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Usinas encurtarão alavancagem graças a efeitos imprevistos

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No ano no qual se caminhava para uma terceira safra mais etanoleira seguida, a pandemia ajudou a parte do setor sucroenergético com poder de fogo no açúcar. O biocombustível caiu no consumo e o risco Brasil explodiu com a crise, desvalorizando o real, o adoçante liderou o mix e virou o jogo a favor da rentabilidade das empresas exportadoras.

As usinas entraram a safra 20/21, em abril, com estimados R$ 110 bilhões em endividamento, nada pouco, mas sairão com alavancagem bem menor, já que o “impacto do câmbio na geração de caixa operacional foi positivo”, diz o consultor Alexandre Figliolino, ex-diretor do Itau BBA, com passagem depois pela MB Agro.

Tecnicamente, os grupos mais endividados em dólares – que para o especialista não são muitos – não tiveram os mesmos benefícios que aqueles com funding em reais. Mas também não perderam, como aconteceria se suas receitas fossem só na moeda brasileira.

Fala-se que do montante devido pelo setor, entre 30% e 40% estejam lastreados na divisa americana. Para o consultor, não deve passar de 20%.

Atualmente também membro de vários conselhos de grupos usineiros, como da Santa Terezinha, e com uma carteira de clientes que inclui Raízen, Figliolino chama a atenção para o resultado da São Martinho (SMTO3) no segundo trimestre da safra 20/21, com lucro líquido de R$ 332 milhões contra R$ 62 milhões do mesmo período do ciclo anterior.

“Claro, teve gestão e produtividade, mas o fator cambial foi fundamental principalmente pelo tamanho do salto”, lembra, acentuando que o real foi um dos campeões em desvalorização, como sempre.

No informe financeiro do tradicional grupo, com quatro unidades, vê-se que a dívida líquida caiu 7,7% no período mencionado, ficando em R$ 2,880 bilhões, como também se reduziu em 26,5% a dívida líquida sobre o Ebitda, este sim um dos principais indicadores de medição da alavancagem.

Desconsiderando as empresas problemáticas, em processo de recuperação judicial, o exemplo da São Martinho mostra como o encurtamento da dívida chegou para a maioria dos grupos exportadores.

Enquanto a demanda global não esteve aquecida, como dizem alguns analistas, com as restrições impostas pelos lockdowns, muito menos havia perspectiva de déficit global, ao contrário do que dizem alguns que insistem nisso – em nenhum momento do ano as telas da bolsa de Nova York refletiram isso -, o surfe do açúcar brasileiro via câmbio não parou.

No acumulado do ano, até outubro, com a safra já praticamente encerrada, o País embarcou 25,4 milhões de toneladas, acima de 70% na relação com 2019.

A safra deve dar 595 milhões/t de cana moída, segundo acredita Alexandre Figliolino, com bom rendimento de TCH (tonelada de cana por hectare), ATR (total de açúcares recuperáveis) beirando os 142 kg/t na média acumulada – impacto positivo pelo tempo seco e quente -, que, juntos com os resultados financeiros alcançados, deverão dar lastro ao ciclo 21/22.

Figliolino e outros, que, como ele, acreditam que as empresas tendem a começar mais cedo e terminar mais cedo as operações, estimam a nova temporada com produção menor de cana, entre 570 e 575 milhões/t, depois de três meses de estiagem em 2020.

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Episódio 23: O etanol de milho pode mudar o futuro das usinas brasileiras?

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