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Etanol, motores e o diagnóstico antes do exame

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Durante alguns anos da minha vida, eu me considerei uma espécie de “médico”. Um médico que clinicava em festas, almoços de família, aniversários e encontros com amigos — geralmente entre a primeira bebida e a sobremesa. Para quem não entendeu, vou explicar… Eu sou engenheiro mecânico, trabalhei em montadora logo depois de formado e sempre fui apaixonado por automóveis, motores e por tudo aquilo que transforma combustível em movimento, em trabalho mecânico e que, para nós, é uma felicidade quase infantil. Por isso, família e amigos, meus e da minha esposa, enxergavam em mim uma espécie de “médico de carros”.

— Marlon, meu carro está fazendo um barulhinho quando viro para a esquerda… Ou:
— A luz da injeção acendeu, depois apagou. Você acha que é grave?
Havia ainda os casos mais complexos, apresentados com a segurança de quem já fizera metade do diagnóstico:
— O carro está gastando mais combustível. Será que é a sonda lambda?

Eu me sentia exatamente como imagino que se sintam os médicos de verdade nas festas. Se alguém descobre que há um cardiologista na sala, antes do jantar, a pessoa já descreve uma pontada no peito que surgiu há três semanas. Se for ortopedista, haverá uma dor no joelho esperando consulta entre o prato principal e o café.

Eu sempre gostava de ajudar. Achava, às vezes, até engraçado. Aquela procura significava confiança. Mas havia uma regra que eu procurava respeitar: um relato não gera um diagnóstico universal. Um ruído pode vir do rolamento, do pneu, da homocinética, da suspensão, de uma proteção solta ou de alguma coisa esquecida no porta-malas. Uma luz de injeção acesa pode ter dezenas de causas. Um consumo elevado pode decorrer do trânsito, da calibragem dos pneus, do uso mais frequente de ar-condicionado, da forma de condução, da manutenção atrasada, de um sensor defeituoso, de uma entrada falsa de ar na admissão, da qualidade do combustível ou simplesmente de uma percepção equivocada. Na medicina e na mecânica, a experiência ajuda muito. Mas experiência não dispensa exame, histórico, medição, comparação e método. É justamente por isso que tenho acompanhado com preocupação parte do debate sobre a decisão do CNPE que aumentou o etanol na gasolina brasileira para 32% a partir de 1º de agosto.

Nas redes sociais, já assisti vídeos e manifestações de pessoas que se apresentam como especialistas e que atribuem falhas em injetores, bombas e catalisadores ao teor de etanol presente na gasolina. Algumas delas conhecem profundamente a rotina das oficinas e certamente possuem experiência prática valiosa. O problema começa quando essa experiência é transformada, sem dados suficientes, em uma explicação universal, cabal.

Tenho acompanhado esse debate e percebo que parte desses conteúdos não está interessada em uma  discussão realmente honesta. Em vez de investigar possibilidades, selecionam alguns casos, escolhem previamente um culpado e constroem toda a narrativa para confirmar a conclusão desejada. Viés de confirmação, em estado puro!

Em um dos vídeos que circulam atualmente, o proprietário de uma conhecida rede de oficinas mostra veículos com defeitos e afirma que a elevação do teor de etanol teria provocado aumento “drástico” de problemas. Fala em “adulteração oficial”, criticando engenheiros e especialistas que defendem nas redes a viabilidade da nova mistura, o E32, e sugere que os consumidores se lembrem disso na hora de votar. No final, convida o público a procurar, claro, a rede de oficinas dele para diagnóstico e manutenção.

É um vídeo eficiente. Tem carros caros, peças caras, orçamentos assustadores, indignação política e uma solução comercial convenientemente apresentada ao final. Embora o vídeo atribua defeitos já observados à passagem de E27 para E30, sua narrativa vem sendo mobilizada também contra a decisão de elevar a mistura para E32. São questões relacionadas, mas não
idênticas: uma trata da causalidade de falhas passadas; a outra, da compatibilidade técnica da nova mistura. Só falta demonstrar que passar a gasolina de E27 para E30 causou os defeitos exibidos e que alterar a mistura para o E32 trará mais problemas.

A oficina vê os carros que quebraram — não vê os milhões que continuaram funcionando

Uma oficina é um lugar extraordinário para detectar problemas. Mas é também um lugar inadequado para estimar, sem controles, a frequência de um problema na frota circulante. Carros funcionando perfeitamente não costumam entrar em oficinas para informar:

— Bom dia, só passei para dizer que abasteci com gasolina E30 durante meses e nada aconteceu.
Uma oficina recebe, na maioria dos casos, veículos que já apresentam sintomas, justamente o
universo da chamada manutenção corretiva. Sua amostra é, por definição, selecionada pelo defeito. Se um mecânico atende dez carros com falhas em bicos injetores, a observação pode ser relevante. Pode até justificar uma investigação. Mas, para afirmar que houve aumento da incidência, seria necessário conhecer o número total de veículos comparáveis atendidos, a frequência da falha antes do aumento da mistura, a idade e a quilometragem dos automóveis e a evolução mensal dos casos. Sem denominador, não existe frequência. Existe apenas uma contagem.

Imagine uma oficina que tenha registrado quatro casos de falha de bicos injetores em determinado trimestre e sete no trimestre seguinte. O aumento foi de 75%. Parece assustador. Mas são apenas três casos adicionais, que podem decorrer do acaso, do envelhecimento dos veículos atendidos, de encaminhamentos por outras oficinas ou de uma mudança no perfil da clientela. Mas suponha que, nacionalmente, a média histórica permaneça em torno de n casos por mês, por mil veículos vendidos, considerando falhas comparáveis nos mesmos modelos, motores, faixas etárias e níveis de quilometragem. Montadoras e sistemistas acompanham esses números de perto, todos os meses.

Nesse caso, o aumento eventual de casos observado naquela oficina não demonstraria uma elevação da incidência na frota nem permitiria atribuir os casos ao combustível. O ponto não é desprezar a oficina. Ao contrário: o relato de uma oficina pode ser o começo de uma investigação. O que ele seguramente não pode ser é o encerramento dela.

O que a indústria farmacêutica nos ensina

Voltemos ao médico da festa. Se três pacientes que usam determinado medicamento apresentarem o mesmo problema, um bom médico não deve ignorá-los. Deve registrar os casos e notificá-los. Mas também não pode concluir imediatamente:
— Este remédio causou o problema e precisa ser retirado das farmácias.
Na indústria farmacêutica, existe uma diferença fundamental entre um evento ocorrido depois do uso de um produto e uma reação efetivamente causada por ele.
Milhões de pessoas tomam medicamentos. Naturalmente, algumas terão problemas de saúde depois de tomá-los, ainda que o medicamento não tenha relação alguma com o ocorrido. Para investigar causalidade, é preciso comparar a frequência observada com a frequência esperada, analisar a temporalidade, verificar a plausibilidade do mecanismo e excluir explicações alternativas. Por que deveria ser diferente com os automóveis?

Milhões de veículos usam a gasolina brasileira. Naturalmente, alguns apresentarão falhas em injetores, bombas e catalisadores, talvez apenas cronologicamente, depois da implantação do E30. Isso não demonstra que o E30 tenha causado essas falhas.

Na analogia com a farmacovigilância, uma oficina funciona como um centro notificante. Pode afirmar:
— Estou observando algo que merece investigação.
Não deveria afirmar, sem método:
— Está provado que o combustível causou isso.
Poucos casos podem, sim, produzir um sinal relevante quando apresentam o mesmo mecanismo de falha, nos mesmos componentes, em veículos comparáveis, logo após uma exposição comprovada e sem explicação alternativa razoável. Mas, para isso, é necessário verificar os números agregados das montadoras e dos sistemistas. Mostrar veículos de marcas diferentes, idades desconhecidas e problemas diversos não produz automaticamente uma evidência mais forte. Pode simplesmente reunir defeitos automotivos distintos sob uma explicação única.

O misterioso limite de 15%

Um argumento que tem aparecido é o de que determinados componentes importados teriam sido projetados para suportar, no máximo, 15% de etanol, porque esse é o teor autorizado para determinadas aplicações nos Estados Unidos.

A lógica seria esta: A peça é utilizada nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos a gasolina é só até o E15. Logo, a peça suporta no máximo E15. Isso não é uma conclusão de engenharia. É um silogismo manco. O teor regulamentado de um combustível em determinado mercado não é automaticamente o limite físico de resistência química de cada componente utilizado naquele país.

Componentes automotivos não são normalmente projetados para resistir exatamente até o limite nominal da regulamentação e falhar no ponto percentual seguinte. Eles trabalham submetidos a variações de fabricação, temperatura, pressão, envelhecimento, ciclos de operação e diferenças normais de qualidade do combustível. Por isso, incorporam margens e tolerâncias técnicas. Mesmo porque podem ser, e frequentemente o são, exportados para mercados variados.

Isso não significa que toda peça resista a qualquer teor de etanol. Significa apenas que, para afirmar que determinado injetor suporta “no máximo 15%”, seria preciso apresentar um documento do fabricante, uma especificação técnica ou um ensaio conclusivo.

No vídeo, nada disso aparece.

Pergunto: se esses mesmos componentes estão presentes nos carros que circulam no Brasil, onde se utiliza gasolina com 25% de etanol há quase três décadas, com 27% há mais de dez anos e com 30% há quase um ano, como poderiam possuir um limite rígido de 15%? E com base em que evidência se poderia afirmar que não seria possível elevar a mistura para 32% ou 35%?
O que parece mais provável: que uma indústria automotiva global tenha fornecido durante anos ao Brasil peças incapazes de operar com a gasolina brasileira, sem que surgisse uma epidemia inequívoca de falhas, ou que os sistemistas tenham desenvolvido componentes e materiais capazes de atender mercados com diferentes teores de etanol?

A segunda hipótese não prova que todos os sistemas sejam compatíveis com qualquer mistura. Mas é muito mais plausível do que imaginar que uma peça oferecida em um mercado que usa E15 tenha operado por anos sob E27 e passado a falhar subitamente quando o teor chegou a 30% ou que passará a falhar quando passarmos a operar com 32% em 1º de agosto. Aliás, para os veículos que já circulavam no Brasil, a mudança relevante não será de E15 para E32. Será de E30 para E32.

Se existem barreiras críticas entre E27 e E30 ou entre E30 e E32, elas precisam ser demonstradas. Seria necessário identificar o material que perde estabilidade nesses intervalos, o mecanismo de corrosão que se acelera de forma abrupta ou a limitação de vazão que se torna crítica nesses teores.

Eu fiz a pesquisa sugerida — e depois fiz outra

Em determinado momento, o apresentador do vídeo e dono da oficina menciona o código do injetor e convida o espectador a pesquisar a peça na internet para comprovar que a peça que é vendida aqui é a mesma que é vendida lá nos EUA ou na Europa. A sugestão é válida. Pesquisa é sempre bem-vinda. Mas, além da pesquisa que ele recomendou, resolvi fazer outra, baseada em uma pergunta ainda mais simples: bicos injetores dão defeito nos Estados Unidos e precisam ser substituídos por lá?

A resposta, evidentemente, é sim. Os próprios bancos regulatórios norte-americanos mostram que componentes do sistema de combustível falham e são substituídos naquele mercado. Em uma campanha envolvendo veículos, curiosamente uma Mercedes-Benz, a fabricante determinou nos Estados Unidos a substituição do fuel rail e dos bicos injetores
dos automóveis afetados. A documentação registrava possibilidade de problemas relacionados à pressão do combustível e ao acendimento da luz de anomalia do motor. Quem quiser, pode checar aqui: https://static.nhtsa.gov/odi/rcl/2021/RCRIT-21V961-4395.pdf

Convém fazer uma ressalva importante: esse exemplo não prova que o injetor mostrado no vídeo tenha o mesmo defeito, que possua o mesmo part number ou que esteja sujeito ao mesmo mecanismo de falha. Ele demonstra algo muito mais básico — e suficiente para rebater a insinuação do dono da oficina no vídeo: veículos Mercedes-Benz, como os de qualquer outra marca, abastecidos no mercado norte-americano também apresentam problemas em injetores e sistemas de combustível que podem exigir substituição.

A NHTSA, autoridade norte-americana de segurança viária, mantém bases públicas de recalls, investigações, reclamações e boletins técnicos justamente porque carros e componentes falham nos Estados Unidos. A presença predominante de E10 ou a autorização do E15 não concede imortalidade mecânica a injetores, bombas ou catalisadores lá. Você acha mesmo que um bico injetor dura indefinidamente em Nova York, Paris ou Berlim e só precisa ser
substituído no Brasil?

Injetores operam sob pressões elevadas, tolerâncias extremamente pequenas para atender legislação de emissões cada vez mais restritivas, milhões de ciclos, variações térmicas e exposição a depósitos. Bombas sofrem desgaste mecânico e elétrico. Catalisadores envelhecem e podem ser danificados por falhas de ignição, mistura rica, consumo de óleo, sensores defeituosos e superaquecimento.

Esses componentes não duram eternamente em nenhum continente.
O que não se pode fazer é comparar alguns componentes defeituosos observados numa oficina brasileira com uma taxa de ocorrência estrangeira imaginária igual a zero.

O carro envelhece — mesmo quando o combustível não muda

Também não se pode ignorar o envelhecimento da frota. Veículos premium e importados ficaram mais caros nos últimos anos. O dólar subiu, os carros novos encareceram, houve redução do poder de compra e muitos consumidores passaram a ficar com seus veículos por mais tempo e negligenciar manutenção em alguns casos. Como tem reiterado Paulo Korn, especialista nesse segmento, esse cenário alterou o perfil etário da frota atendida pelas oficinas especializadas.

Isso tem consequências mecânicas previsíveis. As Mercedes-Benz, Audi, BMW, Volvo, Land Rover e Volkswagen de maior valor que chegaram novas ao Brasil há oito, dez ou doze anos estão agora entrando na fase em que componentes mais caros começam a exigir manutenção.
O carro pode estar muito bem conservado e ainda assim envelhecer. Vedações se deterioram, bombas acumulam ciclos, injetores acumulam depósitos, sensores sofrem com temperatura e tempo, e catalisadores perdem eficiência. Se uma oficina especializada começa a receber mais veículos premium dessas gerações, isso pode significar simplesmente que uma parcela maior da frota alcançou a idade crítica de manutenção.

Mesmo que a taxa de falha dentro de cada faixa etária permaneça igual, o número total de defeitos cresce quando aumenta a proporção de veículos antigos. É muito simples de entender. Acompanhe meu raciocínio. Suponha duas frotas de 100 mil carros. Na primeira, apenas 20 mil possuem mais de dez anos. Na segunda, são 40 mil. Se veículos acima de dez anos
tiverem uma taxa de falha maior, a segunda frota produzirá mais reparos mesmo que o combustível seja rigorosamente o mesmo. Os estatísticos chamam isso de mudança de composição da população.

Comparar números brutos de oficinas antes e depois do E30, sem controlar idade, modelo e quilometragem, pode atribuir ao combustível aquilo que foi produzido naturalmente pelo calendário. Há ainda outro ponto: a falha observada depois da implantação do E30 pode ter começado muito antes. Um injetor pode ter acumulado dez anos de desgaste, depósitos, ciclos térmicos e abastecimentos de diferentes procedências. Por isso, a data da pane que a oficina viu não é necessariamente a data da causa.

Aliás, e o metanol clandestino?

Ao atribuir defeitos em injetores, bombas, filtros e catalisadores ao aumento regulamentar do etanol, o vídeo ignora uma causa alternativa concreta e documentada: a comercialização num passado recente de combustíveis fraudulentamente contaminados por metanol. Em 2023, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) identificou crescimento atípico das importações, fluxos sem justificativa industrial, empresas de fachada e 248 amostras fora da especificação nas fiscalizações direcionadas.

Operações policiais identificaram indícios da atuação de organizações dedicadas à adulteração de gasolina e etanol com metanol. Após a atuação da ANP, o quadro mudou em 2024. O metanol não pode ser confundido com o etanol anidro autorizado na gasolina. É um produto com
comportamento químico distinto, mais agressivo e incompatível com materiais de veículos não preparados para sua utilização. Seus efeitos podem ser cumulativos, reduzindo a vida útil de componentes e produzindo falhas meses ou anos depois do abastecimento com combustível contaminado. Portanto, sem análise química do combustível ou dos resíduos encontrados nas peças, não é tecnicamente possível atribuir oxidação, entupimento ou degradação ao aumento de E27 para E30. Os veículos mostrados poderiam ter sido expostos, em algum momento ao longo de sua vida, a metanol, solventes ou outros combustíveis fora da especificação. O vídeo não investiga nem menciona nenhuma dessas hipóteses.

Um consumidor que abastece com combustível contaminado dificilmente percebe o problema
imediatamente. O veículo pode continuar rodando. O dano pode ser progressivo. Meses ou anos depois, surgem oxidação, entupimento, perda de vazão, falha de bomba ou degradação de outros componentes.
A oficina enxerga a peça danificada. Mas, sem análise química, não consegue enxergar o passado do tanque. Quando alguém encontra oxidação interna em um injetor e conclui imediatamente que “foi o etanol”, ignora hipóteses alternativas concretas: solventes, combustível fora da especificação, envelhecimento, depósitos acumulados, manutenção inadequada ou mesmo falta de manutenção.

O Estado mínimo termina quando o motor quebra

Esse episódio também expõe uma contradição política relevante. Muitas pessoas que criticam a qualidade dos combustíveis defendem simultaneamente Estado mínimo, cortes indiscriminados no orçamento do Estado, redução das agências reguladoras com enfraquecimento da fiscalização. Mas quem é que pode e deve identificar o metanol clandestino?

O consumidor não consegue realizar cromatografia diante da bomba, rastrear notas fiscais, auditar importadores ou identificar empresas de fachada. A cadeia de combustíveis possui uma assimetria de informação enorme.
Esse trabalho exige inteligência de dados, laboratórios, fiscalização presencial, servidores especializados e cooperação com autoridades tributárias e policiais.

A redução das ocorrências de metanol em 2024 não ocorreu espontaneamente: decorreu da atuação da ANP, que combinou inteligência de dados, controle das importações, fiscalização, laboratórios e operações conjuntas. Esse episódio evidencia por que a proteção do consumidor depende de uma agência reguladora tecnicamente capacitada e adequadamente financiada. Cortes indiscriminados podem reduzir a presença fiscalizatória e ampliar o espaço econômico para fraudadores, mesmo quando os servidores conseguem compensar parcialmente a escassez com maior eficiência e direcionamento das ações.

É legítimo discutir eficiência do gasto público. É necessário cobrar resultados. Mas cortar recursos de atividades fiscalizatórias sem avaliar os riscos pode gerar prejuízos ao consumidor muito superiores à economia orçamentária obtida.

Se a capacidade da agência responsável por combater a adulteração é reduzida, abre-se mais espaço para o fraudador. Depois, quando injetores, bombas e catalisadores começam a falhar, torna-se conveniente culpar o etanol regulamentar, em vez de investigar a possível presença de combustível clandestino.

A redução das fraudes não ocorre espontaneamente. Ela decorre da ação institucional — muitas vezes sustentada pelo esforço extraordinário de servidores que conseguem entregar resultados mesmo sob restrições severas de recursos. É o velho paradoxo: exige-se um mercado seguro, mas critica-se o Estado quando ele utiliza os instrumentos necessários para torná-lo seguro.

Nada disso significa que o etanol deva ser blindado contra críticas. Não existe combustível perfeito. O aumento da mistura deve ser testado, a compatibilidade da frota precisa ser monitorada, os relatos de oficinas devem ser recebidos e investigados, fabricantes e sistemistas precisam acompanhar os indicadores de campo e investigar casos documentados.

Seria intelectualmente desonesto responder a toda crítica afirmando que os estudos eliminam
qualquer possibilidade de problema em aplicações específicas. Estudos possuem escopo, limites e incertezas. A implantação em larga escala merece acompanhamento permanente. E, no caso do etanol, o Brasil é professor e doutor no assunto!

Mas também é intelectualmente desonesto transformar alguns veículos já rodados fazendo manutenção na oficina em prova de que uma política nacional está destruindo motores.
O debate honesto exige admitir duas coisas simultaneamente: pode haver aplicações ou componentes específicos que mereçam investigação; e os casos apresentados até agora não demonstram que o E30 seja a causa única e generalizada das falhas alegadas. Essas duas afirmações não se contradizem.

O etanol virou réu antes do processo

Em parte das redes sociais, o etanol parece ter sido colocado no banco dos réus antes mesmo da
investigação. A bobina estragou? Etanol. O bico injetor falhou? Etanol. O catalisador perdeu eficiência? Etanol. A bomba apresentou baixa pressão? Etanol. O carro envelheceu depois de dez anos? Talvez também seja culpa do etanol.

É uma explicação sedutora porque reúne problemas complexos em uma narrativa simples. Mas motores não funcionam por narrativas. Funcionam por física, química, termodinâmica, eletrônica e engenharia de materiais, que aliás, evoluiu muito desde que eu me formei na UnB em 1996.

Antes de condenar o combustível, seria razoável saber se a peça falhou prematuramente ou chegou ao fim de uma vida útil normal; se o combustível estava efetivamente dentro da especificação; se houve análise laboratorial; e se veículos comparáveis passaram a falhar mais depois da mudança de E27 para E30. Essas perguntas não diminuem o conhecimento do mecânico. Ao contrário, qualificam esse conhecimento.

O bom mecânico-influencer e o bom médico sabem dizer “ainda não sei”

No fim, talvez a melhor analogia continue sendo com o médico da festa. O bom médico escuta o relato, examina, formula hipóteses, pede exames, compara alternativas e só depois fecha o diagnóstico. Ele não olha para uma dor no peito e anuncia imediatamente sua causa sem medir a pressão, conhecer o histórico ou considerar outras possibilidades.

O bom mecânico faz o mesmo porque a oficina é um lugar de enorme conhecimento prático. Mas essa experiência se torna ainda mais poderosa quando vem acompanhada de método e humildade diagnóstica.

Dizer “estou observando casos e considero que isso merece investigação” é uma contribuição legítima. Dizer “o governo está adulterando a gasolina e destruindo os carros”, sem apresentar incidência, laudos, grupo comparativo ou mecanismo comprovado, é outra coisa. É opinião política com roupagem de “diagnóstico técnico”.

O Brasil merece um debate mais qualificado sobre o etanol e sobre qualquer tema. Merece discutir ganhos ambientais, segurança energética, custos, eficiência, compatibilidade e impactos sobre a frota. Merece cobrar transparência dos governos, rigor das agências e responsabilidade dos fabricantes. Mas também merece cobrar honestidade de quem, munido de uma câmera, algumas peças defeituosas e muita convicção, fala como se sua oficina fosse uma amostra representativa do país inteiro.

A experiência é valiosa. A indignação pode ser legítima. Nenhuma das duas, contudo, substitui evidência. E, como aprendi nos meus tempos de “médico de carros” nas festas de família, às vezes a resposta mais inteligente é não apresentar o diagnóstico antes do exame.

 

*Marlon Arraes Jardim é engenheiro Mecânico pela Universidade de Brasília e especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental

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