Saída do presidente do Conselho Deliberativo e da Diretoria Executiva foi formalizada em 6 de janeiro; decisões foram comunicadas por meio de cartas aos produtores e associações
A Orplana iniciou o ano de 2026 sob um processo de reorganização institucional após a renúncia do presidente do Conselho Deliberativo e da Diretoria Executiva, formalizadas no dia 06 de janeiro. As decisões foram comunicadas por meio de documentos oficiais encaminhados aos produtores, às associações e ao Conselho Deliberativo, nos quais são apresentados posicionamentos sobre a condução da entidade e sua atuação no âmbito do Consecana-SP.
Em carta aberta enviada aos produtores de cana e associados, o então presidente do Conselho Deliberativo, Gustavo Rattes de Castro, comunicou sua renúncia ao cargo e expôs os fundamentos que embasaram a decisão. No documento, ele registra que, ao longo do período em que esteve à frente do Conselho, colocou-se à disposição para lidar com os desafios da gestão institucional, especialmente aqueles relacionados ao Consecana.
“Ao longo do período em que estive à frente do Conselho Deliberativo da Orplana, sempre a convite das associações, coloquei-me integralmente à disposição para enfrentar os mais diversos desafios da gestão institucional — em especial aqueles relacionados ao Consecana.”
Na carta, Gustavo Rattes aponta que as discussões no Consecana partiram da avaliação de que os produtores historicamente ocupavam uma posição secundária no sistema. “Os produtores ocupavam historicamente um papel secundário no ambiente do Consecana-SP, submetidos a retóricas predominantemente voltadas às usinas, sem que seus direitos fossem plenamente reconhecidos ou respeitados.”
Ele relata que o processo exigiu tempo, aprofundamento técnico e elevado grau de responsabilidade e que, diante desse contexto, a Orplana passou a adotar uma atuação mais direta e estruturada. “Diversos temas que antes sequer eram discutidos passaram a ser enfrentados, e pautas relevantes foram travadas justamente para resguardar os interesses dos produtores de cana.”
Segundo o texto, essa atuação passou a coexistir com interesses já consolidados no setor. “Esse movimento, inevitavelmente, colidiu com interesses consolidados das usinas.”
Reação da indústria e condução institucional
Na carta, Gustavo Rattes registra que, quando os produtores passaram a adotar estratégias historicamente utilizadas pelas usinas, houve reação por parte da indústria. “O que para as usinas sempre foi prática comum passou a ser tratado como afronta quando adotado pelos produtores.”
No documento, ele também afirma que não seria possível avançar em arranjos que não garantissem adequada remuneração aos produtores. “Não seria plausível, nem aceitável, compactuar com qualquer arranjo que não assegurasse a melhor forma de remuneração para todos os produtores.”
Ao tratar do prolongamento das discussões, o ex-presidente aponta que o processo não se estendeu por responsabilidade da Orplana. “É fundamental registrar que o processo não se estendeu por responsabilidade da Orplana, mas pela resistência sistemática das indústrias, que se posicionaram contra os produtores, sem transparência e, em muitos momentos, de forma lacônica e intempestiva.”
Fragilização interna e decisão pela renúncia
Na sequência do documento, Gustavo Rattes relata que o processo foi longo e que, ao longo do tempo, observou-se uma fragilização das posições inicialmente defendidas.
“Observou-se uma gradativa fragilização das posições originalmente defendidas. Pressões externas passaram a influenciar de forma direta as decisões, comprometendo a firmeza e a coerência necessárias para sustentar os interesses do produtor até o fim.”
Ele afirma ainda que, durante todo o período, manteve-se alinhado à defesa do produtor.
“Sempre defendi que ele é a base deste sistema — quem assume riscos, sustenta a atividade e sofre diretamente os efeitos de decisões mal conduzidas.”
Ao justificar a saída do cargo, Gustavo Rattes afirma que faltaram condições para sustentar determinadas posições em momentos decisivos. Segundo a carta, a permanência no cargo nessas circunstâncias implicaria assumir responsabilidades sem os meios necessários.
“Tornou-se evidente a ausência de apoio político, institucional e estrutural suficiente para que eu pudesse continuar exercendo a Presidência com a autoridade e a estabilidade necessárias.”
Ao final do documento, ele define a renúncia como coerente com os princípios que nortearam sua atuação.
“Minha renúncia é, portanto, um ato de coerência com os princípios que sempre nortearam minha atuação: ética, transparência, governança e defesa intransigente do produtor.”
Renúncia coletiva da Diretoria Executiva
No mesmo dia, a Orplana também comunicou a renúncia conjunta e irrevogável da Diretoria Executiva, em carta encaminhada ao Conselho Deliberativo e aos presidentes de associações. O documento é assinado por Gustavo Rattes de Castro, Bruno Rangel Geraldo Martins e Bruno Garcia Moreira.
Na carta, a Diretoria afirma que sua atuação esteve pautada pelas deliberações do Conselho, pelas boas práticas de governança e pela defesa dos interesses dos produtores.
“Pautamos nossas decisões pelo respeito às deliberações do Conselho, pela observância das boas práticas de governança e, sobretudo, pela defesa permanente e intransigente dos interesses dos produtores de cana do Brasil.”
Segundo o texto, a adoção de deliberações divergentes da conduta institucional até então praticada indicou uma mudança de direcionamento. A Diretoria afirma que, associadas a pressões externas, essas decisões comprometeram a coesão necessária para a continuidade da gestão. Diante desse contexto, a renúncia coletiva é apresentada como alternativa institucional.
“Avaliamos que a renúncia coletiva da Diretoria se apresenta como alternativa responsável para preservar a institucionalidade, a credibilidade e a história da entidade.”
Assembleia geral extraordinária
Após as renúncias, a Orplana publicou edital de convocação de Assembleia Geral Extraordinária, marcada para o dia 06 de fevereiro de 2026, em Ribeirão Preto (SP). Entre os itens da ordem do dia estão a alteração do estatuto social, com permissão para apenas uma reeleição, e a eleição de novos membros da Diretoria Executiva, com mandato até março de 2028.
O edital informa que a assembleia deliberará, em primeira convocação, com a presença da maioria absoluta das associações filiadas ou, em segunda e última convocação, com qualquer número de associadas em pleno gozo de seus direitos estatutários. Atualmente, a Orplana conta com 35 associações filiadas.
Natália Cherubin para RPAnews