Empresa firmou parceria com usina da Argentina para prospectar mercado no país vizinho
A Embraer está dando seu primeiro passo para internacionalizar seu negócio de aviação agrícola. A companhia brasileira assinou um acordo com uma usina de etanol da Argentina para prospectar mercado no país vizinho para seu avião pulverizador Ipanema, que é movido a biocombustível.
O memorando de entendimento foi firmado com o grupo Essential Energy Holding, dono da Bioenergías Agropecuárias, destilaria que produz etanol de cana-de-açúcar e de milho localizada no norte da província de Santa Fé.
O plano é que as duas companhias estudem o potencial de mercado do Ipanema no país, quais podem ser as condições de abastecimento de etanol dos aviões a serem usados pelos clientes argentinos, como deve ser a infraestrutura de distribuição, entre outros fatores.
A Embraer produz o Ipanema movido a etanol desde 2004 e, em 2015, parou de produzir o modelo a gasolina para se focar apenas na fabricação da aeronave com motor a biocombustível. Inicialmente, o plano era oferecer aos produtores rurais uma alternativa mais barata, já que a gasolina é mais cara que o etanol. Mas, com o tempo, também ganhou o apelo ambiental do produto movido a etanol.
Segundo o CEO da Essential Energy, Federico Pucciariello, com o acordo com a Embraer, a companhia quer “melhorar a equação econômica para o produtor argentino, facilitando o acesso à tecnologia de ponta e ao etanol produzido localmente, o que se traduz em menos custos operacionais e maior produtividade no campo”.
O desafio para a Embraer levar o Ipanema para fora do país sempre foi a questão da disponibilidade do combustível. Diferentemente do Brasil, nenhum outro país tem uma abundância de oferta de etanol disseminada pelo território.
“Quando olhamos para expandir [o Ipanema] para a América Latina, víamos uma dificuldade ou até uma impossibilidade”, conta o diretor de negócios e produção da Embraer, Sany Onofre, responsável pela área de aviação agrícola.
Para superar as dificuldades, no ano passado, a companhia recebeu uma visita de representantes de empresas e dirigentes industriais de vários países da América Latina em Botucatu, onde está sua fábrica que produz o pulverizador aéreo, para apresentar a produção e as características da aeronave.
A partir dali, estabeleceram-se contatos com empresas da Argentina, Paraguai, Uruguai e México. “Eles ficaram super entusiasmados”, relata o executivo da Embraer.
O negócio de aviação agrícola da Embraer fatura atualmente US$ 60 milhões (ou R$ 300 milhões) ao ano, um valor bem pequeno diante da receita anual da companhia, que chegou a R$ 35 bilhões em 2024. Mas, com a abertura dos mercados latinos, Onofre estima que a receita do negócio tenha potencial para crescer 20% a 30%.
No ano passado, a Embraer vendeu um Ipanema para um distribuidor brasileiro, que o revendeu a um produtor rural no Paraguai. Segundo Onofre, o cliente paraguaio obteve uma autorização de uso especial da autoridade aérea paraguaia e, logo depois, o governo paraguaio autorizou oficialmente o uso do Ipanema em todo o território.
Na Argentina, a Embraer pediu à autoridade aérea a autorização para a operação do Ipanema, e aguarda liberação.
Segundo Onofre, o desafio do setor é “convencer os produtores rurais de que não é difícil comprar e operar um avião agrícola” para realizar o trabalho que é feito pelos pulverizadores terrestres.
“Às vezes o pulverizador terrestre não dá mais conta. E o avião tem mais capacidade e preço [mais vantajoso]”, argumenta.
Atualmente, um Ipanema é vendido no Brasil por volta de R$ 4 milhões. Na Argentina, o avião deverá ser vendido pelo mesmo preço, ao valor do câmbio vigente.
Onofre ainda não demonstra preocupação com a concorrência com drones. Segundo ele, são produtos com capacidade menor, voltados a atividades específicas.
Enquanto um Ipanema carrega 700 quilos em um voo, os maiores drones de pulverização hoje carregam até 50 quilos. “Mas já tem drones maiores e veículos aéreos não tripulados em desenvolvimento, e vamos encontrá-los no caminho, a depender da maturidade da tecnologia”, avalia.
Globo Rural|Camila Souza Ramos