Dando continuidade ao tema e aos assuntos voltados à importância das variedades de cana-de-açúcar no setor sucroenergético, abordados por mim recentemente aqui na Revista RPAnews, gostaria de destacar o potencial aumento do retorno econômico proporcionado quando do manejo adequado dessas variedades.
Quando me refiro a manejo, contemplo e destaco algumas das estratégias mais eficazes para garantir a rentabilidade e a sustentabilidade do canavial:
- Porcentagem ideal de cada variedade a ser explorada/cultivada pela usina e produtores, evitando assim, que se tenha uma área muito grande de uma mesma variedade, incorrendo eventualmente num erro com possibilidade de risco de doenças e/ou pragas suscetíveis a referida variedade, o que fatalmente poderia comprometer os canaviais, e consequentemente economicamente a safra. Não há um “número mágico” para se estabelecer como porcentagem máxima recomendável de uma variedade no elenco da usina, o qual está atrelado a outras variáveis que descreverei abaixo, mas o recomendado é que não se deve ultrapassar 15% a 18%;
- Variedades alocadas corretamente aos ambientes de produção (solos) disponíveis, objetivando maximizar o maior retorno possível da variedade naquele ambiente;
- Equilíbrio na escolha das variedades de acordo com a época de colheita, visando diversificar e não se ter muitas variedades com picos de maturação concentrado num mesmo período da safra (precoces, médias e tardias);
- Variedades adaptadas aos sistemas de colheita utilizados pelo produtor de cana (manual, mecanizado, sem queimar ou queimada). Embora no Centro-Sul a maioria das colheitas são realizadas mecanicamente torna-se necessário para maior rendimento, manutenção de um ótimo ciclo, longevidade do canavial e qualidade nos futuros cortes que sejam variedades ajustadas para este cenário, inclusive para a operação logística mecanizada (CTT), visando entregar a matéria-prima com qualidade e agilidade. Para isso, são fundamentais variedades com características desejáveis como: porte ereto, facilidade de despalha, alto perfilhamento e boa brotação de soqueira;
- Variedades adequadas aos tipos de plantio a serem realizados pela usina (cana de ano e meio, cana de ano e cana de inverno), onde observa-se desempenho diferenciados de algumas variedades quando plantadas em um tipo de plantio ou outro;
- Incentivar a troca constante do plantel varietal é um processo de melhoria contínua, substituindo por variedades superiores. Esse procedimento é muito importante e o produtor tem que estar atento ao mercado com relação a novas variedades, uma vez essa rotina lhe possibilita atualizações por materiais que possam trazer maior retorno em produtividade (TCH), riqueza (ATR), variedades específicas para determinados ambientes de produção, enfim, ajustes em seu elenco por outras variedades mais rentáveis economicamente;
Mudas sadias, de origem confiável, são cruciais, posto que a formação do canavial já começa aí. Em se plantando mudas de origem duvidosa, o produtor incorre em sérios riscos biológicos e de sustentabilidade, colocando em alerta a sua gestão segura e responsável, não somente da sua propriedade como também de propriedades vizinhas.
Lembrando que as premissas acima não são excludentes de outras já mencionadas anteriormente, e que também são de suma importância quando se busca variedades para performar e obter o máximo de retorno possível nos canaviais.
Entendo, e até acho necessário, a busca por eficiência nos diversos processos que envolvem a cadeia produtiva, principalmente nos plantios, reforma e substituição por novas variedades, mas uma coisa que me deixa intrigado é quando os responsáveis por essas tarefas, não se preparam antecipadamente para este momento tão importante.
De todo modo, o que gostaria de pontuar é que não se deve permitir que as metas de rendimento estabelecidas, as quais em sua maioria estão atreladas a datas/prazos, custos de plantio e logística, e às vezes até pela proximidade geográfica de mudas de variedades inadequadas, sejam fatores preponderantes na tomada de decisão, pois quando incorretas, inquestionavelmente afetarão de forma negativa as safras e colheitas futuras (próximos cortes).
Sendo assim, se tomadas as decisões focadas somente na eficiência das tarefas, e deixando de lado o manejo adequado, isso trará, inevitavelmente, diminuição de receitas. No futuro, essa perda superará os custos iniciais que se tentou mitigar com o cumprimento das metas, as quais, num cenário de foco restrito, na maioria das vezes, leva a escolhas equivocadas no plantio das variedades, reduzindo a receita e/ou corroendo a margem líquida.
Abreviaturas:
- TCH: Tonelada de Cana por Hectare
- ATR: Açúcar Teórico Recuperável
- CTT: Corte, Transbordo e Transporte
*Fábio Vidal Mina Junior é engenheiro agrônomo, pós-graduado, com MBA em Agronegócios e mestrado na ESALQ/USP, consultor técnico de muita experiência no setor sucroenergético e diretor da Consulcana – Soluções Aplicadas a Cana-de-Açúcar.

