Rabobank projeta dólar a R$ 5,35 no fim de 2026, alerta para custos ainda elevados dos fertilizantes e avalia que o avanço do El Niño pode influenciar tanto a safra brasileira quanto o mercado global de açúcar
O setor sucroenergético entra na segunda metade da safra 2026/27 diante de um conjunto de fatores que deve influenciar tanto os custos de produção quanto a formação dos preços do açúcar e do etanol. De acordo com análise divulgada pelo Rabobank, câmbio, mercado internacional de fertilizantes e o avanço do El Niño devem permanecer entre as principais variáveis acompanhadas pelas usinas e produtores de cana nos próximos meses.
Segundo o banco, o dólar deverá encerrar 2026 em torno de R$ 5,35. A projeção considera um ambiente ainda marcado por riscos geopolíticos, juros elevados nos Estados Unidos e incertezas fiscais e eleitorais no Brasil. Ao mesmo tempo, a instituição avalia que o diferencial de juros domésticos e os termos de troca favoráveis tendem a limitar uma desvalorização mais intensa do real.
Para o setor sucroenergético, o comportamento do câmbio continua sendo um componente importante na formação das receitas com as exportações de açúcar, ao mesmo tempo em que influencia diretamente o custo de insumos importados, como fertilizantes.
Fertilizantes continuam no radar
O Rabobank destaca que o conflito no Oriente Médio continua sendo o principal fator de atenção para o mercado global de fertilizantes. Mesmo com a perspectiva de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã, o banco avalia que os impactos sobre os preços e sobre a demanda mundial já foram consolidados.
Segundo a instituição, a alta registrada na ureia ao longo dos últimos meses repetiu comportamento semelhante ao observado durante o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Embora as cotações tenham retornado aos níveis anteriores ao conflito, a demanda permanece enfraquecida.
Os números das importações brasileiras refletem esse movimento. De acordo com o Rabobank, entre janeiro e maio chegaram ao país apenas 1,5 milhão de toneladas de ureia, o menor volume para o período em uma década. Em maio, as importações do produto ficaram cerca de 64% abaixo das registradas no mesmo mês do ano passado.
O banco estima que as entregas de fertilizantes no Brasil deverão totalizar aproximadamente 45,1 milhões de toneladas em 2026, retração de 8,2% frente ao ano anterior. Além da alta dos preços, o relatório aponta que a situação financeira de parte dos produtores também deverá limitar a demanda por insumos.
El Niño amplia incertezas para o açúcar
Na avaliação do Rabobank, o clima também ganha importância para o mercado sucroenergético. O banco destaca que a mais recente atualização da NOAA confirma o desenvolvimento do El Niño a partir de julho, com fortalecimento ao longo do segundo semestre.
Segundo o relatório, existe 63% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade considerada muito forte a partir de novembro, embora os impactos efetivos ainda dependam da interação entre diferentes condições atmosféricas.
Para a cana-de-açúcar, o banco lembra que as chuvas registradas entre abril e maio provocaram atrasos na moagem da safra atual, mas contribuíram para melhorar as perspectivas da temporada seguinte. Por outro lado, um El Niño mais intenso poderá provocar novas interrupções na colheita e dificultar o avanço das operações.
Além dos efeitos sobre a safra brasileira, o Rabobank ressalta que o mercado internacional acompanha principalmente os possíveis impactos do fenômeno sobre Índia e Tailândia, dois importantes produtores mundiais de açúcar. Caso ocorram perdas de produtividade nesses países, o cenário global poderá sofrer alterações ao longo da safra.
Etanol competitivo, mas margens seguem pressionadas
No mercado doméstico, o Rabobank observa que a forte queda do preço do etanol no segundo trimestre tornou o biocombustível bastante competitivo frente à gasolina, mas reduziu a rentabilidade das usinas.
Segundo o banco, entre o fim de março e o início de junho, o preço do etanol hidratado acumulou queda de 24%, passando de aproximadamente R$ 2,90 por litro para cerca de R$ 2,20 por litro. No mesmo período, o preço médio do etanol hidratado nos postos paulistas caiu de R$ 4,52 para R$ 3,88 por litro, enquanto a relação entre os preços do etanol e da gasolina recuou de 67,6% para 60,1%.
Na avaliação da instituição, esse cenário deixou o etanol altamente competitivo nas bombas, mas pouco rentável para os produtores, principalmente diante da expectativa de aumento de 4,3 bilhões de litros na oferta de etanol na safra 2026/27. O Rabobank estima que uma relação média de 63% entre os preços do etanol hidratado e da gasolina seria necessária para equilibrar o mercado ao longo desta temporada.
Apesar da pressão sobre as margens, o banco considera positiva a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, medida que deverá ampliar a demanda pelo biocombustível e reduzir a necessidade de importações de gasolina.
No mercado de açúcar, a instituição avalia que as cotações seguem pressionadas pelas expectativas de maior oferta global. Entretanto, o avanço do El Niño sobre importantes regiões produtoras da Ásia poderá alterar esse cenário. Mesmo sem considerar eventuais perdas climáticas, a projeção preliminar do Rabobank para o balanço mundial de açúcar em 2026/27 indica déficit de 1,1 milhão de toneladas, sinalizando que ainda há espaço para mudanças relevantes nas perspectivas do mercado ao longo dos próximos meses.
Natália Cherubin para RPAnews



