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Irrigação é usada pelas usinas como ferramenta de estabilidade operacional e redução de risco

A área irrigada cresceu de forma consistente. A modalidade ‘salvamento’ com canhões autopropelidos já soma aproximadamente 1,4 milhão de hectares. No gotejamento, são cerca de 50 mil hectares, e no pivô central, entre 60 e 70 mil hectares.
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 Déficits hídricos, volatilidade climática e busca por estabilidade aceleram irrigação no setor sucroenergético

Déficits hídricos recorrentes, maior variabilidade climática e a necessidade de reduzir oscilações na oferta de matéria-prima vêm acelerando os investimentos em irrigação no setor sucroenergético. Em regiões mais pressionadas pelo clima, a tecnologia passou a ser incorporada pelas usinas não apenas como ferramenta de ganho de produtividade, mas também de estabilidade operacional, previsibilidade de moagem e redução de riscos agrícolas ao longo da safra.

Segundo Pericles Pelisser, representante técnico de vendas para cana-de-açúcar da Netafim, áreas irrigadas já operam em um patamar produtivo cerca de 50% superior ao sequeiro e apresentam menor oscilação mesmo em anos secos, aumentando a previsibilidade da oferta de cana para a indústria.

Na avaliação do especialista, a maior regularidade da matéria-prima ao longo da safra acaba refletindo diretamente sobre a eficiência operacional das usinas, otimizando recursos agrícolas e industriais, incluindo mão de obra, maquinário e consumo energético.

Pelisser destaca que um dos principais diferenciais das áreas irrigadas aparece justamente no terço final da safra, período em que lavouras de sequeiro tendem a sofrer maior penalização climática. Segundo ele, enquanto áreas irrigadas mantêm produtividade e qualidade da matéria-prima, o estresse hídrico compromete principalmente a brotação de soqueiras e o desenvolvimento do ciclo seguinte nas áreas não irrigadas.

Em meio à maior volatilidade climática observada nos últimos anos, a irrigação também passou a ser tratada pelas usinas como ferramenta de gestão de risco agrícola. Segundo Pelisser, operações que já escalaram projetos irrigados em áreas comerciais apresentam hoje maior assertividade no planejamento de moagem, redução da volatilidade produtiva e menor necessidade de expansão ou reforma de áreas.

Além dos ganhos agrícolas, a tecnologia também começa a impactar diretamente o desempenho industrial. Segundo o especialista, o manejo adequado da irrigação pode contribuir para melhoria da qualidade da matéria-prima, reduzindo problemas operacionais e favorecendo indicadores tecnológicos como ART e ATR.

De acordo com Pelisser, o controle da água e da nutrição proporcionado pelo gotejamento permite maior eficiência no manejo da maturação da cana, principalmente quando associado ao uso de maturadores químicos.

Santa Adélia amplia irrigação em Pereira Barreto

Esse movimento já vem sendo observado em operações comerciais do Centro-Sul. Na Usina Santa Adélia, em Pereira Barreto (SP), a irrigação passou a ocupar posição estratégica dentro dos investimentos agrícolas diante dos déficits hídricos recorrentes registrados na região.

A companhia iniciou os projetos irrigados em 2023 e atualmente possui 3 mil hectares implantados, além de outros 1,2 mil hectares em fase inicial de expansão. Segundo o diretor agrícola da usina, Cássio Paggiaro, a meta é que aproximadamente um terço da área cultivada opere futuramente sob irrigação deficitária, tanto via gotejamento quanto pivôs.

“A intenção da USA é chegar a um terço das áreas cultivadas sendo irrigadas deficitariamente, tanto pelo processo de gotejamento como por pivôs”, afirma.

De acordo com o executivo, a decisão de investir na tecnologia foi diretamente influenciada pelas limitações climáticas da região, que historicamente registra déficits hídricos entre 700 e 800 milímetros. “Aqui são situações bastante difíceis, com déficits hídricos muito grandes, e isso faz com que a gente não tenha previsibilidade da matéria-prima que vamos ter. A irrigação por gotejamento vem justamente para cobrir essa lacuna”, afirma.

Segundo ele, o histórico climático recente reforçou ainda mais a necessidade de investimentos estruturais em irrigação. “Nos últimos anos, de cada cinco safras, praticamente quatro tiveram problemas maiores do que o déficit normal da região”, destaca.

Ganhos avançam além da produtividade

Os primeiros resultados do projeto já vêm mostrando ganhos relevantes de produtividade. Segundo Paggiaro, os primeiros cortes apresentam incrementos médios superiores a 40 toneladas por hectare em relação ao sequeiro, com variações associadas principalmente às variedades utilizadas.

“Nos primeiros cortes estamos conseguindo deltas médios de ganho de produtividade acima de 40 t/ha, variando muito em função das variedades testadas e utilizadas”, afirma.

Segundo o executivo, o projeto ainda é recente para avaliações definitivas sobre longevidade das áreas irrigadas, mas a expectativa da companhia é alcançar pelo menos 10 cortes nos canaviais irrigados. “As áreas irrigadas têm nos dado muita previsibilidade de produção, se olharmos pela ótica da estimativa versus realizado, independentemente de como foi o ano climaticamente falando”, afirma.

Além da estabilidade produtiva, a usina também passou a observar maior regularidade na qualidade tecnológica da matéria-prima entregue à indústria. “Da mesma forma que a irrigação nos traz previsibilidade de produção de cana, também nos traz previsibilidade em concentração de açúcar, pureza, fibra e umidade da cana”, destaca.

Segundo Pelisser, projetos irrigados associados à fertirrigação e ao manejo correto da retirada de água também podem favorecer ganhos em ATR superiores aos observados em áreas de sequeiro.

Expansão exige nova lógica operacional

A definição das áreas irrigadas na Santa Adélia ocorreu a partir de um planejamento técnico envolvendo disponibilidade hídrica, tipo de solo, relevo, logística, distância média de transporte, contratos de parceria e época de colheita.

Segundo a usina, o modelo de irrigação deficitária adotado em Pereira Barreto opera integrado à fertirrigação, permitindo que parte relevante da aplicação de insumos seja realizada via água. “A irrigação deficitária, quer seja por gotejo ou pivô, funciona sempre como fertirrigação também. A maioria das colocações de insumos são feitas via água”, afirma Paggiaro.

O crescimento das áreas irrigadas também exigiu mudanças operacionais dentro da companhia, incluindo a criação de uma estrutura dedicada exclusivamente ao manejo da cana irrigada. “Com o crescimento da área irrigada houve a formação de uma área específica e voltada exclusivamente para a cana irrigada”, afirma.

Na colheita, um dos principais ajustes passou a ser o chamado dry off, período de carência entre o corte da irrigação e a entrada das operações de colheita.

Segundo Paggiaro, o avanço da irrigação já começa a alterar também a estrutura econômica da produção agrícola da usina. “O custo da cana irrigada, com os diferenciais de produtividade, será menor que o sequeiro em R$/t, sendo o investimento pago entre quatro e cinco anos”, afirma.

Na avaliação do executivo, a irrigação já passou a ocupar posição prioritária dentro dos investimentos agrícolas da unidade de Pereira Barreto. “A irrigação na Unidade Pereira Barreto da USA é considerada estratégica e vista como prioritária entre os projetos de investimento”, afirma.

Para Pelisser, o avanço da irrigação deve continuar acelerando nas próximas safras diante da necessidade crescente de estabilidade produtiva e redução de riscos climáticos no setor sucroenergético.

“Os investimentos em irrigação estão acontecendo de forma consistente em 2026/27 e vemos uma tendência de crescimento ainda maior para os próximos anos. É um caminho sem volta”, conclui.

Natália Cherubin para RPAnews

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Episódio 22: Como as tecnologias e a IA impactam as operações agrícolas?

Ep. 21: O futuro do setor sucroenergético | Perspectiva para Safra 2026/27

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