Relatório indica alta probabilidade de um evento forte do fenômeno climático e alerta para impactos distintos entre as regiões produtoras;
O fortalecimento do fenômeno El Niño ao longo da safra 2026/27 deve elevar a atenção do setor sucroenergético brasileiro. De acordo com análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, embora o fenômeno seja tradicionalmente acompanhado pelos impactos sobre soja e milho, a cana-de-açúcar também está entre as culturas que podem sofrer efeitos relevantes caso se confirme um evento de forte intensidade nos próximos meses.
Segundo os analistas, um El Niño intenso pode comprometer o ritmo de colheita e moagem no Centro-Sul, além de afetar a qualidade da matéria-prima e reduzir o rendimento industrial, principalmente em cenários marcados por excesso de chuvas durante o inverno e restrição hídrica ao longo do verão.
O relatório destaca que o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (CPC/NOAA) já confirmou o estabelecimento do fenômeno e estima 63% de probabilidade de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Caso essa projeção se confirme, o evento poderá figurar entre os mais intensos registrados desde 1950. Modelos do Centro Europeu de Previsões Climáticas também indicam que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial pode superar 3°C, acima dos picos registrados nos fortes eventos de 1997/98 e 2015/16.
Efeitos diferentes conforme a região
Segundo a análise do Itaú BBA, os impactos do El Niño variam significativamente entre as regiões produtoras do Brasil. Historicamente, o Sul registra chuvas acima da média, enquanto o Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste tendem a enfrentar maior irregularidade das precipitações, temperaturas mais elevadas e risco de déficit hídrico, dependendo da intensidade do fenômeno.
No Sudeste, onde está concentrada grande parte da produção brasileira de cana-de-açúcar, os analistas observam que primaveras mais chuvosas podem beneficiar culturas perenes. No entanto, durante o verão, a tendência é de chuvas mais irregulares e concentradas, alternadas com períodos de calor intenso, condição que aumenta os desafios para o desenvolvimento da cultura.
Além da irregularidade das chuvas, o relatório ressalta que temperaturas acima da média costumam acompanhar episódios de El Niño, elevando o risco climático para diversas atividades agrícolas.
Cana-de-açúcar entra no radar do fenômeno
Embora o estudo tenha como foco principal os impactos do El Niño sobre o mercado global de grãos, o Itaú BBA destaca que outras cadeias agrícolas também devem ser monitoradas, entre elas a cana-de-açúcar.
Segundo os analistas, os principais riscos para o setor sucroenergético estão associados à combinação entre excesso de chuvas durante o período de colheita e moagem e restrição hídrica nas fases de desenvolvimento da cultura. Esse cenário pode reduzir a qualidade tecnológica da matéria-prima, comprometer o rendimento industrial e dificultar o avanço das operações no campo.
O relatório ressalta ainda que eventos climáticos intensos aumentam significativamente a incerteza sobre o desempenho das principais culturas agrícolas, especialmente quando provocam alterações importantes na distribuição das chuvas e nas temperaturas.
Reflexos também podem chegar ao mercado de açúcar
Os impactos do El Niño não se limitam à produção brasileira. Segundo a análise do Itaú BBA, o fenômeno costuma reduzir as chuvas em importantes regiões agrícolas da Ásia e da Oceania, enfraquecendo as monções e aumentando o risco de perdas em culturas como arroz, milho, palma e cana-de-açúcar.
A Índia, um dos maiores produtores mundiais de açúcar, está entre os países que historicamente enfrentam déficits pluviométricos durante episódios de El Niño. O relatório lembra que, em eventos recentes, o governo indiano chegou a restringir exportações de açúcar para preservar o abastecimento interno diante de safras afetadas pela falta de chuvas.
Esse cenário reforça a importância de acompanhar a evolução do fenômeno não apenas pelos possíveis impactos sobre a produção brasileira, mas também pelos reflexos na oferta global de açúcar e na dinâmica do mercado internacional.
Na avaliação do Itaú BBA, o cenário-base ainda considera condições suficientes para a manutenção do equilíbrio da produção agrícola mundial. No entanto, a elevada probabilidade de um El Niño forte aumenta o grau de incerteza para a safra 2026/27.
Para os analistas, quanto maior a intensidade do fenômeno, maior tende a ser sua influência sobre os padrões de temperatura e precipitação, tornando o clima um dos principais fatores de risco para o desempenho das culturas agrícolas e para o comportamento dos mercados de commodities nos próximos meses.
Natália Cherubin para RPAnews



