Cana: startup de oportunidades

Enxergando muito além do açúcar, etanol e energia, investidores apostam em um novo nicho de mercado para a cana-de-açúcar

Da Redação

Imagine poder comer pedaços de cana-de-açúcar como se tivessem sido tirados diretamente do campo? Ou então tomar um bom caldo de cana sem ter que sair de casa? Sucos, caldo de cana em caixinha e cana em pedaços prontos para o consumo são alguns dos produtos desenvolvidos por startups que conseguiram enxergar as necessidades dos novos consumidores, que buscam por alimentos mais saudáveis e que ao mesmo tempo satisfaçam suas necessidades nutricionais.

Nos últimos meses, consumidores que foram às compras em busca de alimentos tipicamente nacionais, 100% naturais e sem adição de conservantes se depararam com prateleiras recheadas de produtos originados da cana, desmistificando a lenda de que da planta só se fabrica etanol, açúcar ou energia. Foi a partir deste pressuposto que várias empresas viram oportunidades de investimentos. O suco integral da cana-de-açúcar desenvolvido pela Sustên, o caldo de cana em caixinha, criado pela empresa A Cana e a Cana Bacana, embalagens individuais contendo pequenas porções da planta para serem consumidas, são alguns dos exemplos de produtos que vêm se destacando no mercado e, desde que foram lançados, vêm conquistando o paladar dos brasileiros.

Marco Lorenzzo Cunali Ripoli, sócio proprietário da startup Cana Bacana e Ernest Saraiva Petty, sócio administrativo e financeiro da empresa, revelam que a ideia do projeto da cana em pedaços pequenos e prontos para consumir, surgiu a partir de um bate-papo entre amigos. “Os três atuais sócios e fundadores conversavam sobre empreendedorismo e oportunidades de negócios. A cana-de-açúcar então foi levantada como opção de negócio e começamos a estudar o assunto com mais atenção. Cerca de três meses depois, e após dezenas de conversas com outros amigos e empreendedores, decidimos desenvolver esse produto inédito no mercado”, explicam.

Somente depois de nove meses de pesquisa e desenvolvimento, a empresa iniciou efetivamente a produção da primeira unidade apta ao mercado de São Paulo, isso em setembro de 2015. Petty explica que há toda uma estrutura para poder escolher a cana que será usada para produzir o alimento. “Mapeamos cerca de 300 ha de variedades específicas que usamos em nossa linha de produção. As áreas plantadas estão a cerca de 100 km da capital paulista. Utilizamos dois entrepostos que nos abastecem regularmente, o que nos garante matéria-prima o ano todo, mesmo durante a entressafra”, conta.

O Caldo de Caixinha, da empresa A Cana, criado pelas empresárias Ana Leite e Ana Carolina Viseu, é outro exemplo de produto inédito no mercado. As sócias e proprietárias da marca contam que o projeto demorou para sair do papel. “Levamos cerca de três anos entre ter a ideia, desenvolver as pesquisas com o caldo de cana, construir a fábrica e chegar ao mercado em setembro de 2015.” A fazenda onde é colhida a cana e a fábrica onde é produzido o caldo ficam no mesmo lugar, na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. Segundo as proprietárias, a fábrica tem capacidade mensal para produzir 200 mil embalagens de um litro do caldo nas versões original e limão.

Atualmente existem milhares de variedades de cana-de-açúcar, que são desenvolvidas com foco na sua utilização final. Enquanto uma variedade é mais adequada para produção de açúcar, outra pode ser melhor para a fabricação de etanol, energia ou produtos químicos por exemplo. De acordo com Petty, no caso da Cana Bacana, buscou-se por tipos ideais para o consumo. “Buscamos em uma empresa de germoplasma no interior de São Paulo as variedades mais indicadas para o nosso projeto. Precisávamos cruzar três elementos fundamentais: maciez, suculência e disponibilidade no campo.”

Produzido através de processos artesanais, a partir da moagem da cana-de-açúcar, o Kanaí, suco da planta feito pela empresa Sustên, não tem adição de açúcar refinado, corantes ou conservantes. Moído manualmente em moendas de aço inox e a frio, o suco é envazado em garrafas de vidro e pasteurizado. Segundo Hélio Harada, gerente industrial da empresa, no caso do suco, “a variedade mais utilizada no Estado de São Paulo é a SP-813250, devido ao sabor e cor. Ela foi a variedade que mais agradou o paladar dos consumidores paulistas.”

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Da esquerda para a direita os sócios da Cana Bacana: Ernest Saraiva Petty, Giulianno Ripoli Perri,
Marco Lorenzzo Cunalli Ripoli, Ricardo Arantes Cotrim e Ernest Sicoli Petty

STARTUPS E SEUS DESAFIOS

Por se tratar de ideias diferentes e que visam navegar por um mundo muitas vezes desconhecido, fazer parte de uma Startup pode trazer grandes desafios. Marco Ripoli explica que o grande obstáculo enfrentado pela empresa foi justamente o fato de ser um produto novo. “O maior desafio foi o ineditismo. Desde o princípio tivemos muita dificuldade, uma vez que o assunto era novo tanto para nós quanto para nossos parceiros. Para atingirmos os atuais 30 dias de validade sem refrigeração e conservantes, foi necessário muito estudo e testes laboratoriais. Era preciso conter a fermentação da cana-de-açúcar, logo, uma composição de ações foi desenhada para que o objetivo fosse alcançado.”

Recentemente, a empresa anunciou uma parceria com o grupo Maurício de Sousa Produções, criadores da Turma da Monica. A parceria fez com que o produto ficasse muito mais conhecido no mercado. “Havíamos visitado uma feira de licenciamento mesmo antes do projeto sair do papel. Lá, conhecemos o time do Maurício de Sousa Produções e iniciamos o contato de forma superficial. Alguns meses depois, com o produto final nas mãos, voltamos a conversar com eles. Fomos aprovados pelo ineditismo e inovação, e a partir daí começamos a parceria com o desenvolvimento da embalagem. Em maio de 2016 entramos na rede Pão de Açúcar, o que nos deu grande visibilidade e projeção. Podemos dizer que a empresa ‘mudou de patamar’ após as vendas da Cana Turma da Mônica. ”

A ideia da Cana Bacana agora é expandir a variedades de produtos naturais da marca. “Estamos no início da cadeia de produção da cana-de-açúcar, oferecendo o produto minimamente processado em sua forma original. Acreditamos que a Cana Bacana é apenas o início de muitas oportunidades de negócios existentes. Existe o interesse de no futuro expandirmos nosso portfólio de produtos, buscando atender nossos consumidores de forma 100% natural, saudável e inovadora.”

Segundo o gerente industrial da Sustên, atualmente a empresa só trabalha com o Kanaí, no entanto, a ideia também é trabalhar em busca de novidades. “A Sustên tem em seu DNA a inovação e a sustentabilidade. Sempre estamos procurando novos produtos derivados da cana-de açúcar e também produtos que não são derivados da cana. Pretendemos aumentar o nosso portfólio em breve com novidades para o mercado interno e externo”, conclui.

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O caldo de cana em caixinha A Cana,
foi criado por Ana Leite e Ana Carolina Viseu

EXPORTAÇÃO BACANA

O sucesso da Cana Bacana tem sido tão grande que entre os dias 28 e 29 de setembro, a empresa realizou sua primeira exportação. O destino foi Dubai, nos Emirados Árabes. Ernest Petty revela que uma segunda remeça já foi exportada e que este tipo de negócio é um diferencial para o grupo. “Fizemos um segundo embarque para abastecer os Emirados Árabes Unidos no último mês de novembro e acreditamos que o mercado internacional será um diferencial para nossos negócios. Em outubro, estivemos presentes na feira de alimentos de Paris por meio de comerciais exportadoras parceiras. E, no final de novembro, nossos produtos estiveram presentes em uma rodada de negócios com importadores da América do Sul – um evento da CECIEx, em parceria com a APEX-Brasil, através do projeto Brazilian Suppliers. ”, conta Petty.

A Cana Bacana é produzida na Vila Mariana, na cidade de São Paulo. A empresa tem capacidade de produção de até 20 mil unidades por mês na atual área de produção. “Como estamos em fase de contratação da automação de parte do processo produtivo para o primeiro trimestre de 2017, que certamente proporcionará um ganho de produção bastante significativo, devemos buscar um local maior para a produção ainda este ano”, revela Ripoli. (Colaboração de Alisson Henrique)01