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El Niño exige maior atenção ao manejo da irrigação nos canaviais, alerta especialista

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Monitoramento da umidade do solo e da demanda hídrica da cana-de-açúcar é fundamental para evitar excessos, atrasos na retomada da irrigação e riscos à produtividade

A possibilidade de maior irregularidade na distribuição das chuvas, diante do cenário de El Niño, exige atenção redobrada das usinas no manejo da irrigação dos canaviais. Mais do que acompanhar o volume de precipitações, será necessário avaliar a quantidade de água efetivamente armazenada no solo e disponível para a cana-de-açúcar. Segundo Daniel Pedroso, engenheiro agrônomo e especialista da Netafim, o monitoramento das condições climáticas, da umidade do solo e do funcionamento dos sistemas de gotejamento será determinante para ajustar a irrigação às necessidades da cultura e reduzir os riscos de estresse hídrico.

Em entrevista à RPAnews, Pedroso explica que a alternância entre períodos de chuvas intensas e veranicos pode dificultar as decisões sobre quando reduzir, interromper ou retomar a irrigação. O principal cuidado, segundo ele, é não considerar o volume acumulado de precipitações como único parâmetro para o manejo.

“O primeiro ponto que precisamos considerar é que o solo funciona como o grande reservatório de água para a planta e, por isso, sua capacidade de armazenamento e a quantidade de água efetivamente disponível devem ser monitoradas.”

O especialista exemplifica que, em um solo com capacidade de armazenamento de 50 milímetros de água, uma chuva de 70 milímetros não significa que todo esse volume estará disponível para a cultura. Parte da água poderá ser perdida por escoamento superficial, drenagem ou outros processos.

A disponibilidade hídrica também depende da textura e da estrutura do solo, da intensidade e duração das chuvas, da capacidade de infiltração, da profundidade do sistema radicular e das condições de drenagem. Por isso, mesmo após precipitações volumosas, a umidade do solo pode diminuir ao longo dos dias e exigir a retomada da irrigação.

Pedroso ressalta que a planta absorve a água disponível no solo, e não diretamente do sistema de irrigação. O papel da irrigação é repor essa água e manter condições adequadas de umidade para que ela permaneça disponível às raízes, reduzindo os riscos de estresse hídrico e contribuindo para a manutenção do potencial produtivo da cultura.

“Não adianta ocorrerem grandes volumes de chuva se houver longos intervalos entre esses eventos. O mais importante é entender a dinâmica da água no solo e, a partir disso, determinar quando a irrigação deve ser reduzida, interrompida ou retomada”, afirma.

Um dos riscos apontados por Pedroso é justamente o atraso na retomada da irrigação após períodos chuvosos. Ao considerar apenas o volume acumulado, o produtor pode superestimar a quantidade de água disponível para as raízes e permitir que a cultura entre em condições de estresse hídrico.

Para evitar esse problema, ele recomenda acompanhar a umidade do solo em conjunto com a evapotranspiração e a demanda hídrica da cana-de-açúcar. Essas informações permitem identificar a necessidade de reposição de água antes que a disponibilidade no solo alcance níveis inadequados.

Manejo precisa acompanhar as condições da cultura

A maior variabilidade climática também exige uma programação de irrigação mais dinâmica, ajustada às condições de cada área e ao estágio de desenvolvimento da cana.

Pedroso explica que a demanda hídrica da cultura varia ao longo do ciclo, aumentando durante o desenvolvimento da cana-de-açúcar, atingindo um período de maior necessidade e diminuindo posteriormente, conforme o estágio da planta e as condições ambientais.

Nesse contexto, utilizar a mesma lâmina de irrigação durante toda a safra, sem considerar as mudanças no clima e na cultura, pode resultar tanto em excesso quanto em déficit hídrico.

“Na minha visão, um dos principais erros é trabalhar com uma espécie de ‘receita de bolo’, mantendo lâminas de irrigação constantes durante todo o ciclo da cultura, independentemente das condições climáticas e do estágio de desenvolvimento da planta.”

Segundo o especialista, o tipo de solo e as características de cada ambiente de produção também precisam ser considerados. Áreas com diferentes capacidades de armazenamento de água podem exigir frequências e lâminas de irrigação distintas, mesmo quando submetidas a condições semelhantes de precipitação.

Nesse cenário, a irrigação por gotejamento apresenta vantagens operacionais, como a possibilidade de atender diferentes formatos de área e condições topográficas, proporcionando maior uniformidade na aplicação da água quando corretamente dimensionado e mantido. Por ser um sistema fixo, também permite iniciar a irrigação quando necessário, sem depender do deslocamento de equipamentos entre áreas, oferecendo maior agilidade diante de mudanças nas condições de umidade do solo.

De acordo com Pedroso, essa capacidade de resposta contribui para reduzir a dependência exclusiva das chuvas e minimizar os efeitos da variabilidade climática sobre a produtividade da cana-de-açúcar.

“O sistema de irrigação por gotejamento permite fornecer água de forma localizada, na quantidade e no momento necessários para a cultura.”

O especialista ressalta, entretanto, que a eficiência do manejo não depende apenas do conhecimento sobre a necessidade hídrica da planta. O funcionamento do sistema deve ser acompanhado por indicadores como pressão, vazão e uniformidade de aplicação, garantindo que a água seja efetivamente fornecida nas condições previstas.

Monitoramento e tecnologia na tomada de decisão

Para as usinas que já utilizam gotejamento, Pedroso recomenda uma revisão completa dos equipamentos antes dos períodos de maior demanda hídrica, incluindo a verificação do funcionamento hidráulico, da uniformidade de aplicação e da necessidade de manutenção. Paralelamente, orienta intensificar o monitoramento da umidade do solo e das condições meteorológicas.

“Não adianta conhecermos a necessidade hídrica da cultura se o sistema de irrigação não estiver operando adequadamente. Por isso, a combinação entre informações agronômicas, climáticas e hidráulicas é fundamental para um manejo eficiente”, acrescenta o especialista da Netafim.

O avanço das tecnologias de monitoramento também permite integrar essas informações. Na Netafim, a família de soluções GrowSphere reúne ferramentas voltadas ao acompanhamento das condições do solo, do clima e do sistema de irrigação.

Entre os recursos mencionados pelo especialista estão sondas de umidade do solo, como a NetaCap, tensiômetros, dendrômetros, estações meteorológicas e pluviômetros. O monitoramento hidráulico pode ser realizado por dispositivos como pressostatos e hidrômetros, utilizados para acompanhar pressão e vazão.

Segundo Pedroso, a possibilidade de acessar essas informações remotamente permite que as equipes técnicas acompanhem as condições das áreas irrigadas sem depender exclusivamente de medições presenciais, tornando mais ágil a identificação de alterações e a tomada de decisão.

Para o especialista, diante de um cenário de maior irregularidade climática, o desafio das usinas será combinar a disponibilidade operacional dos equipamentos com o conhecimento das condições reais do solo e das necessidades da cultura.

“Dessa forma, a usina deixa de trabalhar apenas com uma programação pré-estabelecida e passa a tomar decisões com base nas condições reais do solo, da planta e do sistema de irrigação”, conclui Pedroso.

Natália Cherubin para RPAnews

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