Realizado pela São Martinho, em parceria com a Prefeitura de Iracemápolis e pesquisadores da UNESP Botucatu, o projeto estuda a distribuição espacial, comportamento, fisiologia, entre outros aspectos da espécie na região monitorada.
A São Martinho, uma das maiores produtoras de açúcar, etanol e bioenergia do país, promove desde o segundo semestre de 2025 o Projeto Lobos de Iracema. A iniciativa reforça a integração entre produção agrícola, conservação da biodiversidade e ciência aplicada por meio de um estudo inédito que monitora a presença e o uso da paisagem pelo lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) em áreas da Unidade Iracema e nos arredores de Iracemápolis (SP).
O Projeto Lobos de Iracema é resultado de uma parceria técnico-científica entre a UNESP Botucatu, a São Martinho e a Prefeitura de Iracemápolis, com o objetivo de ampliar o conhecimento científico sobre a distribuição espacial, ecologia, comportamento, fisiologia, reprodução e genética do lobo-guará. A iniciativa busca gerar informações capazes de subsidiar ações voltadas à conservação da espécie, e ao fortalecimento de práticas agrícolas sustentáveis que favoreçam a coexistência com a fauna silvestre.
O estudo utiliza métodos estritamente não invasivos por meio do monitoramento por armadilhas fotográficas e drones, e análises genéticas e hormonais com amostras de fezes. A adoção dessas tecnologias permite que o monitoramento biológico ocorra sem interferência nas operações de campo, conferindo legitimidade científica e conformidade com os mais rigorosos padrões de ESG (Ambiental, Social e Governança).
De acordo com o Assessor de Meio Ambiente da São Martinho, André Tebaldi, “o projeto materializa a visão da companhia de transformar sua paisagem produtiva em um espaço ativo de conservação, no qual a ciência aplicada gera dados concretos para fortalecer um modelo de agricultura que coexiste de forma sustentável com a biodiversidade”.
O Projeto Lobos de Iracema
As atividades dos pesquisadores tiveram início no segundo semestre de 2025, após a formalização das parcerias com a São Martinho, a Prefeitura de Iracemápolis e a emissão das licenças necessárias. O foco central do estudo está na coleta e análise de informações genéticas e hormonais para entender a estrutura populacional e como os lobos respondem às pressões do ambiente. O monitoramento é realizado em uma área de 179 km² que abrange os municípios de Iracemápolis, Cordeirópolis, Limeira, Santa Gertrudes e Piracicaba, com forte concentração na Unidade Iracema, localizada em Iracemápolis.
A equipe do projeto é formada por dois pesquisadores, a médica veterinária Mariana Suzanne de Oliveira Mendes Silva e o biólogo Volmir Forte Daros, e pela orientadora do programa de pós-graduação em Biotecnologia Animal da FMVZ da UNESP Botucatu, a médica veterinária Profa. Dra. Fabiana Ferreira de Souza.
O monitoramento une tecnologia e presença constante em campo, por meio de análises genéticas e hormonais realizadas a partir da coleta de fezes frescas, que permitem obter dados de parentesco, identificação individual, reprodução e respostas fisiológicas dos animais ao ambiente; armadilhas fotográficas instaladas em locais estratégicos, algumas com tecnologia 4G que enviam imagens em tempo real para avaliação de interações sociais e comportamento; drones utilizados para ampliar o campo de visão em áreas de difícil acesso; além do canal oficial de WhatsApp Ciência Cidadã, criado para que a comunidade participe ativamente compartilhando avistamentos e relatos, e o website www.lobosdeiracema.com.
Resultados e Achados Relevantes
Até o momento, o projeto já catalogou 17 indivíduos na região. Um dos destaques é o registro de uma família composta por cinco indivíduos, um casal e filhotes de ninhadas consecutivas de 2024 e 2025, evidência direta de reprodução bem-sucedida e uso contínuo da área ao longo de pelo menos duas gerações.
A pesquisadora Mariana Suzanne de Oliveira Mendes Silva, do Projeto Lobos de Iracema, destaca que os registros obtidos até o momento mostram que a conservação dos remanescentes de vegetação nativa presentes na paisagem tem papel fundamental para diversas espécies além do lobo-guará. “Esses dados indicam que a matriz agrícola da São Martinho, associada aos remanescentes de vegetação nativa, funciona além de uma área de passagem, atuando também como ambiente de reprodução e uso contínuo por diferentes espécies, como onça-parda, veado-catingueiro, gato-do-mato-do-sul, tamanduá mirim e mocho-diabo” destaca.
O pesquisador Volmir Forte Daros complementa que “a presença de espécies sensíveis a alterações ambientais e de espécies ameaçadas de extinção reforça a relevância ecológica da área monitorada”.
Por isso, o monitoramento contínuo é essencial para identificar áreas prioritárias, transformar os dados obtidos em ações práticas de conservação como a implementação de corredores ecológicos e passagens de fauna subterrâneas para reduzir o risco de atropelamentos, e fortalecer a coexistência entre produção agrícola e biodiversidade.
O projeto também foca em ações educativas junto à comunidade para evitar que a interação humana (como a oferta de alimento) altere o comportamento natural dos lobos.
De acordo com André Tebaldi, assessor de Meio Ambiente da São Martinho, a companhia atua como a principal habilitadora da pesquisa. A empresa liberou o acesso sistemático às suas áreas para monitoramento e fornece suporte logístico essencial para os deslocamentos da equipe e infraestrutura de apoio para os pesquisadores. “Esta colaboração permite que a companhia aprenda com a ciência e ajuste sua operação para garantir um ambiente seguro e funcional para a fauna”, reforça André Tebaldi
Um Ecossistema de Preservação
O Projeto Lobos de Iracema se soma ao histórico pioneiro de sustentabilidade da São Martinho. Desde o ano 2000, a companhia mantém ativo o Projeto Viva Natureza, que já restaurou mais de 2.580 hectares de vegetação nativa com o plantio de 4,3 milhões de mudas.
Essa base ambiental fortalece as ações de monitoramento da fauna na região. Na safra 2024/2025, o projeto de monitoramento da companhia identificou 578 animais de 67 espécies diferentes em suas unidades, por meio de avistamentos e registros fotográficos. Esse levantamento vem sendo ampliado pelo Projeto Lobos de Iracema, que já catalogou mais de 150 espécies desde o início de suas atividades, contribuindo para uma compreensão mais detalhada da biodiversidade presente na paisagem monitorada.



