Como deverá fechar o ATR até o final da safra 2020/21?

Natália Cherubin

A safra 2020/21 de cana-de-açúcar começou em meio a um cenário desesperador com a queda de preço e demanda pelo etanol. Em meio a isso, a grande preocupação dos fornecedores de cana era em quanto o ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) poderia cair ao longo da safra. Seria um ATR menor do que a safra anterior, que fechou em R$0,65?

Meses antes do início da safra 2020/21 o setor, bastante otimista, previa um ATR em torno de R$ 0,72/kg, seria um dos maiores valores em quase 20 anos. No entanto, do dia para noite, o fornecedor viu cair em quase 16% esse valor.

Chegou-se a pensar que chegaria ao patamar da safra 2018/19, a R$ 0,58. O Rabobank previu R$ 0,60 em abril e o Pecege fechou em meados de maio com R$ 0,6242 kg.

No mês de junho o preço médio do kg de ATR fechou em 0,6765 kg com um acumulado de 0,6834. Paulo Roberto Artioli, produtor de cana da Tecnocana, localizada na região de Lençóis Paulista, SP, disse que fica apreensivo com relação a queda apresentada em junho.

“Achei que o ATR iria cair assim mais para o mês de agosto. Não esperava que iria cair a esse patamar já em junho. Se continuar desse jeito, não vamos fechar nos números que estávamos esperando. Precisamos fechar, no mínimo, entre R$ 0,65 e R$ 0,68. Mas vamos torcer para que isso aconteça”, disse à RPAnews.

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O Pecege, que previu R$ 0,6242 como o valor do ATR até o final do ciclo 2020/21, ajustou o número para 0,6372.

“A ligeira recuperação, de acordo com o economista, vem do etanol. Os preços do etanol estão atualmente bastante atrativos, se comparados as mesmas semanas do mesmo período de 2019”, afirma Haroldo Torres, economista e Gestor de Projetos do Pecege.

O ATR fechando em 0,6372, se comparado com R$ 0,65 do ano passado, significa uma ligeira queda, de acordo com o economista.

“Por outro lado, se eu fizer uma ATR médio ponderado do açúcar, ou seja, se uma usina pagasse só açúcar branco, VHP e branco mercado interno, seria um ATR 0,7076, enquanto do etanol 0,5656 ou seja, veja que a grande geração de valor vem do açúcar. A média 0,7076 do açúcar e o câmbio que trouxeram esses resultados bastante positivos nos primeiros meses”, explica Torres.

O produtor de cana e diretor do Condomínio Agrícola Santa Izabel, Paulo de Araújo Rodrigues, acredita que o ano deverá fechar em R$ 0,68.

“No início levamos um balde de água fria, mas logo que a safra correu, percebemos que seria diferente. Primeiro porque o consumo e preço do etanol não caíram tanto quanto se imaginava, segundo porque o câmbio, também por conta da Covid-19, subiu demais e isso fez com que mudasse a relação dos preços de açúcar que já estavam fixados e internalizavam um açúcar muito mais caro. Logo em seguida, a gente já começou em falar em R$ 0,62, tanto que em meus orçamentos e fluxos de caixa já levamos em consideração R$ 0,6290 kg, que era a previsão da Socicana para essa fase. Em 20 dias o valor despencou e se recuperou”, relembra Rodrigues.

Com o andamento da safra, que começou muito acima do que Rodrigues imaginava, com um dólar puxando bastante, venda de açúcar correndo firme e com a expectativa de redução de oferta de etanol, houve um equilíbrio dos preços, melhorando a projeção do ATR também.

“A previsão da Socicana é R$ 0,68 kg até o final da safra. Então voltamos ao número que não era o do início da safra, mas deverá ser melhor do que a safra anterior”, afirma Rodrigues, que espera uma quebra na produção em torno de 5%.

“A seca de março, abril e maio foi muito severa. O déficit hídrico da região onde estamos vem ocorrendo desde março, sendo assim, acredito que poderemos ter uma quebra”, disse.

Luiz Odilon, produtor de cana da região de Jardinópolis, SP, em função de alguns fatores, também acredita em um ATR bem próximo ao do ano passado.

“Teremos algo perto de 0,67 a 0,68. Além do mais, é possível que tenhamos uma quebra de até 15% na produtividade, de acordo com alguns consultores. Talvez tenhamos uma compensação devido ao fato do ATR da cana estar rico.”

O economista e gestor de Projetos do Pecege acredita que o fundo do poço ficou para trás. “Abril foi o mês efetivamente do pico da pandemia, de queda drástica no consumo de etanol e ainda trazendo uma redução nos preços do etanol, em função do que observamos, principalmente devido ao conflito entre Russia e Arábia Saudita. Portanto agora, o cenário já e muito positivo para as usinas e o preço do ATR está refletindo esse cenário”, concluiu o economista.