CMAA processou 8,3 milhões de toneladas de cana, impactada pelas condições climáticas. Estratégia industrial preservou a produção de açúcar, ampliou o etanol anidro e sustentou elevada geração operacional de caixa
A Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) encerrou a safra 2025/26 enfrentando os mesmos desafios climáticos que marcaram o setor sucroenergético no Centro-Sul do Brasil, mas conseguiu preservar importantes indicadores operacionais ao longo do ciclo. A companhia processou 8,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, volume 10,9% inferior ao registrado na safra anterior, reflexo da menor disponibilidade de matéria-prima provocada pela irregularidade das chuvas, déficit hídrico e temperaturas elevadas durante o desenvolvimento dos canaviais.
Mesmo diante desse cenário, ampliou a participação do açúcar no mix de produção, aumentou a fabricação de etanol anidro e manteve margem EBITDA ajustada de 50,7%. A receita líquida somou R$ 2,47 bilhões, enquanto o exercício foi encerrado com prejuízo líquido de R$ 157,4 milhões.
Na avaliação da companhia, a safra foi marcada por um ambiente operacional desafiador para toda a cadeia sucroenergética. Segundo a administração, os efeitos climáticos limitaram o potencial produtivo dos canaviais e reduziram a oferta de matéria-prima para processamento, exigindo maior disciplina operacional e comercial. Nesse contexto, a CMAA afirma ter adaptado seu mix industrial às condições de mercado, priorizando produtos com maior geração de valor e preservando sua flexibilidade operacional.
Clima reduz moagem e produtividade agrícola
Os impactos climáticos ficaram evidentes nos principais indicadores agrícolas da companhia. O processamento de cana recuou de 9,3 milhões para 8,3 milhões de toneladas. A redução ocorreu tanto na cana própria, que passou de 4,9 milhões para 4,7 milhões de toneladas, quanto na matéria-prima adquirida de terceiros, que caiu de 4,3 milhões para 3,5 milhões de toneladas.
Além da menor disponibilidade de cana, a qualidade da matéria-prima também foi afetada. O ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) caiu de 140,9 para 136,8 quilos por tonelada de cana, retração de 3% na comparação com a safra anterior.
O impacto mais expressivo, porém, foi observado na produtividade agrícola. O TCH (toneladas de cana por hectare) caiu 16,2%, passando de 79,4 para 66,5 toneladas por hectare. Segundo a companhia, o déficit hídrico e as temperaturas elevadas limitaram o desenvolvimento vegetativo dos canaviais, reduzindo a produção de biomassa por área cultivada.
Como consequência, também houve perda de eficiência na produção de açúcar por hectare. O indicador TAH recuou de 11,1 para 9,4 toneladas por hectare na cana própria e de 11,3 para 8,8 toneladas por hectare na cana de fornecedores, redução consolidada de 18,7% em relação ao ciclo anterior.
Mudança no mix preserva produção de açúcar
Mesmo com quase 11% menos cana disponível para moagem, a CMAA conseguiu limitar a queda da produção de açúcar ao alterar sua estratégia industrial.
Durante a safra, a companhia ampliou a participação do açúcar no mix produtivo de 56,9% para 64%, direcionando maior volume da matéria-prima disponível para a fabricação da commodity. Como resultado, produziu 681,2 mil toneladas de açúcar, apenas 1,8% abaixo das 693,7 mil toneladas registradas na safra anterior.
Na avaliação da empresa, a estratégia foi favorecida pela flexibilidade operacional das unidades industriais, permitindo ajustes rápidos conforme as condições de mercado e as perspectivas de rentabilidade dos diferentes produtos.
Outro movimento importante foi o fortalecimento da produção de etanol anidro. O volume produzido atingiu 143,3 mil metros cúbicos, crescimento de 13,7% em relação ao ciclo anterior. Segundo a administração, o produto continua apresentando fundamentos favoráveis em razão da mistura obrigatória à gasolina e das perspectivas de expansão da participação dos combustíveis renováveis na matriz energética brasileira.
Já a produção de etanol hidratado foi reduzida em 48,8%, totalizando 122,4 mil metros cúbicos. A retração reflete justamente a estratégia de priorizar produtos considerados mais rentáveis ao longo da safra.
Na cogeração, a companhia produziu 383,1 mil MWh de energia elétrica destinada à comercialização, redução de apenas 2,8% frente à safra anterior, mesmo diante da menor moagem.
A administração também atribui parte do desempenho operacional à política comercial adotada ao longo do ciclo. Segundo a companhia, embora o mercado internacional de açúcar tenha passado por um processo de acomodação após os elevados preços observados nas últimas safras, a estratégia de hedge permitiu capturar condições comerciais superiores às médias praticadas pelo mercado, reduzindo parte dos impactos da queda das cotações internacionais.
No mercado de biocombustíveis, a CMAA destaca que a demanda por etanol anidro permaneceu aquecida ao longo da safra, sustentada pela mistura obrigatória à gasolina e pelas perspectivas de fortalecimento dos combustíveis renováveis no Brasil.
Receita recua, mas companhia preserva geração de caixa
Os efeitos da menor moagem e do ambiente de preços mais desafiador foram refletidos nos resultados financeiros.
A receita líquida caiu 11,9%, passando de R$ 2,80 bilhões para R$ 2,47 bilhões. O açúcar permaneceu como principal fonte de faturamento da companhia, respondendo por R$ 1,54 bilhão da receita bruta consolidada.
O destaque positivo ficou com o etanol anidro. A receita do produto cresceu 37,4%, alcançando R$ 481,3 milhões, impulsionada tanto pelo aumento do volume comercializado quanto pela evolução dos preços médios de venda.
Já a receita com etanol hidratado recuou 44,4%, para R$ 398,2 milhões, acompanhando a estratégia de direcionamento da produção para produtos de maior retorno econômico.
A comercialização de energia elétrica gerou R$ 122,6 milhões, enquanto a receita com CBIOs caiu para R$ 1,9 milhão, refletindo a redução no volume de créditos negociados e um ambiente regulatório menos favorável ao mercado de descarbonização.
Apesar da redução da receita, a CMAA manteve elevada capacidade de geração operacional de caixa. O EBITDA ajustado alcançou R$ 1,25 bilhão, recuo de 8,9% frente ao exercício anterior. Ainda assim, a margem EBITDA aumentou de 49% para 50,7%, desempenho que a companhia atribui à disciplina na gestão dos custos, à flexibilidade do parque industrial e à estratégia adotada para definição do mix de produção.
Juros elevados e menor moagem levam companhia ao prejuízo
O resultado líquido da safra foi negativo em R$ 157,4 milhões, revertendo o lucro de R$ 34 milhões registrado no exercício anterior.
Segundo a administração, o desempenho foi influenciado por um conjunto de fatores. Entre eles estão a menor disponibilidade de matéria-prima para processamento, a redução dos preços internacionais do açúcar, o aumento das despesas financeiras em um ambiente de juros elevados e os efeitos da revisão do valor justo dos ativos biológicos.
Mesmo com o prejuízo contábil, a companhia destaca que preservou uma estrutura operacional sólida e manteve fundamentos financeiros consistentes para sustentar sua estratégia de longo prazo.
Ao avaliar o desempenho da safra, a administração afirma que o ciclo reforçou a importância de uma gestão disciplinada, da flexibilidade industrial e da eficiência operacional para enfrentar períodos de maior volatilidade climática e de mercado. Segundo a empresa, a gestão ativa do caixa, do endividamento e do mix de produção permitiu preservar a capacidade de geração operacional e manter o foco na criação de valor sustentável para os próximos ciclos.
Natália Cherubin para RPAnews



