Setor sucroenergético concentra quase metade do potencial brasileiro de produção de biogás e avança na transformação das usinas em biorrefinarias, mas expansão ainda depende de avanços regulatórios, investimentos e eficiência operacional.
O biometano deixou de ser uma aposta para se consolidar como uma das principais oportunidades de expansão da bioeconomia brasileira. Impulsionado pela necessidade de diversificar receitas, reduzir emissões e ampliar o aproveitamento energético dos resíduos da produção sucroenergética, esse combustível renovável vem ganhando espaço na estratégia das usinas e reforçando a transformação do setor em um modelo de biorrefinaria cada vez mais completo.
O potencial ajuda a dimensionar essa mudança. Segundo estimativas da ABiogás, o setor sucroenergético concentra aproximadamente 21,1 bilhões de Nm³ de biogás por ano, o equivalente a cerca de 57,8 milhões de Nm³ por dia, volume que representa quase 48% de todo o potencial brasileiro de produção de biogás. Considerando apenas a vinhaça e a torta de filtro, estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima potencial de aproximadamente 2,8 bilhões de Nm³ de biometano por ano já em 2026. Com o aproveitamento parcial da palha e das pontas da cana, esse volume poderá alcançar entre 5,8 bilhões e 6,6 bilhões de Nm³ anuais até 2035.
Em entrevista à RPAnews, a presidente executiva da ABiogás, Josiani Napolitano, afirmou que esses números mostram que o país possui uma enorme reserva energética dentro das próprias usinas.”Independentemente da metodologia utilizada, a conclusão é a mesma: o Brasil dispõe de uma reserva energética expressiva dentro das próprias usinas sucroenergéticas. O desafio agora é criar as condições para transformar esse potencial em produção, investimento e oferta de energia renovável.”
Apesar do enorme potencial, apenas uma pequena parcela dessa capacidade é efetivamente aproveitada atualmente. Os últimos dados consolidados da EPE, com base em informações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), apontavam cinco unidades sucroenergéticas produzindo biometano no início de dezembro de 2025, com capacidade instalada próxima de 290 mil Nm³ por dia. Outras dez plantas encontram-se em processo de autorização, evidenciando que o mercado começa a ganhar escala, mas ainda possui amplo espaço para expansão.
Segundo Josiani, a tecnologia já demonstrou ser viável e existe demanda para o combustível renovável. O próximo passo depende da criação de um ambiente favorável aos investimentos, com segurança regulatória, infraestrutura, acesso ao financiamento e condições de mercado capazes de ampliar a produção em escala.

Da usina produtora à biorrefinaria
O crescimento do biometano reflete uma transformação que vem ocorrendo dentro das próprias usinas.
Segundo Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana, a busca por diversificação de produtos, a pressão pela descarbonização e o amadurecimento da agenda de energias renováveis fizeram com que o setor passasse a enxergar o biometano como uma oportunidade estratégica, e não apenas como um combustível alternativo.
“O avanço do biometano está ligado a uma combinação de fatores: a busca das usinas por diversificação de produtos e subprodutos, a pressão por descarbonização e o amadurecimento da agenda de energia renovável no Brasil. O setor bioenergético já tem uma base muito forte e, com o biometano, consegue ampliar o aproveitamento de resíduos e transformar passivos em ativos estratégicos.”
Na avaliação de Montabone, o mercado deixou de enxergar o biometano apenas como substituto do diesel e do gás natural. “O mercado passou a enxergar o biometano não só como substituto de combustíveis fósseis, mas como parte de um ecossistema mais amplo de eficiência, competitividade e sustentabilidade industrial.”
Esse novo posicionamento amplia as possibilidades de geração de valor da cana-de-açúcar. Além de produzir açúcar, etanol e bioeletricidade, as usinas passam a incorporar um novo combustível renovável ao seu portfólio, reduzindo a dependência de uma única commodity e fortalecendo um modelo de negócio mais resiliente.
Ainda de acordo com ele, além de substituir diesel e gás natural em diferentes aplicações industriais e logísticas, o biometano abre novas oportunidades de monetização por meio da comercialização do gás e da valorização dos atributos ambientais associados ao combustível.
Essa evolução reforça um conceito que vem ganhando força no setor sucroenergético: o da usina como uma biorrefinaria integrada.
Se no passado o foco estava concentrado na produção de açúcar e etanol, hoje a lógica passa pelo aproveitamento integral da biomassa. O bagaço gera energia elétrica, a vinhaça retorna ao campo, novos coprodutos ampliam as fontes de receita e o biometano passa a integrar esse conjunto de soluções energéticas.
Para Montabone, esse movimento representa uma evolução natural da cadeia bioenergética. “O biometano é um excelente exemplo de como a usina pode deixar de ser apenas produtora de açúcar e etanol para se tornar uma plataforma de energia, combustíveis e produtos de base renovável.”
Essa integração, segundo ele, fortalece o conceito de biorrefinaria ao conectar produção agrícola, indústria e energia em um mesmo sistema, ampliando a eficiência no uso dos recursos e criando novas oportunidades de geração de valor ao longo de toda a cadeia.
A própria ABiogás compartilha essa avaliação. Segundo a presidente executiva da entidade, o setor sucroenergético reúne características que poucos segmentos possuem simultaneamente, como grande disponibilidade de resíduos, infraestrutura industrial instalada e escala para desenvolver projetos competitivos.
“O setor terá um papel central na expansão da oferta de biometano no Brasil. As usinas reúnem características que poucos segmentos possuem: grande disponibilidade de resíduos, infraestrutura industrial já instalada e escala para desenvolver projetos competitivos.”
Apesar desse potencial, Josiani ressalta que o próximo desafio será criar as condições para transformar essa capacidade produtiva em oferta efetiva de biometano, avançando em infraestrutura, acesso ao financiamento, contratos de longo prazo e segurança regulatória.
Eficiência operacional será decisiva para consolidar o biometano
Se a disponibilidade de matéria-prima coloca o Brasil entre os países com maior potencial para produzir biometano, a competitividade das plantas dependerá cada vez mais da capacidade de operar com estabilidade, qualidade e eficiência.
Na avaliação de Stephanny Maciel, responsável pelos segmentos de Power e Descarbonização Industrial da Vaisala para o Brasil e Cone Sul da América Latina, o mercado brasileiro vive uma nova fase de amadurecimento. À medida que aumentam as exigências regulatórias, a rastreabilidade da qualidade do combustível e a valorização dos atributos ambientais do biometano, produzir volumes elevados deixa de ser suficiente.
“Hoje podemos dizer que alguns dos principais desafios técnicos estão ligados à estabilidade do processo, qualidade do gás e eficiência operacional. É preciso garantir uma alimentação estável de biogás bruto, controlar parâmetros como umidade e contaminantes antes do upgrading, reduzir perdas de metano no gás residual e otimizar o consumo energético.”
Entre os parâmetros monitorados durante a produção de biometano, a umidade ganha papel de destaque. O biogás produzido nos biodigestores sai praticamente saturado de vapor d’água e precisa passar por processos de desidratação antes das etapas de remoção de sulfeto de hidrogênio (H₂S), siloxanos e dióxido de carbono (CO₂).
Stephanny explica que, quando esse controle não ocorre de forma adequada, há risco de condensação ao longo da planta, principalmente após a compressão do gás e em pontos sujeitos a variações de temperatura e pressão.
Essa condensação pode comprometer filtros de carvão ativado, membranas, unidades PSA, tubulações e instrumentos de processo, além de aumentar significativamente o risco de corrosão e falhas operacionais.
Na prática, isso significa mais paradas não programadas, maior frequência de manutenção, redução da vida útil dos equipamentos e perda de eficiência da planta. “Monitorar a umidade em tempo real não é apenas uma etapa de controle; é uma condição para garantir confiabilidade, qualidade do biometano e previsibilidade operacional.”
Segundo ela, controlar continuamente o ponto de orvalho também passa a fazer parte das estratégias de manutenção preventiva, permitindo identificar antecipadamente condições que poderiam comprometer sistemas de purificação e aumentar o risco de interrupções na produção.
Embora tecnologias de purificação do biogás, como membranas, lavagem com água e PSA, já estejam consolidadas em diversos mercados, Stephanny acredita que o próximo avanço ocorrerá menos pela tecnologia utilizada e mais pela forma como ela será monitorada.”O próximo salto de eficiência tende a vir da forma como essas tecnologias são monitoradas e controladas.”
Ainda de acordo com especialista da Vaisala, existe espaço para ampliar a medição em tempo real na entrada do biogás bruto, no gás residual e no biometano purificado. Essa visão integrada do processo permite identificar desvios com maior rapidez, ajustar parâmetros operacionais antes que ocorram perdas relevantes e reduzir tanto o consumo energético quanto o desperdício de metano.
“A competitividade do biometano brasileiro vai depender cada vez mais da capacidade de transformar dados operacionais em eficiência, confiabilidade e previsibilidade de fornecimento. Nesse contexto, instrumentação e controle de processo deixam de ser apenas itens técnicos e passam a ser parte da estratégia de escala do setor.”
Na avaliação da especialista, esse avanço acompanha a transformação digital da indústria. Equipamentos capazes de gerar dados continuamente, aliados à automação e ao controle de processos, passam a fornecer informações que permitem antecipar falhas, reduzir desperdícios e aumentar a eficiência operacional das plantas.
Ela lembra que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) já estabeleceu metas para redução das emissões no mercado de gás natural por meio do uso do biometano, criando um importante sinal de expansão da demanda.
Ambiente de negócios será decisivo para acelerar os investimentos
Se o potencial técnico já está comprovado e as tecnologias continuam evoluindo, a expansão do biometano dependerá também de fatores econômicos, regulatórios e estruturais. Na avaliação de Montabone, o desafio atual vai muito além da implantação das plantas. O setor precisa avançar em previsibilidade regulatória, infraestrutura logística, financiamento e modelos econômicos capazes de dar segurança aos investimentos de longo prazo.
“Hoje, o desafio é combinado. Existe tecnologia disponível, mas o setor ainda precisa avançar em escala, previsibilidade regulatória, estrutura logística e modelagem econômica que viabilize os projetos com segurança de longo prazo. Em muitos casos, o investimento inicial ainda é alto e depende de contratos, demanda firme e ambiente regulatório estável.”
Segundo ele, outro fator importante será integrar a produção de biometano à realidade operacional de cada usina, respeitando as características industriais, a infraestrutura disponível e a estratégia comercial de cada empreendimento. “O gargalo não está em um único ponto, mas na convergência entre tecnologia, financiamento e ambiente de negócios.”
Apesar dos desafios, Montabone observa que houve uma mudança importante na percepção do mercado. “O biometano saiu do campo da discussão conceitual e passou a ser visto como oportunidade concreta de negócio.”
Na avaliação do diretor da Fenasucro & Agrocana, esse novo olhar vem estimulando estudos de viabilidade, formação de parcerias e novos investimentos, impulsionados pela necessidade de ampliar a descarbonização e aumentar a geração de valor a partir dos resíduos da produção sucroenergética.
Usinas devem liderar a expansão do mercado
A expectativa da ABiogás é que o setor sucroenergético assuma papel central no crescimento da produção nacional de biometano ao longo desta década. Segundo a presidente executiva da ABiogás, poucas cadeias produtivas reúnem simultaneamente disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura industrial consolidada e escala suficiente para desenvolver projetos competitivos. Além de abastecer consumidores industriais, o biometano poderá substituir combustíveis fósseis nas operações agrícolas e logísticas, ser comercializado na forma comprimida ou liquefeita e, onde houver infraestrutura disponível, ser injetado na rede de gás natural.
“O setor sucroenergético será um dos principais responsáveis por essa expansão. Transformar esse potencial em oferta dependerá da continuidade dos investimentos e de um ambiente regulatório que ofereça segurança e previsibilidade ao mercado”, afirma Josiani.
O potencial existe. O próximo desafio será criar condições para acelerar os investimentos e transformar essa oportunidade em oferta efetiva de energia renovável. Essa visão é compartilhada por Stephanny Maciel. Segundo a especialista, o Brasil já domina as principais tecnologias de purificação do biogás e dispõe de matéria-prima em abundância. O diferencial competitivo das plantas, daqui para frente, estará na capacidade de produzir com estabilidade operacional, qualidade e eficiência, cenário que ganha ainda mais relevância com o avanço das políticas de descarbonização e o crescimento da demanda por combustíveis renováveis.
Fenasucro reúne as tecnologias que impulsionam essa transformação
O avanço do biometano e das soluções voltadas ao gás renovável estará entre os destaques da próxima edição da Fenasucro & Agrocana. Na avaliação de Paulo Montabone, o biometano tem potencial para ganhar escala e ocupar um papel cada vez mais relevante na matriz das usinas, especialmente por sua relação com a mobilidade sustentável, a indústria e a descarbonização.
Segundo ele, a Fenasucro & Agrocana acompanha essa evolução ao reunir tecnologias, soluções e conexões de negócios voltadas ao desenvolvimento do mercado de biometano e do gás renovável.
“O visitante encontrará fornecedores, especialistas e conteúdo especializado nos painéis da Fenabio, em um ambiente que também é estratégico para geração de negócios e relacionamento entre empresas, usinas e investidores.”
Natália Cherubin para RPAnews


