Essa talvez seja uma das maiores barreiras culturais quando discutimos novos modelos de gestão no setor sucroenergético.
Durante décadas, a área agrícola foi vista como uma competência que obrigatoriamente deveria estar dentro da estrutura da usina. Afinal, a cana representa a base do negócio. Mas será que manter toda a estrutura internamente é a única forma de garantir eficiência, produtividade e segurança operacional?
Em alguns países, como no Peru, já existem modelos em que a operação agrícola é conduzida por estruturas terceirizadas, com alto nível de profissionalização, governança e foco em resultados.
No próprio Brasil, vimos grupos sucroenergéticos transferirem parte significativa de suas áreas agrícolas para produtores parceiros, reduzindo ativos, simplificando estruturas e buscando maior eficiência. Entretanto, em muitos casos, essa mudança ficou limitada à transferência da operação, sem necessariamente evoluir para um modelo profissionalizado de gestão integrada.
O ponto central não está simplesmente em quem executa a atividade. O diferencial está em estabelecer metas claras, indicadores de desempenho (KPIs), governança estruturada e acompanhamento técnico contínuo.
Uma gestão agrícola eficiente precisa responder diariamente perguntas essenciais:
- A produtividade agrícola está evoluindo de forma sustentável?
- O custo da matéria-prima está competitivo?
- As operações estão atingindo os níveis esperados de eficiência e qualidade?
- A estrutura de máquinas, equipamentos e tecnologia está adequada à realidade operacional?
- O dimensionamento das equipes está alinhado com as melhores práticas do setor?
- Os ativos estão sendo utilizados com máxima eficiência?
- Os processos e indicadores permitem decisões rápidas e baseadas em dados?
- As decisões agrícolas estão conectadas à geração de caixa e à preservação de valor para os acionistas?
A experiência acumulada em diferentes empresas, regiões produtoras e até outros países mostra que não existe um único modelo agrícola vencedor. Existe o modelo mais adequado para cada realidade.
E, muitas vezes, incorporar uma visão externa, formada pela experiência acumulada em diferentes empresas, ambientes produtivos e países, permite acelerar transformações que internamente poderiam levar anos para serem construídas.
O conhecimento adquirido ao longo de diferentes ciclos do setor, modelos de gestão e realidades operacionais traz referências, metodologias e comparativos que ajudam a identificar oportunidades, evitar erros já conhecidos e implementar mudanças com maior velocidade e segurança.
Terceirizar gestão não é perder controle. É substituir controle operacional por governança, indicadores e geração de valor.

*Thiago Barros dos Santos é engenheiro agrônomo e sócio da RPA Consultoria




