Tecnologia Agrícola – Variedade super produtiva

Um novo clone RB, que tem apresentado mais de 300 t/ha em áreas experimentais, poderá ser uma boa opção para canaviais do Centro-Sul

Natália Cherubin

Ficha técnica

CLONE RB127825

Variedades genitoras

CTC 14 X RB867515 (Cruzamento bi parental realizado na Serra do Ouro, AL, coordenado pela Universidade Federal de Alagoas)

Ambientes de produção – A a D

Maturação – média/tardia

Produtividade (1º corte – áreas experimentais Centro-Sul) – 270 a 302 t/ha

Bom perfilhamento

Não apresenta chochamento e nem florescimento

Com o uso cada vez mais intenso das redes sociais e principalmente WhatsApp, tem ficado cada dia mais difícil “segurar” informações, principalmente se o assunto é de interesse do público. No setor sucroenergético não tem sido diferente. Testes com novas tecnologias e protótipos de máquinas são compartilhados todos os dias em grupos fechados do setor. Em junho, um dos assuntos discutidos foi uma variedade de cana-de-açúcar que estaria atingido mais de 300 t/ha em áreas experimentais.

Quem trabalha com o planejamento de variedades talvez já tenha ouvido falar ou já tenha áreas de teste com o clone RB127825 que, apesar de ainda nem ter sido liberada comercialmente, tem feito bastante sucesso e gerado discussões porque seus resultados preliminares tem demonstrado grande potencial produtivo.

Só para se ter uma ideia, atualmente as variedades RBs, desenvolvidas pela da Ridesa (Rede Interuniversitária para Desenvolvimento do Setor Sucroenergético), correspondem por cerca de 63% da área canavieira do país. Em alguns estados produtores como Paraná e Alagoas este percentual chega a 85% da área cultivada.

Segundo o doutor em Produção Vegetal e pesquisador da Universidade Federal de Viçosa, que faz parte da Ridesa, Luís Cláudio Inácio da Silveira, o alto índice de variedades RBs nos canaviais brasileiros está relacionado à boa performance e a distribuição geográfica das Universidades Federais que desenvolvem novos materiais.

“Temos a possibilidade de observar os clones potências das IFEs através de intercambio anual, em condições edafoclimáticas diferenciadas e em menor tempo, o que permite avaliar doenças, produtividade e respostas a ambientes de produção, o que permite um melhor ajuste do manejo para futura liberação.”

produtividade

A RB127825, ainda em fase experimental, está sendo plantada em regiões semi comerciais em unidades canavieiras de Minas Gerais, Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul.

O novo clone tem como genitores as variedades RB867515 x CTC14, um cruzamento bi parental que foi realizado na Serra do Ouro, AL, coordenado pela Universidade Federal de Alagoas.

O novo clone tem como genitores as variedades RB867515 x CTC14, um cruzamento bi parental que foi coordenado pela Universidade Federal de Alagoas, da Ridesa

Segundo Silveira, o desempenho agrícola e industrial, aliado a boa sanidade, o não florescimento e não “chochamento” são as principais características do novo clone que em testes experimentais ultrapassou a barreira de 300 t/ha. Outro ponto que chama a atenção é a densidade do colmo, que é mantida em todo ciclo desde a cana planta até a soca, com bom perfilhamento.

“Já podemos observar que o clone tem boa produtividade agrícola com maturação média/tardia, sendo que o ganho em ATR a partir de julho é crescente, superando a tradicional RB867515. Não temos ainda resultados com utilização de maturador, mas caso o mesmo seja responsivo, vai ser mais uma boa opção de manejo”, explica o pesquisador da Universidade Federal de Viçosa.

Na região Centro-Sul o novo clone não apresentou florescimento e com bom perfilhamento não causa tombamento em condições normais. “Quanto ao ambiente de produção, estamos observando bons resultados em ambientes de A a D. A RB127825 foi selecionada em campo T1 convencional, em uma área da Usina Agropel, localizada em Minas Gerais, com um ambiente de produção classificado como D”, adiciona o pesquisador.

BIOSEV E BIOAROEIRA TAMBÉM TESTAM O CLONE

Na Biosev, unidade Rio Brilhante, localizada em Mato Grosso do Sul, a nova variedade atingiu 302,77 t/ha no primeiro corte, valor este, segundo o pesquisador da Ridesa, conquistado graças ao bom manejo da área experimental e ao seu potencial produtivo, que vem se apresentando também em outros campos e áreas semicomerciais que são significativas.

Carlos Daniel Berro Filho, diretor Agrícola da Biosev, revelou à RPAnews que a variedade foi implementada em um ambiente de produção C/D, de Latossolo Vermelho Álico muito argiloso, em área de 4% a 6% de declividade.

“Esse clone foi selecionado na Usina Agropel em Pompéu, MG, região de Cerrado, onde se destacou pelo seu vigor em uma região de déficit hídrico alto, não apresentando chochamento. Iniciamos a instalação na unidade Lagoa da Prata em 2017 e obtivemos resultados superiores em relação as demais variedades”, afirma.

Variedade tem sido testada em área experimental na unidade Lagoa da Prata, da Biosev, desde 2017 e rendeu 302,77 t/ha em primeiro corte

 

 

A nova variedade foi plantada em área rotacionada com soja, corrigida por meio de calcário, gesso e fosfato em taxa variável. Segundo o diretor agrícola da unidade da Biosev, no preparo de solo foi feito apenas a subsolagem e o plantio foi realizado de forma manual com aplicação de torta no sulco de plantio e demais insumos padrão Biosev (MAP 11.52.00; bioestimulante, micronutrientes, fungicida e inseticida).

“A variedade recebeu duas lâminas de 40 mm de água e, na operação quebra lombo foi adubado com 10.00.40. No início das águas foi aplicado, via foliar, 9 kg de nitrogênio com micronutrientes e inseticida para controle de broca. O uso de nematicida não foi necessário.”

Segundo o diretor Agrícola da unidade, o bom resultado em TCH se deu por três fatores:

1) Padrão de manejo e pacote de insumos aplicados Biosev;

2) Características particulares do material que foi desenvolvido na Região do Cerrado, de rusticidade e com taxa de alta performance;

3) E planejamento e qualidade nas avaliações e seleção de materiais.

A Bioenergética Aroeira, que tem atingido os três dígitos em seus canaviais nas últimas safras, também vem testando o clone RB127825. Marcos Rodrigues, supervisor Agrícola da unidade, revela que em área experimental de sequeiro, aplicando apenas uma lamina de 20 mm de vinhaça, atingiu 270,89 de TCH.

“Ainda não temos o clone em área comercial, mas temos observado esta cana com grande possibilidade de ser uma média tardia com excelentes resultados. Em nosso manejo priorizamos a colheita dos cortes mais novos no início de safra e, para este clone, deveremos manejar da mesma forma.”

Se essa variedade tem potencial de quase 300 t/ha em um primeiro corte, a expectativa, segundo ele, é de que a variedade dê, no mínimo, 200 t/ha nos cortes seguintes, 33% a menos em TCH.

“Além desse, outros clones também chamaram a muito a atenção como a RB087251 com 240,63 t/ha no primeiro corte na mesma área experimental, e o clone RB087234 que chegou a 231,94 de TCH”, revela Rodrigues.

Com os resultados do bom desempenho alcançado pelo clone RB127825, a tendência é que ele seja liberado oficialmente como variedade entre o final de 2020 e início de 2021, de acordo com o pesquisador da Ridesa.

“No momento, estamos procurando coletar dados experimentais, como também acompanhar esse desempenho em condições edafoclimáticas variáveis, para ajustar as recomendações de manejo, procurando explorar o máximo potencial do novo material.”