Em busca da satisfação e realização pelo trabalho: é possível?

Encontrar significado no trabalho é hoje uma das maiores buscas dos profissionais de mercado. O sentido do trabalho mudou, mas algumas crenças ainda precisam ser revisadas

*Beatriz Resende

Gosto das fases que nós chamamos de finais de ciclo. O final de ano, que a cada vez chega mais rápido, nos convida a fazer reflexões em espaços de tempos aparentemente menores. Pelo menos é a sensação que todos nós temos. Final de ciclo para uns, início para outros. Não importa. O importante é preservar, na sua linha de tempo particular, o exercício da autorreflexão com foco na evolução, crescimento, aquietamento interno ou outro propósito que se tenha no âmbito pessoal e/ou profissional.

Na esfera profissional, o aprofundamento de uma reflexão sobre felicidade no trabalho é sempre muito invadida por questões que, por força maior, acabam por entorpecer os nossos chamados internos e externos sobre uma avaliação fidedigna do quanto somos ou estamos felizes em nossa trajetória. Fatores como insegurança, baixa autoestima, auto cobranças, medo de mudança, instinto ou formato distorcido de sobrevivência e segurança pelo ter, crises econômicas, dependências em vários níveis, e até as síndromes descobertas num presente mais recente, como a síndrome do impostor, esses e outros acabam por congelar, adiar ou amenizar qualquer análise que precisaríamos fazer como adultos e pessoas responsáveis pela própria felicidade. Sim, temos que trabalhar, mas podemos fazê-lo com prazer, paixão, força de vontade, comprometimento e de forma diferenciada. E encontrar pontos que, por questões de afinidade, competência ou oportunidade, nos permitam transcender para um patamar de contribuição, de fazer a diferença para um lugar ou para alguém, de servir a um propósito nobre, mas, principalmente, que faça sentido para nós, que nos nutra daquela sensação tão boa de missão cumprida. E isso é possível para todos. Cada um naquilo que escolheu, que mais se encaixou e que entende poder, dali, entregar algo que será importante para um micro ou macrocosmo.

Somos responsáveis pelo sucesso das próximas gerações. E este pensamento não se resume às pessoas que têm filhos e pensam num futuro a partir deles como uma continuidade da sua história. Também somos responsáveis pelo sentido de mundo que vamos deixar para as próximas gerações. Somos responsáveis, como empresa, profissionais, gestores, educadores e representantes da gestão de pessoas nas organizações, por deixar um sentido melhor sobre o trabalho como legado para essas gerações. Os jovens já estão entrando na vida profissional e trazendo uma imagem, dos seus lares e das suas relações, com a visão e a responsabilidade já comprometidas sobre a condução da sua vida profissional. Isso é muito preocupante. Como vamos evoluir como empresas e lideranças para atender a este novo grupo de trabalhadores se não temos nem como dar a elas um sentido melhor sobre o homem e o trabalho?

Um grande incômodo pessoal e profissional meu sempre teve um pensamento ancorado nessa visão. Para mim isso sempre foi claro e fiz movimentos constantes na tentativa de buscar novos horizontes, uns bons, outros nem tanto. Mas nos últimos anos é forte o meu esforço e dedicação para que esse cenário mude. Me sinto bem e acho estar contribuindo para essa mudança de pensamento. Trabalho por uma visão menos mecânica sobre as relações de trabalho e a relação de cada um com o seu trabalho, com a responsabilidade pela felicidade a partir dele.

E, para finalizar, como uma homenagem respeitosa aos lugares e pessoas que estive, conheci e servi, aos acertos reconhecidos, aos erros cometidos, a tudo que pertenci, guardado de forma sagrada na minha alma, digo, com toda certeza, que o estado de felicidade nem sempre está fora de nós ou do lugar que estamos e com quem estamos. Ele está exatamente no lugar onde estamos, e é uma questão de mudar o olhar e valorizar.

Como diria Boaventura de Souza Santos: “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”.

Um feliz final ou início de ciclo a todos os leitores, profissionais e seres humanos, acima de tudo, que buscam o sentido da existência!

*Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de carreiras da Coerhência-Integrando Negócios & Pessoas e Dra. Empresa.