Companhia processou 70,5 milhões de toneladas de cana, reduziu produção de açúcar e etanol sob impacto climático, dobrou o volume de E2G e avançou na reorganização operacional e financeira
A Raízen encerrou a safra 2025/26 com moagem de 70,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, redução de 9,8% em relação ao ciclo anterior, refletindo principalmente os impactos das condições climáticas adversas sobre a disponibilidade de matéria-prima e a produtividade agrícola. Mesmo diante da menor produção de açúcar e etanol, a companhia ampliou em mais de 100% a produção de etanol de segunda geração (E2G), capturou ganhos de eficiência operacional e manteve o processo de simplificação do portfólio de ativos, enquanto avançou na reorganização de sua estrutura financeira.
De acordo com a mensagem da administração da companhia, a safra foi marcada por um dos ambientes mais desafiadores dos últimos anos, combinando efeitos climáticos, volatilidade das commodities, juros elevados e impactos do mercado irregular de combustíveis. Ainda assim, a empresa afirma ter mantido o foco na execução do Plano de Transformação, com disciplina na redução de custos, na alocação de capital e na reorganização do portfólio de negócios.
Clima reduz moagem e produtividade agrícola
A menor moagem registrada ao longo da safra foi atribuída, principalmente, aos efeitos do clima sobre os canaviais. Segundo a companhia, as condições adversas reduziram a disponibilidade de cana para processamento em aproximadamente 900 mil toneladas, comprometendo o desempenho agrícola da temporada.
Além do clima, a moagem também foi impactada pela estratégia de simplificação do portfólio, que incluiu a venda de cerca de 2 milhões de toneladas de cana e a hibernação das usinas MB e Santa Elisa. Desconsiderando esses efeitos, a moagem teria alcançado 69,2 milhões de toneladas, redução de 3,9% em comparação com a safra anterior.
Os reflexos também apareceram nos indicadores agrícolas. O ATR recuou de 135,8 para 134,4 kg por tonelada de cana, enquanto o TCH da cana própria caiu de 76,9 para 72,9 toneladas por hectare. A produtividade agrícola, medida em toneladas de ATR por hectare, passou de 10,4 para 9,8, retração de 5,8% na comparação anual. O mix industrial foi direcionado para maior produção de açúcar, passando de 50% para 53%, enquanto o etanol representou 47% da destinação da matéria-prima.
Produção de açúcar e etanol recua, enquanto E2G mais que dobra
A redução da disponibilidade de cana refletiu diretamente na produção industrial. A companhia produziu 4,824 milhões de toneladas de açúcar, queda de 5,5%, e 2,576 milhões de metros cúbicos de etanol, volume 17,9% inferior ao registrado na safra anterior. Em açúcar equivalente, a produção somou 9,186 milhões de toneladas, retração de 10,6%.
O principal destaque positivo da operação industrial foi o desempenho do etanol de segunda geração (E2G). A produção alcançou 120,2 mil metros cúbicos, mais que o dobro do volume produzido na safra anterior, quando havia totalizado 58,8 mil metros cúbicos. Segundo a companhia, o crescimento decorre da estabilização operacional das plantas Bonfim, Univalem e Barra, que passaram a operar com maior regularidade ao longo da safra.
No mercado de açúcar, as vendas cresceram no quarto trimestre em linha com a estratégia comercial da empresa, embora o volume acumulado do ano tenha acompanhado a menor produção. Os preços permaneceram pressionados pela dinâmica internacional, mas a companhia destaca que parte desse efeito foi mitigada pela estratégia de fixação antecipada das cotações.
Já no etanol, a menor produção foi parcialmente compensada por preços mais elevados. A companhia atribui esse comportamento ao fortalecimento da demanda doméstica, impulsionada pelo aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina (E30), fator que compensou parcialmente a redução dos volumes exportados.
Na bioenergia, a cogeração totalizou 1,684 milhão de MWh, redução de 13,3%, acompanhando a menor disponibilidade de biomassa. Apesar disso, a empresa registrou melhora nos preços médios comercializados, apoiada na estratégia de proteção da energia negociada fora dos leilões regulados e na maior exposição ao mercado livre.
Eficiência operacional ameniza impactos da safra
Mesmo diante do recuo operacional, a companhia destaca que a captura de ganhos de eficiência ajudou a reduzir parte dos impactos provocados pela menor moagem.
Ao longo da safra, a Raízen implementou uma série de iniciativas voltadas à otimização de custos e despesas, que resultaram em aproximadamente R$ 1 bilhão em ganhos estruturais. Desse total, R$ 322 milhões vieram das operações agrícolas e industriais, enquanto R$ 724 milhões foram obtidos por meio da redução de despesas recorrentes em diferentes segmentos do negócio.
De acordo com a mensagem da administração da companhia, os avanços também envolveram uma redução de aproximadamente R$ 3,3 bilhões no CAPEX em relação à safra anterior e a continuidade do processo de simplificação do portfólio, com impacto financeiro estimado em R$ 12 bilhões, dos quais cerca de 40% já foram capturados e o restante deverá ser reconhecido com a conclusão da venda dos ativos na Argentina.
A companhia afirma ainda que manteve o foco na eficiência agroindustrial e na disciplina na alocação de capital, direcionando investimentos para operações consideradas mais competitivas e priorizando ativos estratégicos para o crescimento futuro.
Resultado financeiro permanece pressionado
No consolidado da safra, a Raízen registrou receita líquida de R$ 225,8 bilhões, redução de 11,5% frente ao ciclo anterior. O EBITDA ajustado alcançou R$ 11,27 bilhões, ligeiramente inferior ao registrado na safra 2024/25, enquanto o prejuízo líquido somou R$ 27,1 bilhões. Os investimentos totalizaram R$ 8,6 bilhões, redução de 27,7%, refletindo a disciplina na alocação de capital. A dívida líquida encerrou o período em R$ 58,2 bilhões.
Segundo a companhia, o resultado foi impactado principalmente pelo reconhecimento de R$ 22,5 bilhões em perdas por impairment, relacionadas à revisão do valor recuperável de ativos, além das despesas associadas ao processo de recuperação extrajudicial, do aumento das despesas financeiras provocado pelo maior endividamento e pelo custo da dívida, e pelo desempenho mais fraco das operações de açúcar, etanol, bioenergia e da operação na Argentina.
A recuperação extrajudicial integra o Plano de Transformação anunciado pela companhia e tem como objetivo reorganizar a estrutura de capital, reduzir a alavancagem financeira e ampliar a flexibilidade para a execução das iniciativas estratégicas previstas para os próximos anos.
De acordo com a mensagem da administração da companhia, as medidas implementadas ao longo da safra representam o início de um processo de transformação mais amplo, sustentado pela disciplina financeira, simplificação do portfólio, ganhos estruturais de eficiência e foco na geração de valor de longo prazo. A empresa avalia que essas iniciativas deverão contribuir para a redução gradual da alavancagem e para uma operação mais resiliente nos próximos ciclos.
Natália Cherubin para RPAnews



