Cadê o florescimento?

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As estimativas realizadas no início da safra pela Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar) e outras consultorias especializadas previam que o ano de 2016 seria muito favorável à ocorrência de florescimento em grande parte do Centro-Sul, seja em maior ou menor intensidade.

O monitoramento realizado pelo CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) indicava que o principal cinturão de cana do Brasil, a região de Ribeirão Preto, SP, veria uma florada intensa na safra 2016/17. O pesquisador do CTC, Mauro Valente, chegou a afirmar à Reuters que 2016, além de ser um ano de bastante ocorrência, seria um dos maiores na comparação histórica.

O levantamento apontava que no período de indução do florescimento, as regiões de Goianésia e Mineiros, GO, Conceição das Alagoas, MG, Pradópolis e Piracicaba, SP e Rio Brilhante, MS, teriam alta favorabilidade para o florescimento. Quirinópolis, GO, Jales e Valparaíso, SP, teriam média probabilidade e a região mais ao Sul de São Paulo, de Ourinhos, indicava baixa favorabilidade para o florescimento. No entanto, o florescimento intenso previsto. Qual seria o motivo?

Talvez uma das questões mais estudadas na área de fisiologia da cana-de-açúcar seja o florescimento, por ser um fator que causa perda de produtividade agrícola, redução do ATR e, em determinados pontos, alterações no sistema de corte, fazendo com que haja danificação dos blocos de colheita e a necessidade de cortar uma cana ainda em estado jovem. “Em consequência a tais fatores, órgãos envolvidos na cultura se interessam pelo florescimento ser impactante na redução da quantidade de cana e qualidade tecnológica e, com isso, em todos os fatores relacionados a comercialização dos produtos advindos da cana-de-açúcar, tanto nacional como internacional. Onde, portanto, houve erro de avaliação se todos os levantamentos indicavam florescimento? ”, questiona Jose Luiz Ioriatti Dematte, professor Titular e ex-chefe do Departamento de Solos e Nutrição de plantas da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo).

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Figura 1 – Fatores de condicionamento para o desenvolvimento do florescimento da cana-de-açúcar

O FLORESCIMENTO

Antes de falar sobre os cálculos matemáticos que levam os especialistas a anteverem o florescimento é preciso entender que este fenômeno é totalmente indesejado pelos produtores, pois acarreta uma série de prejuízos a cultura. O processo de florescimento de cana-de-açúcar é controlado por diversos fatores, sendo fundamental a ocorrência de um fotoperíodo de estímulo para que o meristema apical da planta se modifique, deixando de produzir folhas e colmos e passando a formar a inflorescência. Este estímulo pode durar dias.

De acordo com o professor e doutor Paulo Alexandre Monteiro de Figueiredo, engenheiro agrônomo da FCAT/Unesp (Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas da Universidade Estadual Paulista), o estímulo acontece com a redução de horas de luz dos dias nos meses que finalizam o verão e iniciam o outono. Dessa forma, o balanço final de hormônios após este período favorece a transformação da gema caulinar em gema floral e, meses mais tarde, havendo a diferenciação, a planta emitirá gradativamente a estrutura reprodutiva, que é a flor. Além do fotoperíodo, possuem grande importância as temperaturas diurnas e noturnas durante o período indutivo. Também possui enorme relevância a disponibilidade hídrica nas lavouras de cana-de-açúcar no período indutivo ou logo após o mesmo. “Portanto, a combinação desses fatores, por mais que estivessem favoráveis no início do período indutivo na região Centro-Sul, não proporcionaram um florescimento profuso na safra 2016/17.”

A figura 1 ilustra a translocação de estímulos (baseado em enzimas, fitocromos) para o florescimento. Após grande exposição a luz solar (de no mínimo 12 h) e de passar por 11,5 horas em período crítico escuro (itens 1 e 2), a folha, que é o grande laboratório e o veículo, que é a água, translocam o estímulo (fitocromos) para floração da folha para o ápice (item 3) que associado ao mesmo estímulo de enzimas de translocação a partir do cartucho foliar e das raízes (itens 3a e 3b) concentram e fixam as enzimas no ápice, o que causa alterações na gema apical e, consequentemente, o florescimento.

“A maioria dos autores indica os seguintes fatores como importantes para o florescimento: idade da planta; fotoperíodo (luminosidade); umidade (água disponível no solo); temperatura do ar (máxima e mínima) e sensibilidade varietal”, adiciona Dematte.

Na fase juvenil, sem colmos visíveis, não há indução floral em cana, porém com 2 a 3 internódios visíveis (fase foto indutiva) pode florescer inclusive e principalmente na fase adulta. A Tabela 1 ilustra os diversos estágios que compõem o florescimento no Centro-Sul, desde meados de fevereiro a maio/junho e desde a fase de indução até a abertura da panícula. Já a tabela 2, indica a idade da planta em função do florescimento.

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Monitoramento realizado pelo CTC sobre florescimento e divulgado pela Unica no início de 2016

Fatores externos ou internos ao vegetal podem facilitar o florescimento. Os principais externos estão relacionados ao fotoperíodo, temperatura ambiente, latitude do local onde situa-se a lavoura de cana-de-açúcar, umidade do ambiente produtivo e teor nutricional da lavoura. Os internos relacionam-se ao estímulo indutivo à floração e concentração hormonal das plantas, idade da cultura, como por exemplo cana bisada, que possui grande facilidade para florescer em função do aporte fotossintético por ocasião do período indutivo. “Via de regra, veranicos durante ou logo após o período indutivo, atrasam ou inibem o florescimento da cana-de-açúcar”, afirma Figueiredo.

Dematte explica que as plantas passam da fase vegetativa para a fase reprodutiva (indução floral), somente quando são expostas a ciclos fotoperiódicos de duração determinada, ou seja, dias ou noites com comprimento superior ou inferior a certo comprimento crítico, que é característico da planta em questão. A temperatura noturna tem importância fundamental durante o processo de indução floral, sendo que baixas temperaturas podem inibir a floração. As temperaturas mínimas exigidas para o florescimento seriam de 15 °C a 18°C com valores ótimos entre 21°C e 27°C (média de 23°C). Com temperatura média acima de 31°C a indução floral pode ser reduzida. Estresses ambientais podem inibir a floração assim como elevadas temperaturas.

Quanto a sensibilidade varietal tudo irá depender, segundo o pesquisador, do sistema de manejo empregado em relação a época de corte, assim como as características de relevo e altitude. Normalmente, variedades precoces como a RB 96 6928, hoje uma das mais plantadas no Centro-Sul, podem florescer se o ano for florífero. A RB 86 7515 se manuseada de setembro a novembro e, dependendo da região, pode florescer, mas não se for cortada entre maio e julho, assim como a SP 83 2847, ou seja, há variedades floríferas e há variedades resistentes ao florescimento, mas que dependendo do sistema de corte podem florescer. “O principal efeito na matéria-prima seria a perda de produtividade, faixa de 5% até 30% e a perda no ATR (faixa de 1,5 a 4 kg/t de cana) principalmente devido a isoporização”, afirma Dematte.

O CÁLCULO

A maior parte das instituições, empresas e consultorias interessadas na previsão de ocorrência de florescimento da cana se baseiam em um método desenvolvido no Brasil na década de 80. Fábio Marin, professor associado do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Área de Física e Meteorologia da Esalq/USP, afirma que este método é relativamente simples e leva em conta as diferenças de temperatura máxima e mínima numa determinada época do ano para calcular a probabilidade de ocorrência de florescimento da cana-de-açúcar.

De acordo com Luis Gustavo Dollevedo, diretor Comercial do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), os cálculos são feitos com base em metodologias científicas desenvolvidas por pesquisadores do setor, com publicações de Pereira et al. (1985) e de Moore & Berding (2013). Ambos estabelecem os parâmetros climáticos necessários para a indução do florescimento. “Essa metodologia segue bases científicas realizadas por fisiologistas e sempre se mostrou muito eficiente. Contudo, se pensarmos que o plantel varietal tem mudado ao longo dos anos, o trabalho de pesquisa deve ser constante.”

O cálculo mais conhecido e utilizado leva em consideração o número de dias com temperatura mínima maior ou igual a 18oC, assim como o número de dias com temperatura máxima menor ou igual a 31oC durante o período indutivo da cana-de-açúcar. No Estado de São Paulo para o período entre 20 de fevereiro e 20 de março usa-se a seguinte expressão:

L = 1,263 – 0,06764.X1 – 0,02296.X2

Onde:

X 1 = número de dias com temperatura mínima > ou igual a 18 °C

X 2 = número de dias com temperatura máxima < ou igual a 31 °C

Sendo L < 0, a cana floresce

“Portanto, antes de se iniciar a safra sabe-se que a possibilidade de florescimento pode ser positiva ou negativa. Entretanto, e devido a cultura da cana estar sendo disseminada por muitos estados brasileiros, onde as condições climáticas são diferentes das de São Paulo, assim como altitudes indo de alguns metros até 1.200 a 1.500 m, as condições de florescimento se alteram onde há necessidade de maiores conhecimentos em relação a este fenômeno. De qualquer maneira, quando a temperatura não é fator limitante ao florescimento, as variações na intensidade da emissão das panículas é resultado de oscilações nas precipitações anuais”, afirma Dematte.

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Tabela 1 – Estágios de floração da cana-de-açúcar
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Tabela 2 – Idade da planta em função do florescimento

ERRO DE PREVISÃO?

As previsões realizadas por consultorias e órgãos do setor apostaram no florescimento acentuado. Mas não foi bem o que ocorreu, por quê? Para responder a esta pergunta, segundo Dematte, é preciso observar com cuidado as caraterísticas climáticas, no caso de chuvas e a temperatura máxima, na segunda quinzena de março e na totalidade de abril, praticamente com déficit hídrico acentuado (sem chuva) e com elevada temperatura no período indicado como sendo de iniciação e desenvolvimento do sistema de florescimento.

“Sem água no sistema (planta e solo) o florescimento foi bloqueado, pois o estresse ambiental com o déficit hídrico podem inibir o florescimento. Não houve florescimento intenso, mas houve quebra na quantidade de cana no período junho em diante, com redução na densidade de carga justamente devido a outros fatores climáticos envolvendo a radiação solar em janeiro e os veranicos de março, abril e maio, e a elevada temperatura em março, que foi superior à de janeiro. Apenas como comprovante desta posição, os dados indicados nas tabelas 3 e 4 ilustram as condições climáticas de unidades em Minas Gerais e Goiás.”

Para Marin, além do aprimoramento do método de cálculo do florescimento, há que se considerar a variabilidade espacial das condições meteorológicas, uma vez que numa mesma usina pode haver áreas onde as condições são favoráveis e outras onde a chance de florescimento é baixa, como numa região de baixada por exemplo.

“Várias atualizações a partir dessa abordagem foram desenvolvidas, mas o ponto central do método continua o mesmo. Neste ano, após um verão de condições excelentes para a cana, o outono começou com uma combinação de seca intensa e forte calor, seguido de uma sequência de ondas de frio e geadas que prejudicaram o desempenho da cultura no final do outono e o inverno todo. Nossa hipótese é de que tais condições afetaram a fisiologia da cultura  inibindo a ocorrência de florescimento mesmo após as gemas terem sido estimuladas.
É importante lembrar, contudo, que diversas regiões do Estado de SP tiveram o florescimento como foi previsto e o manejo adequado, conforme recomendação técnica dos especialistas, o que ajudou a reduzir as perdas e a planejar melhor a colheita”, observa Marin.

De acordo com Dollevedo, o principal objetivo do CTC ao fazer o cálculo de florescimento é de orientar seus clientes quanto ao manejo de variedades buscando mitigar as perdas oriundas do florescimento, principalmente para variedades a serem colhidas entre agosto e novembro, que é quando estas perdas se intensificam, devido ao processo de isoporisação.

O florescimento ocorreu assim como previsto pelas principais observações realizadas, porém, segundo o diretor Comercial do CTC, pelos métodos atuais não é possível dimensionar a intensidade com que o florescimento ocorrerá. “Outro fator importante a ser considerado é que algumas variedades são mais floríferas que as outras e como todos os anos existe uma condição favorável muitas vezes este fator é negligenciado no manejo de variedades, estendendo-se a colheita de algumas variedades para além de seu ciclo ideal. Além disso, como a safra 2015/16 foi extremamente florífera, existe uma tendência maior de antecipar a colheita destas variedades de forma a acertar o seu ciclo (aprendendo com o erro)”, destaca.

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Tabela 3 – Condições climáticas das unidades de Goiás

“Sempre haverá questões a serem consideradas. O que importa é se o esforço para aumentar a precisão das previsões compensa o aumento de custos necessários para tanto. O índice de acerto ainda é muito alto. O que é recomendável é que se realizem calibrações dos modelos com as novas variedades de tempos em tempos, mas como não é uma pesquisa que gere publicações em periódicos internacionais, será preciso um financiamento privado para isso. O Departamento de Produção vegetal da Esalq poderia fazer isso com o financiamento adequado”, opina Edgar Gomes Ferreira de Beauclair, professor e coordenador do Geca (Grupo de Estudos em Cana-de-açúcar) da Esalq-USP.

Para Figueiredo, atualmente existem mais informações refinadas a respeito do ambiente, assim como das características intrínsecas ao vegetal associadas ao genoma da cana-de-açúcar que podem permitir uma leitura mais precisa acerca do processo de florescimento. No entanto, as análises realizadas atualmente, baseadas em cálculos já consagrados podem e devem ser utilizados.

MANEJO DE INIBIDORES

Além da colheita antecipada da cana, usinas e produtores costumam fazer também a aplicação de inibidores a fim de evitar o florescimento. Sendo assim, previsões de intensidade de florescimento podem induzir os produtores a algum tipo de erro no manejo de inibidores ou na antecipação da colheita?

Beauclair diz que não há prejuízos para o produtor, isto porque tanto a antecipação da safra com o uso de maturadores permite bons valores relativos de açúcar por tonelada de cana favorecem a soqueira para a safra seguinte.

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Tabela 4 – Condições climáticas das unidades de Minas Gerais

De acordo com Figueiredo, o inibidor além de comprovadamente reagir contra o florescimento da cana-de-açúcar, proporciona na planta diversos efeitos benéficos, como, entre outros, a redução da isoporização ou chochamento, independentemente da ocorrência do florescimento. “Sendo assim, os produtores que acreditaram na tecnologia estavam de fato seguros caso houvesse um florescimento difuso. Além disso, certamente os mesmos ganharam em função do aumento de peso de colmos nas áreas tratadas.”

Dollevedo alerta que este tipo de estudo de previsão de florescimento não deve ser um balizador para a aplicação de inibidores e sim para nortear o manejo de variedades com alto potencial de florescimento, buscando evitar as perdas decorrentes deste fenômeno. “Para a aplicação de inibidores deve-se inicialmente, conhecer o plantel varietal e as característica das variedades, o planejamento de colheita de cada variedade (florescimento em variedades precoces não causa perda desde que manejada no período correto) e o histórico do local. O acompanhamento deve ser feito por cada produtor durante o período indutivo uma vez que a aplicação após ter ocorrido a indução (quando o artigo foi publicado) não surtirá efeito no controle do florescimento.”

“O setor necessita de informações climáticas mais seguras, não diria antecipação em termos de 10 a 12 meses, mas sim antecipação de 30 a 40 dias. Com tais informações o setor poderia se prevenir melhor em relação as atividades operacionais a serem aplicadas nas diversas situações da área canavieira”, conclui Dematte.