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Tecnologia brasileira promete converter motores a diesel para 100% etanol

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Startup desenvolve solução que reduz em até 60% o custo do CTT, aumenta desempenho dos motores e corta 98% das emissões ao substituir totalmente o diesel por etanol

No setor canavieiro, o diesel continua sendo um dos maiores vilões de custo. Em muitas usinas do Centro-Sul, ele representa entre 28% e 34% do CTT — Corte, Transbordo e Transporte — e é responsável por grande parte da pressão sobre margens já apertadas. Diante desse cenário, a possibilidade de abastecer colhedoras, caminhões e tratores com etanol hidratado produzido pela própria usina ganha peso estratégico. E uma startup brasileira afirma ter chegado ao ponto de tornar isso possível.

A E-OXY desenvolveu uma tecnologia capaz de converter motores originalmente a diesel para operar 100% com etanol hidratado, em Ciclo Otto, sem aditivos e sem mistura. Em entrevista ao RPAnews, o sócio-diretor Pedro W. Stefanini explica que a ideia nasceu do desejo de dar ao setor “autonomia energética real”.

“A concepção da tecnologia tem como alicerce o uso inteligente do etanol, buscando eficiência, competitividade e sustentabilidade econômica, social e ambiental. Adaptamos motores diesel para operar 100% com etanol, substituindo o ciclo Diesel tradicional por ignição por centelha controlada eletronicamente.”

Economia, desempenho e redução expressiva de manutenção

Segundo ele, os testes já demonstram efeitos claros sobre o custo operacional. “O diesel representa até um terço do custo logístico. Qualquer redução de 10% no gasto com combustível já diminui entre 2,8% e 3,4% o CTT total. Mas os testes indicam reduções muito maiores: entre 40% e 60% no gasto total de combustível, além de até 60% de economia em manutenção”, afirma.

O motivo é simples: o motor passa a trabalhar de forma mais limpa, sem fuligem, e com desgaste muito inferior. Mesmo com maior consumo volumétrico — aproximadamente 1 litro de diesel para 1,37 litro de etanol — o custo final ainda é menor para quem produz seu próprio etanol. Stefanini resume: “O custo por hora e por tonelada é substancialmente menor. E eliminamos totalmente o ARLA.”

A mudança no motor envolve uma reengenharia profunda: o sistema de injeção é redesenhado, a ignição passa a atuar em alta demanda térmica, o gerenciamento eletrônico é dedicado ao etanol, e componentes internos recebem ajustes específicos para suportar carga pesada em Ciclo Otto. Segundo Stefanini, os ensaios em dinamômetro mostram robustez equivalente ao diesel, com ganhos de potência e torque.

O etanol também elimina agentes corrosivos como enxofre e hidrocarbonetos, reduzindo oxidação e prolongando a vida útil de pistões, anéis e sedes. O sistema ainda se ajusta automaticamente às variações de pureza e teor alcoólico ao longo da safra, garantindo estabilidade operacional.

No campo ambiental, os benefícios são significativos. “A substituição integral do diesel por etanol reduz em mais de 98% as emissões de CO₂ equivalente ‘well-to-wheel’. Dependendo do perfil de uso, isso representa centenas de toneladas evitadas.”

A operação com etanol hidratado certificado também gera créditos no RenovaBio: “Estimamos R$ 20 mil em CBios para cada 100 mil litros de diesel substituídos, ou R$ 55 por hectare de cana.”

Limitações atuais, certificações e o passo rumo à autossuficiência energética

Por ora, a tecnologia está validada principalmente para motores entre 150 e 500 cv, faixa típica de caminhões e máquinas agrícolas. Motores menores ainda requerem ajustes específicos. Para aplicações marítimas, a barreira é regulatória: a conversão para etanol não é permitida em embarcações devido às normas internacionais.

Em máquinas agrícolas e caminhões, porém, não há exigência formal de certificação por parte da ANP ou do Inmetro, embora a E-OXY esteja estruturando documentação técnica e protocolos de segurança para futuras homologações. Stefanini destaca ainda que a conversão é reversível, permitindo retorno ao diesel caso necessário.

A conversão traz às usinas um benefício raro: autossuficiência energética plena. “Substituímos um diesel caro, importado e volátil por um biocombustível produzido dentro da própria unidade. Isso elimina vulnerabilidades de abastecimento e reduz exposição cambial”, afirma.

Hoje, um processo de conversão leva entre quatro e seis semanas, mas deve cair para três a cinco dias com escala industrial. Os caminhões convertidos podem superar 1.000 km de autonomia, aproveitando inclusive o tanque que antes era destinado ao ARLA.

A startup negocia pilotos com usinas do Centro-Sul para validação operacional já na safra 2026/27, além de parcerias com frotas urbanas e rodoviárias. Para Stefanini, o etanol pode conquistar um espaço energético maior do que ocupa hoje.

De acordo com o executivo, os resultados de emissão dos motores etanol E-OXY Green Fuel, são absolutamente alinhados as políticas governamentais de descarbonização e podem ser efetuados com um combustível brasileiro que já foi testado e aperfeiçoado por décadas. “Isso mais que reduzir emissões e consequentemente os problemas de saúde da população em grandes centros, fomenta o setor sucroenergético, gerando empregos e fortalecendo as indústrias do setor.  É claro pra nós, que a utilização de biocombustíveis como o etanol é uma demanda crescente do setor sucroenergético e que existem algumas iniciativas correlatas. Contudo, não identificamos até o momento nenhuma solução com amplitude técnica e operacional equivalente à E-OXY. Nosso sistema integra desempenho, estabilidade térmica e rentabilidade econômica em um modelo universalmente adaptável, consolidando-se como a primeira conversão para etanol de alta performance verdadeiramente escalável para motores diesel”, enfatiza.

Ainda de acordo com Stefanini, a conversão reforça o etanol como vetor energético nacional. Permite renovar frotas rapidamente, a menor custo, usando um combustível brasileiro, renovável e carbono-neutro. “Somos uma startup que une ciência aplicada, sustentabilidade e resultado econômico. A E-OXY será um instrumento prático de competitividade, eficiência e renovação de frota, demonstrando na prática o potencial da bioenergia nacional”, finaliza.

Natália Cherubin para RPAnews

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