A recuperação das cotações reflete uma série de indicadores que começaram a se acumular; no entanto, há fatores que podem impor um limite a esta alta
A rápida recuperação dos preços do açúcar no mercado internacional neste mês de agosto, após cerca de dez meses em patamares que dão prejuízo mesmo para os produtores mais eficientes no mundo, abre uma janela de oportunidade para que as usinas avancem na fixação dos preços do produto a ser exportado tanto nesta safra (2026/27) como na próxima (2027/28).
Até meados de julho, o Centro-Sul havia fixado 75% do açúcar para exportação desta safra, de acordo com dados da Archer Consulting. Desde o início de agosto até o dia 14, os preços do contrato do açúcar demerara para outubro na bolsa de Nova York já subiram 14,7%, uma alta de 216 pontos, fechando em 16,61 centavos de dólar a libra-peso, perto do maior valor em cerca de um ano.
Com esse movimento, após dez meses em que os preços se mantiveram na faixa entre 12 e 14 centavos de dólar a libra-peso, a perspectiva é que as usinas voltem a avançar na fixação do produto que ainda não foi hedgeado.
A recuperação dos preços reflete uma série de indicadores que começaram a se acumular nos últimos dias, como a redução da produção do Centro-Sul em junho, e divulgada pela União das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) em agosto.
Também entraram na conta a revisão de estimativas de déficit de oferta global por várias consultorias, os efeitos do tempo extremamente seco na Europa sobre sua safra de beterraba e, mais recentemente, os movimentos da Índia para tentar contornar uma perspectiva de redução de oferta decorrente do El Niño.
Por outro lado, há fatores que podem impor um limite a esta alta. Segundo a analista Camila Lima, da StoneX, o mercado físico do açúcar continua fraco.
O açúcar no Porto de Santos continua sendo negociado com desconto de 50 pontos, a fila de navios no porto está nas mínimas históricas, a diferença entre os preços dos contratos que vencem em outubro e em março de 2027 estão nas mínimas em vários anos, há baixo fluxo de açúcar nos portos no mundo em geral, e as importações da China ainda estão 20% abaixo da média em cinco anos.
“O objetivo aqui não é lutar contra o rali, mas lançar luz para a oportunidade atualmente disponível para produtores, não apenas para a safra 2026/27, mas também para a 2027/28”, alertou Lima, em relatório diário.
Em teleconferência com analistas na terça-feira, 11, o diretor financeiro da São Martinho, Felipe Vicchiato, disse que a empresa vai aproveitar o aumento dos preços nas últimas semanas.
“Tínhamos muito pouco [açúcar] fixado na tela de março de 2027 [até o fim do primeiro trimestre da safra]. Com todo o aumento de preços nas últimas semanas, vamos aproveitar para pegar uma tela mais próxima de 16 a 17 centavos [de dólar a libra-peso], vai ajudar no preço médio desta safra”, afirmou.
Ainda assim, para que a empresa garanta os investimentos em manutenção de canavial, os preços teriam que estar em 18 centavos de dólar a libra-peso, disse.
No setor, há a esperança de que a alta do açúcar tenha mais sustentação. Para Vicchiato, as chuvas no Centro-Sul devem limitar a capacidade das usinas de aumentarem sua produção de açúcar, já que a umidade “dilui” o teor de sacarose.
Ele não acredita que as usinas vão conseguir fazer “muito mais açúcar”, e o volume do Centro-Sul “provavelmente vai ficar bem abaixo do estimado inicialmente”. “Com o El Niño, não vai ter esse açúcar”, acrescentou.
Globo Rural| Camila Souza Ramos

