Projeto prevê investimento entre US$ 220 milhões e US$ 280 milhões para produção de combustível sustentável de aviação (SAF) por meio da rota Alcohol-to-Jet (ATJ), utilizando etanol de cana como principal matéria-prima
A AYBA Green Energy anunciou o desenvolvimento de uma biorrefinaria dedicada à produção de combustível sustentável de aviação (SAF) em Campos dos Goytacazes (RJ). O projeto utilizará a rota tecnológica Alcohol-to-Jet (ATJ), tendo o etanol de cana-de-açúcar como principal matéria-prima, e prevê investimento entre US$ 220 milhões e US$ 280 milhões. A unidade será instalada em uma área de 200 mil metros quadrados, a cerca de 30 quilômetros do Porto do Açu, com capacidade prevista para produzir entre 150 mil e 200 mil toneladas de SAF por ano.
Segundo a empresa, o projeto foi concebido em um cenário de mudanças no mercado global de energia, marcado pelos impactos de conflitos geopolíticos sobre o fornecimento de combustíveis fósseis para a aviação. A sucessão de crises internacionais evidenciou, de acordo com a AYBA, a necessidade de alternativas renováveis e menos dependentes das cadeias tradicionais de suprimento de querosene de aviação.
Nesse contexto, a companhia afirma que a implantação da biorrefinaria no Norte Fluminense posiciona o Brasil como fornecedor de combustível sustentável para mercados internacionais, aproveitando a disponibilidade de etanol de cana, a infraestrutura logística da região e a proximidade com o Porto do Açu, que possui acesso às principais rotas marítimas para Europa, Estados Unidos e Ásia.
Etanol de cana será a matéria-prima da rota ATJ
Diferentemente de grande parte das biorrefinarias em operação no mundo, que utilizam a rota HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids), baseada em óleos vegetais e gorduras animais, a AYBA optou pela rota tecnológica Alcohol-to-Jet (ATJ), que utiliza álcoois como matéria-prima para a produção de combustível sustentável de aviação.
No projeto, o principal insumo será o etanol proveniente da cadeia sucroenergética de Campos dos Goytacazes, região com tradição de aproximadamente 150 anos na produção de cana-de-açúcar, açúcar, etanol e bioenergia.
Segundo a empresa, a escolha do etanol está relacionada à ampla disponibilidade da matéria-prima no Brasil, segundo maior produtor mundial do biocombustível, com produção superior a 30 bilhões de litros por ano. A companhia destaca ainda que o etanol de cana brasileiro apresenta baixa pegada de carbono, elevada eficiência energética e redução das emissões de gases de efeito estufa, características reconhecidas internacionalmente.
Outro fator apontado é a independência em relação às oscilações do mercado internacional de petróleo. De acordo com a AYBA, a utilização de etanol produzido no país reduz a exposição da cadeia produtiva às tensões geopolíticas que afetam o fornecimento de combustíveis fósseis.
Além disso, o projeto aproveitará a infraestrutura já existente na região, incluindo rodovias, ferrovias, dutos e mão de obra especializada, reduzindo a necessidade de implantação de novas estruturas logísticas.
Como funciona a rota Alcohol-to-Jet
A rota Alcohol-to-Jet (ATJ) é uma das tecnologias certificadas pela ASTM International para produção de combustível sustentável de aviação, ao lado das rotas HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids) e Fischer-Tropsch (FT).
O processo consiste inicialmente na desidratação do etanol para obtenção de etileno. Em seguida ocorre a oligomerização, etapa em que o etileno é convertido em hidrocarbonetos de cadeia longa, entre C8 e C16. Na sequência é realizada a hidrogenação, responsável pela saturação das olefinas e formação de parafinas. O processo é concluído com a destilação e purificação da fração destinada ao combustível sustentável de aviação, em conformidade com a especificação ASTM D7566.
Segundo a empresa, uma das vantagens da tecnologia é a utilização de etanol de cana-de-açúcar, matéria-prima abundante no Brasil e com baixa intensidade de carbono. A rota também pode ser adaptada para diferentes álcoois, como etanol, butanol e metanol.
Outro diferencial destacado é a produção de um combustível com alta pureza e baixo teor de compostos aromáticos, além da possibilidade de utilizar resíduos da própria cadeia sucroenergética, como bagaço e palha da cana, para geração da energia necessária ao processo industrial.
A AYBA também destaca que a tecnologia apresenta potencial de expansão em escala comercial, citando a existência de plantas em operação nos Estados Unidos.
Tradição sucroenergética fortalece o projeto
A escolha de Campos dos Goytacazes levou em consideração a tradição sucroenergética da região. Segundo a empresa, o município integra o mais antigo polo sucroalcooleiro do Estado do Rio de Janeiro, reunindo aproximadamente 150 anos de experiência no cultivo de cana-de-açúcar e na produção de açúcar, etanol e bioeletricidade.
Essa estrutura, segundo a companhia, oferece condições favoráveis para implantação da biorrefinaria, com disponibilidade de etanol de cana, bagaço, palha e outros resíduos industriais, além de infraestrutura logística consolidada e profissionais especializados no setor.
A empresa também destaca a possibilidade de integração com usinas da região para fornecimento de vapor e energia elétrica produzida a partir de biomassa.
“Não estamos começando do zero. Estamos instalando uma biorrefinaria de SAF no coração de uma das mais importantes regiões bioenergéticas do Brasil. O solo, a estrada e o conhecimento já estão lá há 150 anos. Nós damos o próximo passo: voar com o que a terra produz — e, dessa vez, com a segurança de que nenhum embargo geopolítico vai parar nossos aviões. O etanol brasileiro, transformado em SAF pela rota ATJ, é a resposta que o mundo esperava”, afirma João Roberto, CEO da AYBA Green Energy.

SAF como alternativa para a aviação
Segundo a empresa, o combustível sustentável de aviação é considerado uma das principais alternativas para reduzir as emissões de carbono do transporte aéreo e contribuir para que o setor alcance a meta de emissões líquidas zero até 2050.
O SAF pode ser utilizado nas aeronaves atualmente em operação sem necessidade de modificações e, de acordo com a AYBA, proporciona redução de até 80% das emissões em comparação ao querosene de aviação de origem fóssil.
A companhia ressalta que a rota ATJ apresenta a vantagem de utilizar etanol de cana-de-açúcar, reduzindo a dependência de óleos vegetais empregados em outras rotas tecnológicas e evitando a competição direta com cadeias destinadas à produção de alimentos.
Porto do Açu amplia potencial de exportação
Outro fator considerado estratégico para o empreendimento é a localização da futura biorrefinaria a cerca de 30 quilômetros do Porto do Açu.
Segundo a AYBA, essa proximidade permitirá redução dos custos de exportação em comparação com outros polos brasileiros, além de acesso a navios de grande porte para abastecimento de mercados internacionais.
A empresa destaca ainda que o porto conta com Zona de Processamento de Exportação (ZPE), oferecendo incentivos fiscais para empreendimentos ligados aos biocombustíveis, além da integração com a malha ferroviária e com os dutos existentes na região, facilitando o escoamento da produção.
Oriente Médio está entre os mercados em negociação
A AYBA informou que mantém conversas com potenciais compradores no Oriente Médio, incluindo companhias aéreas dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita interessadas em adquirir SAF para cumprir metas de descarbonização da aviação.
Segundo a empresa, a demanda por combustível sustentável cresce em regiões que historicamente dependem do petróleo, mas que atualmente buscam alternativas para reduzir as emissões do setor aéreo.
“A Emirates, a Etihad e a Riyadh Air não conseguem atingir suas metas de redução de carbono sem SAF. E hoje praticamente não existe SAF produzido no Golfo. A AYBA pode atender essa demanda com etanol de cana brasileiro – renovável, competitivo e com logística direta pelo Porto do Açu. É a resposta brasileira para um problema que a Europa, os EUA e a Ásia já descobriram que não podem resolver sozinhos: depender de combustíveis fósseis em um mundo instável”, afirma a empresa.
Estruturação do empreendimento
A AYBA informou que o projeto encontra-se na fase de estruturação de capital e de engenharia conceitual. Nesse momento, a empresa busca co-investidores, entre eles family offices, fundos de infraestrutura verde e empresas do setor de energia, além de parceiros para operações de project finance junto a bancos de desenvolvimento e instituições financeiras com foco em investimentos ESG.
A companhia também negocia contratos de longo prazo com compradores estratégicos para a futura produção de combustível sustentável de aviação.
O investimento estimado varia entre US$ 220 milhões e US$ 280 milhões. A expectativa é que a unidade produza entre 150 mil e 200 mil toneladas de SAF por ano e gere centenas de empregos diretos e indiretos no Norte Fluminense.



