Broca da cana: inseticida com moléculas inéditas é nova ferramenta para o manejo da praga

Novo inseticida para broca da cana da Corteva tem ativos inéditos para a cultura e pode ser uma importante ferramenta de controle e manejo da praga

Natália Cherubin

Para o controle da broca da cana – uma das pragas mais importantes para o segmento canavieiro e que chegam a causar prejuízos econômicos de quase R$ 5 milhões por ano, um novo produto, composto por duas moléculas inéditas na cultura da cana, deverá se tornar uma ferramenta importante não só para o manejo, mas também para reduzir o risco de resistência da praga à inseticidas.

Apesar do mercado contar com cerca de 40 produtos registrados para a broca da cana (diatrea saccharalis), de acordo com Agrofit (Sistema de Agrotóxicos e Fitossanitários do Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento), a maioria deles tem como base as mesmas moléculas.

Segundo Leila Luci Dinardo Miranda, pesquisadora e diretora do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro de Cana do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) na área de Manejo Integrado de Pragas e Nematoides em Cana-de-açúcar, a molécula que os produtores mais utilizam para controle da broca hoje é a chlorantraniliprole, uma diamida.

Novo inseticida para broca da cana traz duas moléculas inéditas para controle da praga
De acordo com a pesquisadora do IAC, é imprescindível que novas moléculas entrem no mercado para rotacionar e proteger a cultura contra resistência da broca a inseticidas

“É claro que depende da época em que se aplica, mas se for necessário fazer controle de broca na época mais seca do ano, em que a cana cresce pouco, qualquer molécula dá bom resultado. No entanto, na época chuvosa, quando as populações de broca são maiores e a cana cresce mais rápido, em geral, as diamidas dão resultado melhor, especialmente a chlorantraniliprole, que como se transloca na planta, atinge as folhas mais novas e protege o canavial por um tempo um pouco maior do que as demais moléculas”, explica a pesquisadora.

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O novo inseticida para broca da cana, o Revolux, é lançamento da Corteva e tem como base duas moléculas nunca antes usadas na cultura da cana –  Espinetoram e Metoxifenozide  – o que, de acordo com a pesquisadora, será imprescindível para o manejo da broca da cana-de-açúcar.

“Quanto mais moléculas e quanto mais diferentes forem os produtos, maior a chance de rotacionar, e quanto mais se rotaciona moléculas, menor é a probabilidade de selecionar indivíduos resistentes. Para manejo da resistência de insetos aos inseticidas, novas moléculas são imprescindíveis”, afirma Leila.

A resistência de insetos a inseticidas é uma realidade há muitas décadas em diferentes culturas como o café, a soja e o algodão. Quem trabalha com essas culturas tem uma preocupação muito grande com resistência de insetos com inseticidas, porque já há muitos casos descritos de pragas importantes com resistência.

“Temos que ter cuidado com a cana. Em cana há populações de cigarrinhas resistentes a inseticidas e a broca da cana é outra grande candidata a ter seus indivíduos resistentes selecionados em uma população por causa do uso do mesmo inseticida de forma contínua numa mesma área. Então é cada vez mais importante rotacionar produtos. E daí vem a importância de ter um lançamento de uma molécula nova e que ainda não era utilizada em cana”, destaca a pesquisadora do IAC.

Moléculas inéditas para cana

Os ativos do novo produto, Espinetoram e o Metoxifenozide, ganharam o prêmio de química verde, chancelado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), por sua ação específica em insetos-alvo, seletividade aos organismos benéficos em condições de campo e atributos inócuos ao meio ambiente.

Segundo Rodrigo Takegawa, líder de Marketing de Cana da Corteva Agriscience, a combinação de ambos os ingredientes ativos faz com que o inseticida da companhia seja uma solução única para o controle da broca da cana dentro de um manejo sustentável.

“O Revolux tem ação de contato e ingestão com atividades translaminar e lipofílica, provendo um longo período de controle por atuar em todo o ciclo da praga, a começar pelo ovo e também lagartas de 1º e 2º ínstares. O produto apresenta ação ovicida direta sobre os ovos depositados nas folhas recém-tratadas, rapidez no controle e longo residual com uma baixa dose de ingrediente ativo por hectare devido sua alta potência inseticida”, destaca Takegawa.

Assim como os outros produtos do mercado que, segundo a pesquisadora do IAC interagem muito bem com os inimigos biológicos, e por ser composto por ativos com dois modos de ação diferenciados, o Revolux é seletivo aos inimigos naturais, o que permite um bom manejo integrado de pragas.

“O inimigo biológico para controle da broca da cana mais usado hoje é Cotesia. Sendo assim, o uso do químico mais o biológico combinam muito bem, porque os inseticidas em geral só controlam a broca que ainda não entrou no colmo e algumas vezes controlam também ovos, enquanto a cotesia parasita a broca que já está dentro do colmo, então, é um casamento perfeito. Mesmo assim, é importante selecionar bem produtos químicos que não afetem a cotesia. Alguns com piretróide, por exemplo, tem risco um pouco maior, mas é só uma questão de esperar alguns dias depois da aplicação do produto para liberar a cotesia”, explica a pesquisadora do IAC.

 Manejo integrado da broca da cana

O Revolux na dose de 150 ml/ha apresenta um período de controle aproximado de 60 dias, o que significa o tempo em que a população da praga leva para se restabelecer ao nível de controle. Segundo Takegawa, esse longo período de controle é alcançado pela combinação desses três fatores como: ação ovicida direta, rapidez no controle e pelo longo residual.

Dentro do manejo com Cotesia Flavipes, o produto deverá ser aplicado antes, para depois realizar a liberação do inimigo natural. “Neste caso, é feito o monitoramento para avaliar a presença da praga. Se o nível de controle (NC) for atingido, é feita a aplicação de Revolux. Pela seletividade, é possível realizar a liberação da Cotesia a partir de 1 hora após sua aplicação”, explica Takegawa.

Além disso, ele recomenda, para o manejo de resistência, rotacionar grupos químicos para não repetir aplicações de produtos do mesmo grupo na mesma cultura para evitar a seleção de indivíduos resistentes que podem prejudicar a eficácia do produto. “É preciso também adotar o uso de controles biológicos para implementação de uma estratégia de manejo integrado de pragas (MIP)”, salienta.

De olho no mercado de biológicos

A Corteva, divisão agrícola da fusão entre Dow e Dupont, já vem atuando no segmento de biológicos desde o ano passado, quando fechou uma parceria com a Stoller, líder mundial em nutrição foliar de plantas, fisiologia vegetal e em soluções biológicas, para a distribuição do nematicida Rizotec, solução biológica que auxilia no manejo de nematóides e elimina uma grande quantidade de ovos e de fêmeas na cultura da cana-de-açúcar.

Além disso, Takegawa afirmou à RPAnews, que recentemente foi criada uma plataforma global de biológicos dentro da Corteva, que se dedicará no desenvolvimento de recursos aos agricultores para múltiplas culturas, dentre elas cana, com vistas aos controles biológicos aplicados ao solo e foliares, eficiência no uso da nutrição e bioestimulantes, saúde do solo e fertilizantes biológicos.