou incentivador). Mas, acima de tudo, dependem, da percepção da necessidade de mudança e empenho para tal por parte da pessoa.
Para esse futuro já presente, especialistas da área têm percebido e atestado que as Hard Skills (competências técnicas) estão sendo menos procuradas do que as citadas acima. São importantes, sim, mas não são, na maioria dos casos, as que estão fazendo a diferença. Até porque: “as competências técnicas aprendidas valem por cada vez menos tempo. O valor estará na atitude, e esta é algo intrínseco” – disse Ivar Berntz, sócio líder da consultoria Deloitte.
O futuro prevê que o conhecimento será cada vez mais perecível e a especialidade que nos segurou até hoje não garantirá o nosso espaço e sucesso no futuro. As pessoas/profissionais terão que aprender e desaprender de forma continuada e terão que aflorar em seu rol de habilidades a capacidade de autodidatismo. Teremos que aprender sozinhos e de forma rápida. Nesse cenário, as atitudes e habilidades interpessoais, relacionais e de comunicação farão a diferença.
Sobre essa importância, vale à pena reforçar que as competências e proficiências técnicas não deixam de ter o seu valor no mercado. É que antes elas imperavam quando da busca de bons profissionais e hoje falamos em ter no nosso quadro um profissional completo: aquele que é um conhecedor de uma profissão ou assunto e que também demonstre inteligência emocional nas relações de trabalho.
Cada vez mais o mercado nos reconhecerá pela nossa marca pessoal e esta é um conjunto de vários pontos: o seu conhecimento aplicado com resultado e certificado por muitos; a sua boa postura e imagem deixada por onde passa; a sua ética comprovada nas relações e situações que te colocam em prova; na capacidade de se relacionar e se comunicar; e na credibilidade que gera em cima de tudo isso.
Quando falamos em carreira, os profissionais podem cometer algum tipo de erro: erros morais graves; éticos; profissionais; estratégicos e de marketing pessoal. Alguns são irreparáveis, infelizmente, mas a maioria deles pode ser resgatada ou transformada. Entretanto, é preciso foco e dedicação a isso.
O tempo é de transformações, disrupturas, flexibilizações e adaptações a novas demandas e desafios. A revolução tecnológica prevista virá para simplificar as nossas operações, mas o fator humano sempre será a força em contextos, especialmente mais amplos, complexos, diversos e conectados.
Meta número 1 para 2020: empresas e profissionais dedicarem-se mais a esse tema. É hora de tratá-lo de forma adulta.
*Beatriz Resende é a consultora, palestrante, conselheira de Carreira e Facilitadora do Desenvolvimento Humano e Empresarial da Dra. Empresa