O setor de cana-de-açúcar do Rio Grande do Norte vive um momento de forte apreensão diante do cenário atual. A expectativa é de que a safra em curso seja encerrada com produção de 3,5 milhões de toneladas, o que representa uma redução de 12,5% em relação ao ciclo anterior, que somou 4 milhões de toneladas. A avaliação é de Associação dos Plantadores de Cana do RN (Asplan), por meio de seu presidente, Hermano Neto para o jornal A Tribuna do Norte
Já o presidente da Cooperativa de Plantadores de Cana do RN (Coplacana), Anderson Faheina, estima perdas financeiras de cerca de R$ 140 milhões para o setor. Segundo ele, o cenário adverso é resultado da combinação entre a concorrência do etanol de milho, a estiagem e o tarifaço de 50% ainda mantido pelos Estados Unidos para alguns produtos brasileiros.
Hermano Neto destaca que, embora a maior preocupação esteja voltada para a próxima safra, os impactos já vêm sendo sentidos. Ele explica que a barreira tarifária dos Estados Unidos fez com que a produção de açúcar circulasse mais no mercado interno, pressionando os preços pela lógica da oferta e da demanda. “Para se ter uma ideia, chegamos a entregar a tonelada por R$ 200, em média. Hoje, o preço não passa de R$ 130, ou seja, reduziu quase pela metade. Temos também o efeito climático muito forte em 2025”, pontua.
Concorrência do etanol de milho pressiona o setor
Para Anderson Faheina, outro fator relevante é o avanço do etanol de milho no mercado. Ele observa que esse produto tem ganhado espaço de forma acelerada, inclusive com unidades produtoras mais próximas do Nordeste. “É um produto que ganha mercado e que está cada vez mais próximo da gente, com produção dessa matéria-prima aqui perto, no Maranhão. Antes, só tínhamos essa produção na região do estado de Mato Grosso. Então, isso afeta a cadeia de produção com o etanol feito da cana”, afirma.
Faheina acrescenta que a estiagem mais severa registrada em 2025, especialmente no período final do ano, tem ampliado os impactos negativos sobre a safra atual. “Este ano, estamos enfrentando uma seca mais forte, refletindo na safra atual. Temos relatos de produtores de que as perdas estão acima de 35%. Considerando a projeção de produção, estamos falando de R$ 140 milhões a menos em circulação na economia”, diz.
Custos elevados e risco de demissões
A produção de cana-de-açúcar no estado está concentrada em municípios como São José de Mipibu, Goianinha, Canguaretama e Baía Formosa, além de áreas em Ceará-Mirim e São Gonçalo do Amarante. Hermano Neto explica que cada hectare demanda custos de cerca de R$ 3 mil, enquanto os custos gerais de um único plantio giram em torno de R$ 12 mil apenas com o tratamento da cultura.
“Especialmente com os efeitos da seca neste ano, não está sobrando nada para investimentos na próxima safra”, destaca. Ele também alerta para o risco de fechamento de postos de trabalho. “Com o baixo interesse em manter os canaviais, a gente tem também a possibilidade de demissões”, ressalta.
Situação deve se agravar na próxima safra
Sem mudanças estruturais e apoio ao setor, Hermano Neto avalia que o cenário tende a se deteriorar na próxima safra. Segundo informações publicadas pelo jornal A Tribuna do Norte, o produtor pode deixar de investir no tratamento dos canaviais, afetando outras cadeias produtivas, como a de defensivos agrícolas. “Então, haverá um efeito dominó, com tendência de agravamento a partir de fevereiro, quando a safra atual acabar”, afirma.
A preocupação é compartilhada pelo produtor José Bezerra, que relata apreensão quanto aos custos de manutenção da cultura. Ele explica que a cana possui um ciclo produtivo superior a quatro anos, mas depende diretamente da qualidade do solo e de investimentos contínuos. Bezerra cultiva 350 hectares entre Ceará-Mirim e São Gonçalo do Amarante, com produção média de 30 mil toneladas por safra.
De acordo com seus cálculos, os prejuízos na safra atual devem variar entre R$ 20 e R$ 30 por tonelada. O produtor considera o preço atual da tonelada, em torno de R$ 130, e subtrai os custos de colheita, carregamento e transporte, estimados entre R$ 70 e R$ 80. “Subtraindo esse valor, resta para o produtor algo em torno de R$ 70 por tonelada vendida”, descreve. Diante do cenário, ele afirma que prefere não realizar planejamento para a próxima safra.
Demandas por apoio e diplomacia
José Bezerra atribui as dificuldades à concorrência do etanol de milho e ao tarifaço americano. Para Anderson Faheina, a reversão do quadro passa por medidas fiscais. “O corte do ICMS para alguns itens da cadeia utilizados pelo produtor, como o diesel, por exemplo, seria uma alternativa. Mas a gente sabe que esta é uma área em que o governo não gostaria de mexer”, afirma.
Faheina também defende que o governo estadual pressione o Governo Federal por avanços diplomáticos junto aos Estados Unidos. “Para outras áreas, houve avanços na questão do tarifaço, mas o açúcar não entrou nesse bloco”, destaca. Hermano Neto reforça a necessidade de apoio do poder público, citando que estados como Pernambuco, Paraíba e Alagoas têm realizado audiências para cobrar ações federais e subsídios ao setor, além de uma atuação mais direta da Secretaria de Agricultura do RN junto aos produtores.
Oscilações ligadas ao etanol de milho
O secretário de Agricultura e Pesca do RN, Guilherme Saldanha, afirmou que as oscilações no setor sucroalcooleiro do estado estão relacionadas principalmente ao mercado de etanol de milho, cuja indústria mantém oferta durante todo o ano. “Consequentemente, o comprador vai priorizar esse produtor que consegue manter uma regularidade na oferta do etanol de milho”, disse.
Do ponto de vista das exportações, Saldanha avaliou que, mesmo com o tarifaço americano, as vendas externas de açúcar do estado devem crescer, com projeção de alcançar US$ 15 milhões neste ano. “É um recorde. Em 2022, as exportações somaram US$ 1,5 milhão. Hoje, os Estados Unidos seguem como mercado importante, com a entrada de outros destinos, como União Europeia e África”, afirmou.
Dados do Observatório da Indústria Mais RN, da Fiern, indicam que, em 2025, até novembro, foram exportados US$ 12 milhões em açúcar de cana. Os Estados Unidos lideraram como principal destino, com US$ 7,2 milhões, seguidos pela Geórgia, com US$ 4,2 milhões. Em todo o ano de 2024, as exportações totalizaram US$ 9,9 milhões, com maior diversificação de mercados, incluindo Bulgária, Portugal e Canadá. Na comparação entre os períodos, as vendas externas cresceram 22%.
Segundo dados da plataforma Comex-Stat, do MDIC, o desempenho das exportações após a entrada em vigor do tarifaço americano, em agosto. Os números mostram que as vendas de açúcar do RN para os EUA somaram US$ 2,99 milhões até novembro, alta de 73,2% frente ao mesmo período do ano anterior, quando alcançaram US$ 1,73 milhão.
Com informações do jornal A Tribuna do Norte