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Etanol de milho é um dos pivôs da crise da Raízen, que renegocia dívida de R$ 65,1 bilhões

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Empresa de biocombustível aumentou produção de etanol a partir do bagaço da cana, mas sofreu com concorrência do produto a partir de uma commodity disponível o ano inteiro e com custo de produção menor

No maior caso de recuperação extrajudicial registrado no país, quando a Raízen, principal empresa de biocombustíveis do Brasil, anunciou a renegociação de dívida de R$ 65,1 bilhões com credores, um fato chamou a atenção.

Mesmo tendo investido mais de R$ 36 bilhões para ampliar sua produção de etanol, especialmente o de segunda geração (produzido a partir do bagaço e da palha da cana), a Raízen sofreu com a concorrência do etanol feito com outra commodity agrícola: o milho.

Com custos de produção até 40% menores e crescimento acelerado, o etanol de milho ganhou espaço nos últimos anos. A Raízen esperava que o mercado pagasse um preço maior pelo etanol de segunda geração, que tem 80% a menos de emissões e exige altos investimentos em tecnologia mais complexa para produção, mas isso não aconteceu.

O Brasil começou a produzir etanol de milho em larga escala há menos de uma década e, na safra 2025/26, vai chegar a 10 bilhões de litros – antes de 2030, como se previa anteriormente –, mantendo-se como o segundo maior produtor global, atrás apenas dos Estados Unidos.

O avanço na fabricação desse biocombustível vem transformando a dinâmica do setor e acendeu a “luz amarela” para o mercado de açúcar, que enfrenta os menores preços dos últimos cinco anos no mercado internacional.

“Alerta amarelo” no açúcar

Um relatório do Rabobank, especializado no setor agro, alerta que o risco para o açúcar está na arbitragem. Historicamente, quando os preços do açúcar estão mais atraentes, as usinas maximizam a produção, deixando espaço para o etanol de milho crescer sem saturar o mercado. Mas, com o aumento da capacidade de produção de milho, uma sobreoferta de etanol pode derrubar preços no mercado interno, diz o banco.

Nesse quadro, afirma o analista Andy Duff, do Rabobank, usinas de cana tenderiam a desviar mais matéria-prima para produção de açúcar. Como o Brasil é o maior exportador de açúcar, o aumento de produção pode pressionar os preços globais da commodity para baixo.

“O rápido avanço da produção de etanol de milho no Brasil está transformando a dinâmica do setor sucroenergético e gerando um ‘alerta amarelo’ para o mercado de açúcar”, escreveu Duff em relatório.

Já o presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco, não vê o cenário de “alerta amarelo” traçado pelo Rabobank. Ele diz que o setor vem trabalhando para expandir a demanda pelo produto em várias frentes e que os investimentos seguem em alta:

“Estamos trabalhando para expandir a demanda interna, seja com maior uso de etanol hidratado (que compete com a gasolina), seja em aumentar a mistura de etanol (anidro) na gasolina”, afirma.

Ele explica que o etanol hidratado é vendido praticamente em apenas seis estados brasileiros onde é produzido. Nas regiões Norte e Nordeste, observa, há postos que nem têm a bomba de etanol.

Portanto, há espaço para levar esse biocombustível a esses consumidores com preços mais acessíveis, desenvolvendo a demanda reprimida. Há previsão de construção de usinas de etanol de milho no Maranhão, Bahia e Piauí.

Em um cenário de longo prazo, diz Nolasco, a produção de etanol brasileiro, que chega a quase 37 bilhões de litros atualmente (somando milho e cana) é até pequena para atender uma demanda global que a transição energética vai exigir, principalmente na descarbonização marítima e da aviação, dois setores que vão demandar o uso de biocombustíveis.

Ele conta que já estão se desenhando ações no mercado internacional, por meio de políticas públicas, para elevar o percentual de etanol na gasolina em países do Mercosul, no México, Canadá e Japão.

“Ainda somos pequenos para suprir esse mercado global. E encontrar essas duas linhas entre aumento de produção e de demanda ao mesmo tempo é algo muito desafiador. Há grande demanda por vir, e estamos crescendo a produção de olho nisso. Enquanto isso, temos um mercado interno com um potencial enorme de crescimento”, afirma o presidente da Unem.

Investimentos em alta

Os investimentos estão a todo vapor. Já são 27 biorrefinarias de etanol de milho em operação. Outras 16 estão com autorização de construção, e mais 14 estão programadas. Cada uma dessas usinas demanda investimentos de R$ 1 bilhão a R$ 2 bilhões, dependendo da capacidade de produção. Portanto, por baixo, são R$ 57 bilhões, sem contar gastos com logística e armazenagem.

O mapeamento feito pela Unem mostra avanço de investimentos no setor. A Inpasa, maior empresa do setor de etanol de milho, tem três unidades em construção: em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, com inauguração prevista para o primeiro trimestre; outra sendo erguida em Rio Verde, Goiás, que fica pronta no fim do ano; e a terceira será em Rondonópolis, Mato Grosso, com inauguração em 2027.

Os aportes nessas unidades, além da expansão da de Nova Mutum (MT), somam R$ 7,2 bilhões. A empresa tem ainda duas unidades no Paraguai e cinco no Brasil: além de Nova Mutum e Sinop (também em Mato Grosso), há as unidades de Sidrolândia e Dourados, no Mato Grosso do Sul, e Balsas, no Maranhão.

Entre as novidades desse mercado, está a Três Tentos Agroindustrial, de processamento de grãos, que está entrando em Porto Alegre do Norte (MT) com uma usina e já anunciou a segunda unidade em Redenção, no Pará.

Outra companhia interessada é a Coamo Agroindustrial Cooperativa, que já lançou a pedra fundamental para construção de usina de etanol de milho, em Campo Mourão (PR). A cooperativa prevê aportar R$ 1,67 bilhão na usina.

No tanque, a mesma coisa

No caso da cana, dizem especialistas, a usina fica ociosa ao menos quatro meses no ano porque não tem matéria-prima disponível. Com o milho é possível produzir o ano todo, por sua capacidade de armazenagem prolongada.

Outra vantagem são os subprodutos do milho usados na nutrição animal (grãos secos de destilaria), reduzindo custos, além da produção de energia a partir da biomassa e óleo de milho. Para o consumidor que coloca etanol de milho no tanque do carro não há diferença para o produto vindo da cana, diz o presidente da Unem.

Para os produtores de cana, o cenário é de aperto financeiro. O presidente da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, relata que muitos estão reduzindo investimentos e até migrando para a cultura de grãos, pois os preços pagos estão abaixo do custo de produção.

Nogueira observa que o crescimento do etanol de milho impacta diretamente os preços, elevando a oferta total de etanol e afetando a remuneração do produtor de cana. Ele prevê que, se os preços do açúcar não reagirem, as usinas poderão ser forçadas a produzir etanol mesmo com margens próximas do “zero a zero” para equilibrar o mercado.

O sócio e pesquisador sênior da consultoria Agroicone, Marcelo Moreira, reforça que o setor está em uma corrida para evitar a sobreoferta doméstica de etanol. As empresas estão buscando ativamente mercados internacionais que aceitem o etanol brasileiro para novas finalidades, como o combustível sustentável de aviação (SAF) e o combustível marítimo.

“Enquanto uma usina de cana leva anos para atingir a capacidade máxima devido ao ciclo do canavial, uma usina de milho pode atingir seu potencial pleno em até 30 dias”, complementa.

o Globo| João Sorima Neto

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