Raízen atribuiu o consumo de caixa à mudança na gestão do capital de giro e elevou a baixa contábil por perda para R$ 22,5 bilhões no ano-safra encerrado em março, sem impacto esperado sobre o plano de reestruturação da dívida
A Raízen reportou um consumo de caixa de R$ 3,4 bilhões (US$ 657 milhões) nos três primeiros meses de 2026 e praticamente dobrou a perspectiva de baixa contábil por perda no ano-safra, sinalizando que continua enfrentando desafios enquanto avança com seu plano de reestruturação da dívida.
No início deste mês, a Raízen obteve a aprovação dos credores para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas na maior reestruturação extrajudicial da história do Brasil.
Pelo plano aprovado, a empresa converterá 45% da dívida em cerca de 80% do capital social, enquanto a acionista Shell fará um aporte de R$ 3,5 bilhões na companhia.
A Raízen informou que o consumo de caixa ocorreu após a decisão de adotar novas medidas de gestão do capital de giro, incluindo a redução de operações de financiamento com fornecedores e sua substituição por dívidas de prazo mais longo.
A companhia também informou que reconheceu baixas contábeis por perda de R$ 22,5 bilhões no ano-safra encerrado em março. O valor se compara à baixa inicial de R$ 11 bilhões registrada no trimestre anterior.
Segundo a Raízen, as perdas estão relacionadas à “incerteza significativa” quanto à capacidade de continuidade operacional da empresa e à redução do valor recuperável de parte de seus ativos.
As baixas contábeis não afetam a reestruturação, e a empresa espera reverter entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões dessas perdas no âmbito do processo extrajudicial, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto.
Criada como uma joint venture entre Shell e Cosan, a Raízen enfrenta dificuldades após uma sequência de apostas estratégicas malsucedidas, juros elevados e safras fracas.
Como parte do plano de reorganização, a Raízen será dividida em dois negócios independentes: uma empresa de distribuição de combustíveis e outra de produção de açúcar e etanol. A companhia espera concluir essa separação até o fim de 2027, destinando a maior parte da dívida reestruturada à unidade de distribuição de combustíveis.
No trimestre, o negócio de açúcar e etanol registrou crescimento de 23% no Ebitda ajustado. A companhia foi beneficiada pela alta dos preços do etanol no período, mesmo após a venda de parte de suas usinas de cana-de-açúcar no ano passado como parte de um amplo plano de desinvestimentos.
Na unidade de distribuição de combustíveis, o Ebitda ajustado do trimestre avançou 60%.
A repressão policial à concorrência ilegal no mercado de combustíveis favoreceu grandes distribuidoras como a Raízen, que também se beneficiou do aumento das compras de diesel no mercado doméstico, enquanto a disparada dos preços durante a guerra entre Irã e Israel prejudicou os importadores.
Bloomberg| Dayanne Sousa, Ana Mano e Rachel Gamarski



