Bom ou ótimo

Ricardo Pinto

Dois amigos foram presos usando drogas. Depois de alguns dias na cadeia, ambos foram levados ao juiz. De bom humor, o juiz lhes disse:

– Vou dar uma semana para vocês fazerem o máximo de pessoas desistirem das drogas. Se conseguirem bons resultados, eu os liberarei da prisão.

Uma semana depois, os dois amigos retornaram ao juiz, que apontou para o primeiro e perguntou:

– Quantas pessoas você conseguiu fazer com que desistissem das drogas?

Ele respondeu:

– 18.

E o juiz falou:

– Bom trabalho! Qual foi o método que você utilizou?

– Eu desenhei um círculo grande e, do lado, um círculo pequeno. Apontei para o grande e falei para os viciados que encontrei: esse é o seu cérebro antes das drogas.

Daí o juiz voltou-se para o segundo e fez a mesma pergunta. Ele respondeu:

– 140.

O juiz levantou, assustado:

– Que ótimo trabalho! E qual foi o seu método?

– Bem, eu usei um método parecido com o do meu amigo, só que eu desenhei um círculo pequeno e outro grande do lado. Apontei para o pequeno e falei para os viciados: esse é o seu ânus antes de ir para a cadeia.

Pela história, fica patente que o trabalho classificado pelo juiz como ótimo teve um resultado muito superior ao que ele reputou como bom. Mas nem sempre um ótimo trabalho é melhor do que o bom, ou é?

Segundo o filósofo e escritor François-Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudônimo Voltaire, que morreu em 1778, “o ótimo é inimigo do bom”. Com esta frase, Voltaire queria dizer que o perfeccionismo pode nos levar a protelar ou atrasar a entrega de um trabalho ou serviço só porque ainda não conseguimos atingir um nível que consideramos ideal ou ótimo. Pior ainda, esta crença pode nos conduzir a um estado de paralisia ao abandonar projetos e sonhos dos quais, se não podemos fazer 100%, então não faremos nada.

A perfeição, em si, não existe, já que tudo pode ser melhorado. Aliás, para inovar, é preciso desacreditar na perfeição absoluta, como prega Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn. Para ele, “se no futuro você não se sentir envergonhado pelo produto que está lançando agora, então você o lançou tarde demais”. É a prova de que o bom agora é melhor do que o ótimo num futuro distante.

Mas, como a vida é cheia de contradições, o consultor norte-americano Jim Collins afirmou o contrário, ou seja, que “o bom é inimigo do ótimo” no livro “Empresas feitas para vencer”, 223 anos depois da morte de Voltaire. O consultor quer mostrar com seu enfoque que a imensa maioria das empresas nunca se torna ótima ou excelente justamente porque se contenta em tornar-se (apenas) boa.

E isso vale para as pessoas também. Para ser bom em algo, basta fazer o que os outros lhe pedem, porém um pouco melhor do que eles esperam. Contudo, para ser ótimo em alguma coisa, é preciso fazer diferente, estar acima da média, não se contentar com o usual, deixar a zona de conforto e seguir adiante em direção ao excepcional.

Mas perseguir a excelência não é fácil. Exige sacrifício, disciplina e coragem. É preciso querer ser melhor do que os outros não pela arrogância, mas por satisfação pessoal e ambição. Aliás, ninguém comete heresia quando afirma ter objetivos audaciosos e luta por eles. Pelo contrário. Só não confundamos ambição com ganância, pois enquanto a ambição nos faz superar nossos limites com determinação e comprometimento, a ganância nos leva a querer tudo para nós próprios sem quaisquer limites ou escrúpulos.

A dificuldade de ser um ótimo profissional é brilhantemente descrita em uma frase do músico norueguês Erlend Øye: “o tempo que demora para irmos do 0% a 90% é igual ao de irmos do 90% a 100%”.

Em resumo, para encerrar a discussão sobre quem é inimigo de quem, acredito que avançar constantemente, gerando o máximo de resultados que as condições permitirem é sempre melhor do que a inércia. Logo, para mim o bom e o ótimo podem ser amigos.