Mercado reagiu à redução da previsão de chuvas no país asiático, enquanto preocupações climáticas globais voltaram ao radar dos investidores
Os contratos futuros do açúcar encerraram a última sessão em forte alta nas bolsas internacionais, impulsionados pelas preocupações com a temporada de monções na Índia e pelos riscos associados ao avanço do fenômeno El Niño, que pode afetar importantes regiões produtoras da commodity.
Em Nova York, o contrato julho do açúcar bruto (Sugar #11) fechou com valorização de 0,13 centavo de dólar por libra-peso, alta de 0,93%, encerrando a 14,06 cents/lb. Em Londres, o açúcar branco registrou avanço de US$ 12,50 por tonelada, ou 2,94%, fechando cotado a US$ 438,20 por tonelada.
Segundo análise divulgada pela Barchart, o mercado reagiu ao aumento das preocupações com o regime de chuvas na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar. O Departamento Meteorológico do país reduziu sua previsão acumulada de precipitações para o período de junho a setembro para 90% da média histórica, abaixo da estimativa anterior de 92% divulgada em abril. A revisão estimulou a cobertura de posições vendidas e deu suporte às cotações.
As atenções do mercado também se voltaram para o desenvolvimento do El Niño. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe 82% de probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho, com persistência até o final do ano. Há ainda 67% de chance de ocorrência de um chamado “Super El Niño”. O cenário preocupa porque condições mais secas podem reduzir a produtividade em Brasil, Índia e Tailândia, três dos maiores produtores globais de açúcar.
Apesar da recuperação observada na sessão, o mercado segue pressionado por sinais de maior oferta. Na quinta-feira anterior, os contratos haviam atingido mínimas de um mês em Nova York e de cinco semanas em Londres após a Unica divulgar que a produção de açúcar do Centro-Sul do Brasil em abril saltou 55,3% na comparação anual, alcançando 2,475 milhões de toneladas. O resultado foi favorecido pelo aumento da produtividade agrícola e pelo avanço de 5,4% no teor de sacarose da cana, que atingiu 112,58 quilos por tonelada processada.
Outro fator baixista continua sendo o desempenho das exportações da Tailândia. Entre janeiro e abril, os embarques do país cresceram 29% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando 1,6 milhão de toneladas.
No cenário global, a Organização Internacional do Açúcar (ISO) elevou recentemente sua projeção de superávit mundial para a safra 2025/26. A entidade estima produção recorde de 182 milhões de toneladas, alta de 3,5% frente ao ciclo anterior, e superávit de 2,2 milhões de toneladas, acima da previsão de 1,22 milhão de toneladas divulgada em fevereiro. O volume representa uma reversão em relação ao déficit de 3,46 milhões de toneladas registrado em 2024/25.
Por outro lado, a própria ISO projeta queda de 1,15% na produção global em 2026/27, para cerca de 180 milhões de toneladas, além de um déficit de 262 mil toneladas, citando justamente os possíveis impactos climáticos do El Niño sobre Índia e Tailândia.
Entre as estimativas mais recentes para o Brasil, o Citigroup prevê produção de 39,5 milhões de toneladas de açúcar na safra 2026/27, abaixo da projeção de 43,95 milhões de toneladas da Conab. Segundo o banco, o aumento da competitividade do etanol pode levar as usinas brasileiras a direcionarem maior volume de cana para a produção do biocombustível, reduzindo a oferta de açúcar.
O mercado também continua acompanhando a política comercial da Índia. O país mantém uma restrição às exportações de açúcar até 30 de setembro, medida adotada para preservar o abastecimento interno. Paralelamente, consultorias seguem revisando suas projeções globais. A Datagro elevou sua estimativa de déficit mundial para 3,17 milhões de toneladas, enquanto a StoneX projeta que o mercado global passará de um superávit de 2,3 milhões de toneladas em 2025/26 para um déficit de 550 mil toneladas na temporada 2026/27.
Dessa forma, o mercado segue dividido entre a expectativa de maior oferta no curto prazo, especialmente a partir do Brasil, e os riscos climáticos que podem comprometer a produção mundial nas próximas safras, mantendo elevada a volatilidade das cotações internacionais do açúcar.



