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Açúcar: receita para um mercado explosivo

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Separe um fundo especulativo que ostenta uma robusta posição comprada de quase 250.000 lotes, com um lucro estimado superior a 2 bilhões de dólares e, portanto, sem nenhuma pressa para realizar seus lucros.

Acrescente uma boa dose de usinas do Centro-Sul que há muito estão quase que totalmente fixadas para a safra 2021/22 e não podem aproveitar os sucessivos preços altos do açúcar que NY lhes mostram.

Em seguida junte as casas comerciais que detém uma imensa quantidade de lotes vendidos e temem ser sufocadas pelas constantes chamadas de margem.

Adicione os ajustes de deltas provenientes de operações com opções que estão ficando at-the-money (opções no dinheiro). Coloque tudo em forno alto e pronto, você acabou de criar uma tempestade perfeita.

Agora precisamos criar uma narrativa que dê um sentido fundamentalista a tudo que está acontecendo, pois não é do nosso feitio assistir atônito a um mercado que explode na nossa cara sem que tenhamos uma boa e convincente explicação.

Pode ser o número de moagem da UNICA (como se esse número fosse novidade), ou a constatação de que “realmente” a seca e a geada mataram o canavial. Ou podemos dizer que as estimativas de algumas tradings que apontam para uma moagem perto de 520 milhões de t de cana são a expressão máxima da verdade irrefutável.

E não vamos estragar essa narrativa tão bem construída apontando que as tradings estão pedindo para as usinas atrasarem o embarque, uma clara demonstração de que o mercado físico é fraco. Ou ainda, citar que o spread outubro/março abriu para 52 pontos, que correspondem a um desconto de 6,4% ao ano, sinalizando que seja lá quem for o detentor de açúcar para recebimento em outubro está querendo se livrar desse mico, pois não tem destino para ele nesse momento.

Enquanto isso, a Bolsa de NY aumentou o requisito de margem inicial para US$ 1,344 por contrato, o que em tese, poderia fazer com que os fundos diminuíssem a posição, mas parece-me que o aumento teve zero impacto nas cotações.

Irrefutável é o fato de que o mercado futuro de açúcar em NY assistiu a uma cobertura de posição quase beirando ao pânico, com stops de compra sendo acionados ao longo dos últimos pregões, fazendo com que o vencimento outubro/21 encerrasse a sessão de sexta-feira cotado a 20.10 centavos de dólar por libra-peso, na máxima do dia, o maior preço registrado no açúcar desde o pregão do dia 24 de fevereiro de 2017.

A safra de cana pode ser de 520 milhões de t, mas ao que parece não é ela que está direcionando esse mercado para cima. Medo de não haver disponibilidade de açúcar ao mesmo tempo que spread mostra um carrego faz pouco sentido. Se a justificativa for a próxima safra, ainda assim muita água vai rolar até lá.

A memória de muitos anos em commodities e da vivência de inúmeras situações tornam-nos desconfiados com explosões de preço não devidamente acompanhadas de notícias fresquinhas no campo dos fundamentos. Veja o que aconteceu com o café recentemente: a geada que atingiu os cafezais trouxe pânico no mercado futuro em NY.

Há um mês o café negociava a 150,10 centavos de dólar por libra-peso, duas semanas depois em função da “arrasadora” geada o mercado atingiu 215,20 centavos de dólar por libra-peso uma explosão de 43% que drenou o caixa dos vendidos e trouxe pânico ao mercado. Apenas uma semana depois de atingir o pico, o café batia 171.60 derretendo 20%. Ou seja, o verdadeiro impacto da geada precificado pelo mercado depois da turbulência foi de 20 centavos, mas até aí muita gente morreu no caminho.

Café e cana estão em muitas áreas comuns, ambas afetadas pela seca e pela geada. Dá para acreditar que o impacto na cana foi ou será pior do que no cafezal?

Fui buscar no histórico do açúcar em NY se em algum dado momento no passado o mercado apreciou com a mesma magnitude do mercado de café nessas últimas semanas, isto é, 43% em apenas uma semana (em contratos com mesmo vencimento) e verifiquei o que aconteceu com os preços depois disso.

Ocorre que do ano 2000 para cá o açúcar nunca teve uma variação desse tamanho. O recorde ocorreu em 27 de janeiro de 2006. Naquele dia o contrato março/2006 negociara a 18,61 centavos de dólar por libra-peso, 26,43% acima do fechamento duas semanas antes a 14,72 centavos de dólar por libra-peso.

O vencimento março, no mês seguinte, voltou ao nível de 15,70 centavos de dólar por libra-peso. O mercado de exportação negociava a um incrível desconto de 70 pontos, pior do que o desconto de hoje. Enfim, é sempre bom não se apaixonar pelo mercado porque ele vai te trair mais cedo ou mais tarde. Olho vivo.

 

*Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting

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