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Agrícola

Choque dos fertilizantes: Cana-energia pode contorná-lo

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A cana-de-energia é uma cana mais fibrosa (Saccharum spp. híbrida) do que a cana-de-açúcar comum e seu potencial para diversos usos faz desta matéria-prima uma importante alternativa para a ameaça dos gases de efeito estufa ao nosso planeta. Mas como a cana-energia pode se tornar uma solução para isso?

A cana-de-açúcar é uma planta tropical que se cultiva não apenas nos trópicos, mas também nos sub-trópicos e em algumas regiões temperadas. É uma gramínea alta que produz uma grande quantidade de biomassa, com alta eficiência se considerada na escala de tempo.

De sua biomassa é extraído o caldo e transformado parte em açúcar, o “mel branco” comercializado mundialmente. Mas, quando o caldo açucarado é fermentado o que resulta é o etanol, um produto que tem muitos usos e, quando consideramos o volume, o mais importante é o etanol combustível. Este é um substituto direto da gasolina (etanol hidratado) nos carros flex-fuel, ou um parceiro, quando adicionado à gasolina pura como etanol anidro em alguma proporção.

Ao considerar o balanço de CO2, do berço-ao-túmulo, esse sistema de produção e consumo de etanol mostra emissões muito menores que a gasolina, além de evitar os gases nocivos liberados pela queima de gasolina, além de particulados. No entanto, este não é o único benefício da cana-de-açúcar.

Após a extração do caldo fica, entre outros, um resíduo que representa 1/3 da energia da cana: o bagaço. Este contém toda a fibra que é produzida pela planta, que é bastante. A fibra tem a finalidade de dar estrutura aos caules para que cresçam eretos, ao mesmo tempo que, através do xilema contido na sua estrutura, permite o movimento ascendente de água e nutrientes requeridos pelas folhas para fazer a fotossíntese e, através do floema, o movimento descendente dos carboidratos, a maioria sacarose, para fornecer energia ao crescimento das raízes e armazenar a maior parte no caule, como uma provisão para necessidades futuras.

O bagaço, que é composto quase totalmente de fibra (≈ 95%), tem muitos usos diretos e indiretos, sendo o mais comum a produção de vapor e eletricidade para o funcionamento da indústria, de modo que a fábrica é autossustentável em termos de necessidades energéticas.

Imaginem se se todas as mais de 300 indústrias sucroenergéticas dependessem de energia externa para operarem? Seria o caos, com apagões e mais apagões, especialmente nos períodos de seca, quando essas indústrias mais intensificam suas operações, ou seja, operam a “pleno vapor”, literalmente.

Quando bem equilibradas, as indústrias também produzem eletricidade excedente para colocar na rede, cuja contribuição é muito relevante na matriz elétrica nacional. E está vindo aí o etanol 2G: o etanol feito a partir da palha e do bagaço, e que tem um balanço positivo ainda melhor do que o 1G. E mais ainda: estão vindo também o biogás e o biometano a partir da vinhaça/torta de filtro. Assim, a agroindústria canavieira, com sua energia renovável, dá uma contribuição valiosa para a mitigação dos danos causados ​​pelo uso do petróleo e seus derivados.

A alternativa de usar a biomassa para esse fim naturalmente tem prós e contras. O mais criticado é o uso da terra para a produção de cana-de-açúcar em competição com a produção de alimentos. De fato, em muitos países onde a cana-de-açúcar é cultivada não há terra extra para expandir essa cultura e o deslocamento de culturas alimentares não é sensato.

A cana-de-açúcar em todo o mundo é cultivada em uma infinidade de ambientes quando se considera as interações solo–água–ar. Boas condições de crescimento são em proporções minoritárias, é preciso admitir, ou seja, a planta cresce sob condições estressantes na maioria das vezes. Os pesquisadores concentram seus esforços no aprimoramento do manejo de campo para minimizar o estresse, mas há um limite; o efeito desfavorável do ambiente só se consegue corrigir em parte. E embora os melhoristas estejam em constante luta para produzir variedades mais resilientes, é uma tarefa árdua obter uma variedade que ao mesmo tempo atenda os demais requisitos agronômicos e industriais.

Considere-se ainda que a grande expansão da cultura se deu naqueles ambientes dito acima como estressantes e uma boa parte das áreas já cultivadas por décadas também passaram por processo de esgotamento. Pragmaticamente, o que se constata é que a produtividade da cana-de-açúcar estagnou num patamar que está difícil romper. E isso não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Está sendo constatado em todos os países tradicionais nessa cultura.

A cana-energia é um tipo mais resiliente, ou seja, uma planta com maior estabilidade e melhor adaptabilidade na linguagem de geneticistas. Isso significa que, em uma mesma condição de estresse, suplantaria a cana convencional. Com relação aos fertilizantes, a mensagem é que com a mesma quantidade de fertilizante, a cana-energia deve produzir mais ou, inversamente, com menos fertilizante deverá propiciar uma boa produtividade.

Isso ficou provado num recente experimento de campo: um clone de cana-energia cultivado em condição de solo restritivo e ainda com redução severa de fertilizantes, especialmente fósforo, produziu 67% mais colmos industrializáveis (em peso) do que a RB867515, na terceira soca; nessa mesma condição, outro clone produziu 79% mais massa seca (TMS ha-1) e 127% mais fibra (TF ha-1).

Esses dados se referem a clones com teor de fibra muito elevado, em detrimento do teor de açúcar, o chamado Tipo 2. Este é um tipo exclusivo para projetos onde o bagaço tem alta prioridade como o de etanol 2G. Mas há também o Tipo 1, aquele que tem o teor de açúcar comparável à cana convencional e o teor de fibra superior. Desses, um clone produziu 34%, 60% e 88% mais TC ha-1, TMS ha-1 e TF ha-1, respectivamente do que o padrão e outros três tiveram números próximos desses. Foram, portanto, números altamente significativos, jamais vistos em experimentação de variedades, e isso sem considerar que em canaviais comerciais a cana convencional sofre ainda mais redução com a colheita mecanizada.

As usinas/destilarias podem adotar a cana-energia sem necessidade de grandes mudanças no processo industrial. Apenas há que se quebrar o paradigma da baixa fibra e fazer os testes. Toda inovação exige investimento em aprendizado.

A safra brasileira de cana-de-açúcar é muito grande, e assim é o seu consumo de fertilizantes, com a  maior parte importada. Quanto o choque iminente do fertilizante afetará a agroindústria de açúcar e etanol? Esta é uma pergunta muito séria, e a resposta é incerta. Mas não há dúvida de que o custo do fertilizante aumentará, e então o seu racionamento será mandatório. Nesse cenário, a adoção da cana-energia será uma questão a ser seriamente considerada.

*Sizuo Matsuoka é diretor da R&D e engenheiro agrônomo pela Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e doutorado em Fitotecnia pela USP. 

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