Líderes e liderados: estamos sempre nos dois papéis

Como podemos esperar que os liderados inspirem e engajem pessoas, que sejam exemplos e modelos, que protagonizem mudanças, que formem talentos e que mobilizem sonhos comuns, se quem está acima corre para outras direções ou acha que aquilo não diz respeito a ele?

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Líderes e liderados: estamos sempre nos dois papéis

*Beatriz Resende

Há anos temos investido pesadamente, não só na parte financeira, mas principalmente  altas expectativas no desenvolvimento do exercício eficaz dos líderes nas organizações. Passamos por várias fases de entendimento desse nobre papel.

Demos rótulos a estilos, perfis e arquétipos; inventamos modelos de melhores práticas de desenvolvimento de competências e habilidades para esse público; acreditamos em promessas de mudanças rápidas; propusemo-nos a montar estruturas para formação interna de potenciais líderes para o futuro.

Além disso, agarramo-nos em algumas visões que de vez em quando despontam como, por exemplo, aquelas que dizem que pessoas não precisam de chefes e que elas podem ser auto gerenciáveis: é preciso explicar que elas podem não precisar mais daqueles chefes típicos que temos já substituído pelos “sonhados” líderes há tempos; mas que as pessoas precisam sim de alguém que as direcione, as ensine, passe bons exemplos e sejam mentores de carreira e vida.

Por isto mesmo, tão cedo, não poderemos nos livrar da responsabilidade sobre esse tema. E arrisco a dizer que, se conseguirmos, será a longo, longo prazo. Temos tratado esse assunto como estratégico, mas ele ainda está longe de ficar bom.

Vemos evolução, sim, mas não na medida em que temos colocado nossas ene

rgias e patrocínios. Culpa desses tempos difíceis que estamos passando? E aqui não falo especificamente de uma crise ou outra, mas da complexidade do cenário exigente, competitivo, dilacerador e implacável que nos gera insegurança, medo, senso de preservação, cautela e falta de posicionamentos perante valores tão controversos que não nos permite ter olhares claros e límpidos sobre nossos compromissos pessoais e profissionais.

Somos convidados a trabalhar com os líderes: mas nem toda a cadeia é envolvida. Treinar uma parte não impacta no todo, na mudança que as empresas precisam fazer nos seus modelos de gestão. Há um ponto esquecido que é o fato de que todo profissional que é um líder, também é um liderado de outro líder maior. Nem o dono escapa disso, pois o mercado é o seu grande e onipresente líder. E este não é nada bonzinho e compreensivo.

 

Quando cito isso, é para despertar o sentido de comprometimento que todos que estão nesses dois papéis precisam ter quanto à sua evolução. A exigência é para todos, não só para uma parte dela. E então, se parte dessa cadeia acha que só os que estão abaixo dela precisam evoluir, é porque ainda não entenderam a gravidade da situação.

Não seremos eternos líderes, com nossas vantagens, regalias e simbolismos de status, se não sairmos dessa zona adquirida com as conhecidas garantias que nos trouxeram até aqui.

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A arrogância intelectual ou a soberba advinda de posições alcançadas que nos eleva a profissionais especiais e protegidos por nossos seguros e impenetráveis escafandros, pode ser, a partir de agora, não mais a nossa armadura, mas a nossa armadilha.

Há tempos invocamos às empresas que prestem atenção nesse assunto. Pesquisas têm nos mostrado, nos últimos anos, que a grande prioridade organizacional, tendo as áreas de RH/DHO como representantes desse assunto, tem sido e será o desenvolvimento de lideranças. De todas elas.

Como podemos esperar que os liderados emerjam dos seus tímidos papéis e atuações, que inspirem e engajem pessoas, que sejam exemplos e modelos, que protagonizem mudanças, que formem talentos e que mobilizem sonhos comuns (discursos bem atuais), se quem está acima corre para outras direções ou acha que aquilo não diz respeito a ele?

Está na hora das empresas cobrarem mais dos seus homens de confiança. Está mais do que na hora destes se colocarem no patamar de pessoas que, como todas, têm forças a potencializar e fragilidades a administrar.

O convite de mudança que sai da boca do mundo é para todos! E quem está aficionado por esse futuro cheio de surpresas tecnológicas, saiba que acima de tudo ele está apostando em pessoas com perfis diferenciados e que saibam trabalhar coletivamente para um objetivo comum, e não somente para seus objetivos individuais.

O sentido será: equilibrar interesse próprio com o coletivo; fazer a diferença na vida dos clientes, das pessoas, dos nossos colaboradores; servir a grupos, à humanidade e ao planeta. Fazer, de fato, a diferença.

 

*Beatriz Resende é consultora, palestrante e conselheira de Carreira da Dra. Empresa Consultoria Empresarial