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Setor deve entrar na safra 2027/28 ainda sob pressão, avalia RPA

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A safra 2026/27 deve entregar maior volume de cana no Centro-Sul, mas nem por isso um resultado mais confortável para as usinas. O clima mais úmido tem sustentado a produtividade agrícola, ao mesmo tempo em que atrasa a moagem e prejudica o Açúcar Total Recuperável (ATR), em um cenário no qual os preços do açúcar e do etanol ainda pressionam a rentabilidade.

Para Ricardo Pinto, CEO da RPA Consultoria, e Thiago Santos, sócio e consultor da empresa, esse ambiente deve manter as unidades sob forte controle de custos e investimentos, com poucas chances de uma melhora mais consistente antes do avanço da safra 2027/28.

Durante entrevista ao DaCanaCast, gravada na Fenasucro & Agrocana 2026, os consultores apontaram que a próxima temporada pode trazer alguns elementos de alívio, entre eles menor pressão inflacionária sobre os custos e uma possível redução da oferta de cana, dependendo do comportamento climático. Ainda assim, a avaliação é de que o setor deverá entrar em 2027/28 mantendo uma postura mais restritiva na elaboração dos orçamentos.

Na safra atual, segundo Santos, a maioria dos grupos acompanhados pela RPA vem relatando produtividades agrícolas entre 7% e 10% superiores às registradas no ciclo passado. O desempenho é atribuído principalmente às condições climáticas mais favoráveis ao desenvolvimento da cana.

Por outro lado, o maior volume de chuvas tem reduzido os dias efetivos de moagem e prejudicado a concentração de açúcar na matéria-prima. “Apesar da produção maior, muito provavelmente a produção de açúcar por hectare ainda vai ser menor do que o previsto inicialmente”, afirmou Santos.

Para o consultor, a safra reúne, portanto, dois desafios simultâneos: o cenário de preços, que já vinha pressionando o setor desde o início do ano, e as condições climáticas, que favorecem o volume de cana, mas atrasam a moagem e reduzem o ATR.

Risco de cana bisada aumenta

A combinação entre maior produtividade agrícola e menor número de dias efetivos de moagem também começa a elevar o risco de sobra de cana no campo ao final da temporada.

Segundo Pinto, entre as usinas com as quais a RPA mantém contato, cerca de 30% a 40% apontam algum risco de encerrar a safra com cana bisada caso as condições operacionais continuem limitadas nos próximos meses.

O impacto desse volume sobre a próxima temporada dependerá, principalmente, do planejamento feito pelas unidades. Santos explica que, quando a escolha das áreas que permanecerão no campo é realizada antecipadamente, considerando localização, variedade e qualidade da matéria-prima, a cana bisada pode inclusive ser utilizada para antecipar o início da moagem da safra seguinte.

“Quem planeja bem essa cana bisada, eu acredito que é uma cana boa, principalmente para o início da próxima safra, talvez até para antecipar um pouco a safra”, afirmou.

O problema, segundo ele, ocorre quando a sobra de matéria-prima não é planejada e resulta apenas da impossibilidade de concluir a colheita. “Geralmente ninguém aposta muito nisso. O povo vai moendo, aí chove numa região, muda a frente para outra e, no fim das contas, o que a gente chama de ‘morte súbita’: acaba a safra e sobra a cana que sobrar.”

Nesse caso, a unidade pode iniciar o próximo ciclo com uma matéria-prima de qualidade inferior e sem conseguir capturar todo o retorno dos investimentos realizados no canavial.

Pinto lembrou ainda que o ano-safra 2026/27 termina oficialmente em 31 de março de 2027. Assim, a cana bisada processada antes dessa data ainda será contabilizada na safra atual. Caso a moagem ocorra a partir de abril, o volume passa a fazer parte das estatísticas da temporada 2027/28.

Preços ainda não indicam mudança de cenário

Apesar da reação recente das cotações do açúcar no mercado internacional, a RPA ainda não vê uma mudança estrutural no ambiente enfrentado pelas usinas. Santos destacou que o açúcar chegou a avançar mais de 120 a 130 pontos em poucos dias, após sair da faixa de 14 centavos de dólar por libra-peso para pouco mais de 16 centavos.

A recuperação trouxe algum alívio, mas, segundo ele, os preços permanecem próximos ou até abaixo dos custos de produção de parte do setor. “O setor teve um alívio, um alívio para começar a ver algum tipo de reação, mas a crise ou os preços ainda não estão resolvidos.”

Na avaliação do consultor, dificilmente haverá uma recuperação expressiva ainda durante a safra atual. “Na nossa visão, antes de julho, agosto da próxima safra, dificilmente a gente vai ter grandes melhorias no cenário atual”, afirmou.

Além do açúcar, a maior disponibilidade de etanol também contribui para um mercado mais pressionado. A expansão do etanol de milho adicionou novos volumes à oferta brasileira em um período no qual o biocombustível de cana também enfrenta preços baixos.

Para Pinto, a recuperação pontual das cotações ainda não é suficiente para alterar a forma como as usinas devem preparar seus próximos orçamentos.“O ambiente não mudou por causa dessa melhora pontual de preços. Tomara que ela continue acontecendo, mas, mesmo assim, a resposta para o dia a dia das usinas a gente ainda não enxerga acontecendo agora.”

Segundo ele, as unidades devem iniciar a safra 2027/28 ainda em um regime mais restritivo de gastos e investimentos.

Custos e eficiência entram no centro do orçamento

Em um ambiente no qual preços, câmbio e clima não estão sob controle das empresas, Santos afirma que as usinas precisam concentrar esforços nas variáveis que podem efetivamente administrar.

“O setor fica muito preocupado com aquilo que não está no controle e não olha para aquilo que está no controle. A gente vê o setor discutindo melhoria de preço, clima, câmbio, mas não volta para dentro de casa e trabalha na única coisa que está no controle do setor, que são seus custos de produção e suas eficiências.”

Para a montagem do orçamento da safra 2027/28, a orientação da RPA é partir de um custo-alvo e, a partir dele, avaliar quais despesas são compatíveis com a realidade atual do mercado.

Santos cita como exemplo uma unidade que estabeleça um custo de produção de 15 centavos de dólar por libra-peso. A partir desse patamar, a gestão deve analisar quais despesas incorporadas durante períodos de preços mais elevados precisam ser revistas.

Segundo ele, estruturas que eram suportadas com açúcar negociado a 22, 23 ou 24 centavos de dólar por libra-peso podem não fazer mais sentido no cenário atual.

A análise pode envolver tratos culturais, investimentos em plantio, estruturas de mão de obra e outras despesas incorporadas pelas unidades nos últimos anos.

Pinto ressalta, porém, que uma gestão de custos eficiente não significa realizar cortes indiscriminados. “Não dá para simplesmente sair cortando, senão você fica cortando cafezinho, cortando pelo em ovo e não atinge o objetivo. Fica aquela gestão ‘me engana que eu gosto’.”

Para ele, o momento exige uma volta aos fundamentos da operação, com avaliação conjunta entre as áreas técnicas e a alta gestão sobre o que pode ser reduzido, adiado ou eliminado sem comprometer a capacidade produtiva da empresa. “A questão é chegar vivo e bem para conseguir ganhar dinheiro na fase boa que vai existir. Não sabemos exatamente quando, mas sabemos que vai existir”, afirmou.

Clima pode reduzir produtividade em 2027/28

Além dos preços e dos custos, o comportamento climático aparece como uma das principais incertezas para a próxima safra.

Segundo Santos, anos com características associadas ao El Niño costumam apresentar condições mais úmidas durante parte da safra no Centro-Sul, favorecendo o volume de cana, mas podem trazer menor disponibilidade de chuvas em novembro e dezembro, período importante para a formação da produtividade do ciclo seguinte.

O consultor ressalta que o impacto dependerá da intensidade do fenômeno e de como as chuvas irão se distribuir nos próximos meses.

Além disso, uma safra atual prolongada pelas chuvas pode trazer efeitos adicionais para os canaviais da temporada seguinte, especialmente nas áreas colhidas mais tarde.

“Em anos de muita produção, o pessoal anima. A cana deu 95, a cana deu 98 toneladas por hectare, a usina fechou com um TCH muito alto. Só que esquece que forçou para tirar cana, estragou cana, colheu cana com idade superior. E tudo isso a consequência virá na próxima safra”, afirmou Santos.

Pinto também observa que grande parte do desenvolvimento da cana do Centro-Sul ocorre durante o verão quente e chuvoso. Caso esse período seja mais quente e seco, a disponibilidade de matéria-prima pode diminuir em 2027/28.

“Mesmo que seja intermediariamente forte, provavelmente vamos ter menos cana na safra que vem”, afirmou.

Para o executivo, uma redução da oferta de matéria-prima poderia contribuir para diminuir parte da pressão observada atualmente sobre o mercado. “São os fatores que vão construindo uma safra que vem menos pior do que essa. É o que a gente acredita.”

Custos podem ser ponto favorável na próxima safra

Entre os diferentes fatores analisados para 2027/28, os custos são o ponto no qual os consultores demonstram maior otimismo.

Santos avalia que parte das pressões registradas na atual temporada já começa a perder força. Os preços do petróleo e do diesel tiveram forte alta ao longo do ciclo, enquanto os fertilizantes também passaram por valorização, mas alguns desses movimentos vêm sendo revertidos.

“Em termos de gasto, em termos de desembolso, eu acho que vai ficar muito parecido”, afirmou.

Pinto acrescenta que o custo da terra também tende a perder peso. Como contratos de arrendamento e parceria agrícola possuem relação com o preço do ATR, a queda no valor da matéria-prima deve se refletir sobre essa despesa.

Outro fator é o enfraquecimento simultâneo de diferentes cadeias agrícolas no Centro-Sul, o que reduz a pressão sobre terras, insumos, máquinas e outros recursos utilizados pelo setor.

“Devemos ter uma entrada de 2027/28 com uma inflação de custos sob controle para o nosso segmento de cana”, afirmou Pinto.

“Se tem uma coisa que eu acho que a gente começa otimista para a próxima safra é a questão de custos.”

Foco no agrícola diferencia grupos durante a crise

Para os consultores, as empresas que atravessam o atual ciclo em melhores condições têm algumas características em comum, principalmente o foco na produção agrícola e a preservação do caixa.

Segundo Santos, entre 75% e 80% dos custos das unidades estão concentrados na área agrícola, tornando a eficiência na produção de cana um dos principais diferenciais durante períodos de margens reduzidas.

Os grupos mais preparados, segundo ele, são aqueles que aproveitaram os últimos anos de melhores resultados para manter os canaviais em boas condições, melhorar a operação industrial e reinvestir na própria atividade sem comprometer a estrutura financeira.

“Pessoas, grupos que continuaram investindo em cana, continuaram investindo em sua produção, aproveitaram a bonança dos últimos anos para colocar a casa em ordem, deixar os seus canaviais em ordem, sua planta industrial produzindo e reinvestiram isso dentro das suas unidades sem fazer nenhuma loucura e mantiveram um caixa para enfrentar esse momento”, afirmou Santos.

Pinto também destaca a importância de integrar as decisões técnicas e econômicas, especialmente em momentos de crise.

“Existe uma tendência, como sempre existiu, de separar o econômico do técnico e, nos momentos de crise, essa separação é terrível. Não existe o técnico separado do econômico.”

Para ele, orçamento e fluxo de caixa precisam ser utilizados como instrumentos efetivos de gestão, e não apenas como ferramentas burocráticas. Na avaliação do executivo, cerca de 20% a 25% dos grupos devem conseguir atravessar a atual safra em boas condições.

“Não adianta passar da crise, sobreviver totalmente enfraquecido, quebrado, na UTI. Porque isso é um prolongamento do fim da empresa. Então, precisa passar pela crise com saúde”, concluiu Pinto.

Acesse a entrevista completa com Ricardo Pinto e Thiago Santos está disponível no DaCanaCast, podcast da RPAnews, no YouTube e no Spotify:

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