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Irrigação avança na cana e ganha espaço como ferramenta de segurança operacional

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Adoção da tecnologia ganha força no setor com foco em segurança operacional e maior previsibilidade produtiva

A irrigação na cultura da cana-de-açúcar vem deixando de ser vista apenas como um diferencial de produtividade para assumir um papel cada vez mais estratégico na gestão agrícola das usinas e produtores. Diante da crescente instabilidade climática, a tecnologia passa a ser incorporada ao planejamento estrutural das operações, com foco em garantir volume, previsibilidade e redução de riscos ao longo das safras.

Na Usina Sonora, localizada no extremo norte de Mato Grosso do Sul — região que vem enfrentando variações mais acentuadas no regime hídrico — a irrigação já integra o modelo de evolução tecnológica da companhia. A percepção é de que a instabilidade climática impacta diretamente a previsibilidade da produção, exigindo novas abordagens para sustentar o desempenho agrícola.

Na avaliação de Giuseppe Valezi, gerente agrícola da usina, esse cenário tem acelerado mudanças estruturais na condução dos canaviais. “Nossa região vem sofrendo impactos relevantes das variações no regime de chuvas, o que afeta diretamente a estabilidade produtiva. Diante disso, a irrigação passa a ter um papel estratégico na sustentação do nosso modelo agrícola”, afirma.

Segundo o executivo, a companhia vem estruturando um sistema produtivo mais resiliente, com maior controle sobre as variáveis agronômicas e menor dependência das condições climáticas. “Estamos avançando para um modelo com mais previsibilidade e estabilidade ao longo dos ciclos, apoiado na adoção de tecnologias que ampliam a eficiência operacional e o aproveitamento dos recursos”, destaca.

Atualmente, a usina cultiva aproximadamente 26 mil hectares, dos quais cerca de 12 mil já contam com algum tipo de irrigação. Dentro dessa área, o sistema de gotejamento começa a ganhar escala de forma estruturada. Para 2026, estão previstos 660 hectares com gotejo, sendo 210 hectares já em operação e outros 450 hectares em fase de implantação.

A escolha pelo gotejamento foi baseada em estudos agronômicos que consideraram variáveis como clima, tipo e textura de solo e evapotranspiração. Apesar do maior investimento inicial, o sistema foi definido como o mais eficiente para as condições locais, permitindo maior precisão no manejo e melhor aproveitamento da água disponível.

Além do gotejamento, a usina utiliza irrigação por aspersão em regime de salvamento e avança na implantação de pivôs centrais, consolidando um modelo híbrido e flexível, adaptado às diferentes condições de solo e ambiente produtivo.

O manejo adotado inclui a Irrigação Suplementar Deficitária (ISD), operando com cerca de 70% da necessidade hídrica da cultura. Com essa estratégia, a expectativa é alcançar produtividade média próxima de 130 toneladas por hectare, com longevidade superior a 12 cortes, frente a médias de aproximadamente 60 toneladas por hectare e até seis cortes em áreas de sequeiro.

Embora a primeira colheita das áreas irrigadas ainda esteja prevista para a safra 2026, a expectativa é de que a tecnologia contribua para reduzir a dependência climática e aumentar a estabilidade produtiva ao longo dos ciclos.

Segundo Daniel Pedroso, eventos de estiagem severa foram determinantes para consolidar essa percepção no setor. “Em anos de estiagem, muitos irrigantes tiveram quedas muito menores ou até aumento de produção, o que demonstrou a importância da irrigação no setor”, destaca.

Apesar do avanço, o especialista avalia que o planejamento ainda é um ponto crítico. “A decisão da irrigação precisa ser tomada no momento do plantio. O sistema já deve estar disponível quando se decide implantar o canavial, e não depois que ele já está em estresse hídrico”, explica.

De acordo com o especialista, quando a irrigação passa a integrar o planejamento estratégico, há ganhos claros em previsibilidade de moagem, regularidade no fornecimento de cana e eficiência operacional. “Mesmo em uma estiagem severa, sabemos que teremos matéria-prima para abastecer a indústria, o que permite planejamento e maior estabilidade ao longo da safra”, afirma.

Em termos de desempenho, os ganhos são expressivos. Segundo Daniel Pedroso, em anos mais secos, a irrigação pode elevar a produtividade entre 50% e 100%. “Quando aumentamos a produtividade de 80 para 140 toneladas por hectare, o custo por tonelada cai significativamente, o que mostra o impacto direto na eficiência econômica”, explica.

Outro ponto relevante é a longevidade do canavial. “Canaviais irrigados por gotejamento podem alcançar facilmente 10 a 12 anos de ciclo sem reforma, mantendo produtividade elevada ao longo dos cortes”, afirma.

Na avaliação do especialista, embora ainda exista a percepção de alto investimento inicial, a irrigação se paga rapidamente. “É um investimento que se paga em três a quatro anos, e depois disso o produtor trabalha com o sistema já amortizado por vários ciclos”, destaca.

Além do ganho produtivo, a irrigação vem sendo cada vez mais associada à proteção do caixa e à redução de riscos operacionais. “Em cenários de margens apertadas, o mais importante é garantir volume de cana. Se não houver produção, o prejuízo pode ser muito grande”, afirma.

Produção de cana em áreas antes não imagináveis

A experiência prática reforça essa mudança de visão. Em entrevista à RPAnews, Ariane Ludolf Oliveira, engenheira agrônoma responsável pela área agrícola da Fazenda Guarita, relata que a decisão de investir em irrigação por gotejamento surgiu a partir dos impactos crescentes do clima sobre a lavoura.

Localizada em uma região próxima a Araçatuba, com regime de chuvas mais restrito e solos arenosos, a fazenda vinha enfrentando dificuldades na retenção de água e perda de vigor dos canaviais. “Nos últimos anos, o calor tem sido muito mais alto e as chuvas não acompanharam, e percebemos que o nosso canavial ficou mais fraco. Foi por isso que decidimos fazer o projeto de irrigação”, explica.

Área da fazenda Guarita.

A fazenda possui cerca de 2 mil hectares, com 200 hectares irrigados desde o final de 2025, e já planeja expandir para 600 hectares. “Hoje temos 200 hectares, mas queremos chegar a 600 hectares em uma gleba próxima ao rio, com novos projetos nos próximos anos”, afirma.

Segundo Ariane, a irrigação permitiu viabilizar o plantio de cana em áreas antes consideradas inviáveis. “Estamos colocando cana em áreas onde não colocaríamos, principalmente por serem muito arenosas e com risco alto de perda por falta de água”, destaca.

Embora ainda não tenha dados consolidados de colheita, a expectativa é elevar a produtividade e a longevidade do canavial. “Nossa meta no sequeiro é de 85 toneladas por hectare em cinco cortes, enquanto no irrigado projetamos 100 toneladas por hectare em 10 cortes, em uma conta ainda conservadora”, afirma.

A percepção no campo também é compartilhada pela gestão da fazenda. “Ter a segurança de que o clima não vai mais atrapalhar a produção é algo fantástico”, destaca o gerente da Fazenda Guarita, Lorival Antônio de Oliveira.

Segundo ele, os resultados já impulsionam novos investimentos. “Vamos continuar investindo e ampliando a área irrigada, porque os resultados têm se mostrado muito interessantes”.

De acordo com Ariane, a irrigação vai trazer ganhos operacionais importantes. “A irrigação vai ser um seguro. Conseguimos manejar variedades, fertirrigação e várias intervenções pelo sistema, reduzindo custo operacional e ficando menos dependentes do clima”, explica.

Ela destaca ainda que o investimento inicial, embora elevado, se justifica no longo prazo. “Se fizermos 100 toneladas de média, pagamos o projeto e ainda temos lucro, lembrando que depois o equipamento fica para os próximos ciclos”, afirma.

Na avaliação da produtora, a irrigação representa uma combinação entre aumento de produtividade e segurança operacional. “Mistura dos dois. Você aumenta a produção e ao mesmo tempo tem um seguro de produção”, diz.

Atualmente, a fazenda registra médias entre 82 e 83 toneladas por hectare no sequeiro, com meta de atingir 85 toneladas, reforçando o potencial de ganho com a expansão da irrigação. Mesmo com o projeto ainda em fase inicial, os resultados já começam a aparecer. “Já conseguimos ver bastante diferença no início do ano. A área irrigada está cerca de 20% maior, e esperamos no primeiro corte até 120 toneladas por hectare”, destaca.

Natália Cherubin para RPAnews

 

 

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