Fórum – Quais são os desafios para o produtor de cana na safra 2018/19?

Alisson Henrique

Natália Cherubin

MENOR RECEITA

“A safra 2018/19 será ainda menor que a última e tudo indica que os preços repetirão a safra passada ou serão ainda piores. Não houve progresso em relação ao Consecana e as expectativas com relação a possíveis benefícios do RenovaBio ainda estão distantes, pelo menos dos produtores de cana. Em resumo, teremos menor receita. No lado dos custos, seja pela aceleração do dólar ou pelas mudanças na produção de matérias-primas na China, já experimentamos um aumento nos valores dos insumos. Então, nesta ponta a pressão segue amentando. O resultado será mais um ano de margens apertadas ou mesmo negativas e, portanto, a grande dificuldade será equilibrar o caixa e decidir onde aplicar os parcos recursos de modo a conseguir redução de custos unitários. Os investimentos também continuarão represados assim como a reforma de canavial, empurrando o setor para um espiral negativa.”

Paulo de Araújo Rodrigues, sócio-diretor do Condomínio Agrícola Santa Izabel

PRODUTIVIDADE

“O maior desafio para o produtor de cana sempre será a produtividade, tendo por base uma ótima gestão de processos. O cenário dessa safra mostra um superávit nos estoques internacionais de açúcar e dependência da commodity política, que é o etanol. Portanto, esse cenário reflete numa abertura de safra com valor de ATR em torno de R$ 0,59 com especulação de fechamento de, no máximo, R$ 0,63. Extrapolando os dados desse cenário com os custos médios de produção praticados para um canavial com projeção de seis cortes e ATR médio de fechamento em torno de 133 kg, à margem de receita positiva só é alcançada quando obtivermos produção em TCH na ordem dos três dígitos. Portanto, na visão do produtor, a única forma de superar os momentos de oscilações nas quedas de preços é buscar a produtividade. Isso significa alcançar a meta das 15 t de açúcar por hectare.”

Daine Frangiosi, produtor de cana da VPIF Agrícola

MÃO DE OBRA QUALIFICADA

“Muito mais do que o uso da tecnologia, o principal desafio para nós é ter uma mão de obra qualificada, principalmente na região de Jataí, GO, onde estamos localizados. Hoje a qualificação de mão de obra é um gargalo para a utilização das novas tecnologias que estão surgindo. De nada adianta termos ótimas tecnologias, como é o caso do piloto automático, se não temos operadores com conhecimento suficiente para manusear as tecnologias.”

Gleybson Ferreira da Silva, coordenador da Agropecuária Valparaíso

CUSTOS DE TRANSPORTE E ATR

“O primeiro desafio de qualquer produtor de cana é produzir acima de 12 t de açúcar/ha, porque abaixo disso fica-se em uma linha um tanto quanto perigosa em termos de custos. Outro desafio é o transporte. Existem limitações com relação ao transporte, como a necessidade de trabalhar com volumes mais baixos. Estes são desafios que temos que acompanhar, ou seja, trabalhar com os custos de transporte de forma que não afetem muito o preço final da cana. Outro desafio está relacionado ao clima e ao planejamento de variedades. Como os preços este ano não tem perspectiva de melhora, precisamos tirar o máximo de açúcar da cana para poder sobreviver.”

Luiz Carlos Dalben, produtor de cana da Agrícola Rio Claro

REMUNERAÇÃO

“O maior vai ser remuneração. Estamos com preços muito baixos. Não há perspectiva de melhora e se a gente não conseguir chegar a um acordo para que se faça uma remuneração satisfatória para o produtor, vai ser muito difícil que ele continue na atividade nos próximos anos, principalmente o pequeno produtor.”

Bruno Rangel Geraldo Martins, presidente da Socicana

PRODUTIVIDADE E RENTABILIDADE

“O desafio continua sendo recuperar a produtividade que está baixa. Teremos preços inferiores em relação às safras passadas, pois na 2016/17 fechou em R$ 0,68/Kg ATR e na 2017/18 em R$ 0,59. Nesta deveremos ter algo próximo a R$ 0,52/Kg ATR, então será uma receita menor e o canavial continua ruim. O produtor precisará pensar e analisar bem para reduzir custos sem perder em qualidade e sem deixar de adubar e controlar ervas daninhas. O principal será buscar melhor rentabilidade com boas práticas para, dentro da situação ruim do canavial, fazer o melhor possível.”

Manoel Ortolan, presidente-executivo da Copercana e presidente da Canaoeste

SEIS DESAFIOS

“O primeiro desafio é sobreviver a situação indefinida de remuneração da cana-de-açúcar; ao alto grau de endividamento do setor; à falta de política pública clara e ágil para valorizar a cadeia da cana e todos os seus benefícios para as comunidades inseridas e sua própria descapitalização, tendo que conviver com insumos caros, custos de produção inviáveis, dificuldade em cumprir a renovação do seu canavial. O segundo desafio é o de engajamento às entidades de classe representativas no âmbito político, social e técnico, que tragam valor ao produtor no que tange a serviços, tecnologia, amparo jurídico, informações sólidas e norteadoras. O terceiro desafio é de reconstrução de sua atividade, buscando maior interação em toda a cadeia de empresas, profissionais, entidades e demais participantes que podem prover soluções integradas. O quarto desafio é se tornar um AgroEmpresário, com visão clara da necessidade de entender não somente da produção, mas também de investir em pessoas e profissionais, quer sejam do meio que o produtor vive, como também compartilhar de profissionais inseridos nas associações, cooperativas, empresas provedoras de serviços e insumos. O quinto desafio é integrar-se mais as suas associações, provocando também uma ampla reformulação de visão profissionalizada de suas instituições. E, por último é envolver-se mais na sistemática de comercialização da sua matéria-prima, entendendo os fatores que o levam a receber mais ou menos pela tonelada de cana. Instigando que se implante definitivamente uma política de remuneração justa e integrada entre as necessidades da indústria e o reconhecimento pelo produtor que se adequa a nova realidade. O preço da cana deve ser proporcional ao teor de comprometimento, integração, qualidade e custo que vem inserido nesta tonelada.”

Celso Albano de Carvalho, gestor-executivo da Orplana