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Mercado pressiona remuneração do ATR, exige eficiência e reforça a importância de ampliar a demanda por etanol

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Especialistas apontam que menor demanda por açúcar, perda de competitividade do etanol e política de combustíveis explicam a queda da remuneração do ATR

Depois de seis safras marcadas por preços remuneradores, o setor sucroenergético volta a enfrentar um ambiente de maior pressão sobre a remuneração do ATR. A combinação entre a queda das cotações do açúcar e do etanol, a maior oferta de cana e a política de preços dos combustíveis tem reduzido a rentabilidade da cadeia e reforçado a necessidade de ganhos de eficiência. Os fatores por trás desse movimento foram discutidos durante uma live promovida pela Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), que reuniu representantes da Datagro, Pecege, BRRP e da própria entidade.

Ao abrir o encontro, o CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira, afirmou que a proposta da iniciativa era levar aos produtores informações atualizadas sobre mercado e formação do ATR, aproximando as análises técnicas das decisões tomadas no campo.

Na sequência, o diretor da Datagro, Guilherme Nastari, afirmou que o setor sucroenergético vive um momento diferente daquele observado nos últimos anos. Segundo ele, após seis safras consecutivas de preços remuneradores, o mercado passou a enfrentar uma combinação de fatores — como a maior oferta de cana no Brasil, o crescimento da produção de etanol e a desaceleração da demanda mundial por açúcar — que pressiona os mercados de açúcar e etanol e se reflete diretamente na remuneração do ATR.

Na avaliação de Nastari, a demanda mundial por açúcar deixou de crescer no ritmo observado nas últimas décadas, enquanto o mercado doméstico de etanol também enfrenta dificuldades para absorver o aumento da oferta. Ao mesmo tempo, a expectativa de maior disponibilidade de cana nesta safra, favorecida pelas chuvas em importantes regiões produtoras, amplia a oferta de matéria-prima e contribui para esse cenário de maior pressão sobre os preços.

“Após seis anos consecutivos de preços relativamente remuneradores para o setor, estamos enfrentando alguns desafios que são fáceis de identificar.”

Foi nesse contexto que João Rosa explicou como as mudanças nos mercados de açúcar e etanol se refletem diretamente na remuneração do ATR paga ao fornecedor de cana.

Ao iniciar sua apresentação, João Rosa procurou desfazer uma percepção que, segundo ele, ainda gera dúvidas entre muitos produtores.”O que é pago ao produtor nada mais é do que um reflexo que vem do mercado.”

Segundo o pesquisador do Pecege, nas últimas safras o ATR chegou a ser remunerado entre R$ 1,15 e R$ 1,20 por quilo. Agora, entretanto, os valores se aproximam de R$ 0,90, resultado da redução nas cotações do açúcar e do etanol.

Botão ressaltou que essa queda não está relacionada à revisão da metodologia do Consecana conduzida por Orplana e Unica. “Não tem nada a ver em relação a isso. Isso simplesmente é um reflexo de mercado.”

Como o mercado chega ao ATR pago ao fornecedor

Para ilustrar como os preços do açúcar e do etanol se refletem na remuneração do ATR, João Rosa apresentou uma simulação com valores observados pelo Cepea. Segundo ele, um açúcar comercializado em torno de R$ 80 por saca corresponde a aproximadamente R$ 1,53 por quilo de ATR, enquanto um etanol hidratado negociado próximo de R$ 2,20 por litro equivale a cerca de R$ 1,31 por quilo.

Em um exemplo com mix de produção de 55% de açúcar e 45% de etanol, o valor bruto alcançaria aproximadamente R$ 1,43 por quilo de ATR. Após a divisão da receita prevista na metodologia do Consecana, a remuneração do fornecedor fica próxima dos atuais R$ 0,85 a R$ 0,90 por quilo.

Segundo Botão, o exercício demonstra que a remuneração do fornecedor acompanha diretamente o comportamento dos mercados. “À medida que o mercado arrefece, o preço ao produtor acaba diminuindo também.”

ATR deve reagir, mas sem voltar aos níveis das últimas safras

Segundo projeções apresentadas pelo Pecege durante a live, a remuneração do ATR deve encerrar a safra próxima de R$ 0,95 por quilo.

João Rosa explicou que essa expectativa considera uma recuperação gradual do mercado internacional de açúcar ao longo do segundo semestre, mas descartou a possibilidade de retorno aos níveis registrados nas últimas quatro ou cinco safras. “Eu acredito que o preço sobe, o Pecege acredita que o preço sobe, mas não a patamares que a gente viu nos últimos quatro ou cinco anos.”

Segundo o pesquisador, a principal mensagem para fornecedores e usinas é que a remuneração deverá permanecer entre 15% e 20% abaixo da observada recentemente. “Acho que essa é a mensagem que fica.”

Política de combustíveis continua pressionando o etanol

Outro tema abordado durante a apresentação foi o impacto da política de preços da gasolina sobre o mercado de etanol.

Na avaliação de Nastari, o mercado de etanol também enfrenta um cenário desafiador. Além da expansão da produção, especialmente com o crescimento do etanol de milho, ele afirmou que o consumo doméstico perdeu força e que as exportações brasileiras registram os menores níveis das últimas décadas.

O diretor da Datagro atribuiu parte desse cenário à política de preços da gasolina, que, segundo ele, reduz a competitividade do etanol hidratado. “O preço da gasolina está controlado.”

Essa análise foi aprofundada, na sequência, por João Rosa, ao apresentar simulações sobre os efeitos da defasagem da gasolina na remuneração do ATR.

Segundo João Rosa, a manutenção da gasolina abaixo da paridade internacional reduz a competitividade do biocombustível e acaba afetando diretamente a remuneração do ATR.

Ele lembrou que esse tipo de intervenção ocorreu em diferentes períodos e não está associado a um único governo.”Infelizmente essa questão de mexer nos preços dos combustíveis não é uma questão de sigla.”

Utilizando simulações elaboradas pelo Pecege, o pesquisador mostrou que, caso a gasolina acompanhasse a paridade internacional, o etanol poderia alcançar preços mais elevados, refletindo positivamente sobre a remuneração do ATR.

Pelas estimativas apresentadas durante a live, esse represamento pode retirar entre cinco e dez centavos por quilo de ATR da remuneração do fornecedor.”Qual que é o impacto no seu bolso? De cinco a dez centavos o quilo de ATR.”

Na prática, explicou, isso representa aproximadamente R$ 14 por tonelada de cana considerando um canavial com ATR de 140 quilos.

Embora considere positiva a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de E30 para E32, João Rosa avaliou que o ganho proporcionado pela medida tende a ser inferior ao impacto provocado pela defasagem dos preços da gasolina.

Segundo as estimativas apresentadas pelo Pecege, o E32 poderá acrescentar entre um e dois centavos por quilo de ATR à remuneração do fornecedor. “A questão da subvenção acaba sendo bem maior.”

Mercado volta a um comportamento histórico

Ao analisar a série histórica do Consecana desde o início dos anos 2000, João Rosa destacou que o setor sucroenergético sempre conviveu com ciclos de alta e baixa remuneração.

Segundo ele, os últimos quatro ou cinco anos representaram um período excepcional dentro dessa série histórica. “O setor sucroenergético é feito de ciclos.”

Na avaliação do pesquisador, a redução observada atualmente faz parte desse comportamento histórico e não representa uma ruptura estrutural do mercado.”O preço está ruim ou os últimos anos é que foram muito bons?”

Apesar disso, ele ponderou que o cenário atual apresenta uma diferença importante em relação a outros ciclos: a redução das receitas ocorre em um momento em que diversos custos de produção permanecem elevados. “Uma coisa é preço, outra coisa é custo.”

Segundo Botão, fatores como conflitos internacionais, preços de fertilizantes, juros elevados e outros componentes continuam pressionando a rentabilidade das propriedades, ampliando os desafios tanto para fornecedores quanto para as usinas.

Para o pesquisador, essa combinação entre preços mais baixos e custos elevados torna a gestão ainda mais importante para preservar a competitividade do setor.

Apesar do momento de preços mais baixos, Guilherme Nastari avaliou que os fundamentos de longo prazo permanecem favoráveis ao setor sucroenergético.

Segundo ele, a transição energética, a expansão dos biocombustíveis e o desenvolvimento de novos mercados para o etanol deverão ampliar a demanda nas próximas décadas. Para o diretor da Datagro, o desafio atual é atravessar esse período preservando a competitividade, investindo em eficiência e fortalecendo o mercado consumidor. “Nós temos que buscar eficiência, sim. Nós temos que buscar processo, sim. Mas é um setor maravilhoso que está na agenda dos próximos 100 anos.”

Natália Cherubin para RPAnews

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Ep. 27: Como a tecnologia está transformando as fábricas de açúcar?

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