Resultados de Raízen e SLC Agrícola mostram avanços em indicadores operacionais, enquanto geração de caixa, alavancagem e disciplina de capital ganham peso para a próxima safra
Os resultados mais recentes de SLC Agrícola e Raízen mostram que ganhos operacionais e contábeis não necessariamente estão se convertendo na mesma velocidade em geração de caixa. Na avaliação de Edson Kawabata, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, disciplina de capital, alavancagem e riscos climáticos ganham peso na leitura dos balanços das empresas do agronegócio em 2026.
As duas companhias atuam em segmentos diferentes e adotam calendários distintos. A SLC Agrícola divulgou os resultados do segundo trimestre de 2026, enquanto a Raízen, que segue o calendário de ano-safra entre abril e março, apresentou em 13 de agosto os números do primeiro trimestre da safra 2026/27.
Na SLC, a receita líquida alcançou R$ 2,18 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,8% na comparação anual e recorde para o período. O desempenho foi sustentado pelo aumento de 14,4% no volume comercializado de algodão, soja e milho segunda safra, para 806,1 mil toneladas. As vendas de milho segunda safra cresceram 69,5%.
O lucro bruto avançou 43,5%, para R$ 941,2 milhões, e a margem bruta chegou a 43,3%, aumento de 8,1 pontos percentuais. Segundo Kawabata, a própria companhia atribuiu esse avanço principalmente à redução do custo unitário e a um mix mais favorável de fazendas, e não à evolução dos preços, que permaneceram praticamente estáveis nas principais culturas.
O lucro líquido cresceu 75,3%, para R$ 245,1 milhões, superando a mediana de R$ 191,8 milhões das estimativas de mercado compiladas pela LSEG.
O EBITDA ajustado, porém, apresentou desempenho mais moderado: avançou 4,3%, para R$ 580,6 milhões, enquanto a margem EBITDA recuou 3,2 pontos percentuais, para 26,7%. Segundo a análise da Peers, o indicador ficou cerca de 18% abaixo do consenso.

Kawabata explica que o descolamento entre o forte crescimento do lucro bruto e a evolução do EBITDA tem uma razão técnica. A marcação a valor justo dos ativos biológicos contribuiu com R$ 278 milhões para o lucro bruto, quase três vezes o montante do ano anterior, mas esse ganho contábil não passa pelo EBITDA ajustado.
Ao mesmo tempo, as despesas de venda com frete e armazenagem cresceram 61% na comparação anual, refletindo os custos para escoar uma safra maior.
Para o executivo, entretanto, o ponto que mais chamou a atenção não esteve no resultado, mas no caixa. O fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 805,3 milhões no trimestre, piora de 28,6% na comparação anual, e a alavancagem subiu para 4,2 vezes o EBITDA.
Segundo Kawabata, BTG, XP e Itaú BBA mantiveram recomendação de compra para a companhia, mas todos destacaram a queima de caixa como o principal risco de curto prazo.
“Ganho de margem bruta não é sinônimo de ganho de caixa. O 2T26 da SLC é o retrato mais claro dessa dissociação no setor: margem bruta recorde caminhando junto com queima de caixa e alavancagem em alta”, afirma.
Segundo ele, para produtoras de commodities agrícolas, o intervalo entre o reconhecimento contábil da safra, inclusive por meio dos ativos biológicos, e o efetivo recebimento dos recursos continua sendo determinante. É essa diferença, avalia, que separa “o resultado percebido do resultado sentido pelo caixa”.
Raízen tem alívio operacional, mas permanece no prejuízo
Na Raízen, Kawabata resume o trimestre como de “alívio operacional, mas não resultado”.
A companhia apresentou receita líquida de R$ 51,46 bilhões no primeiro trimestre da safra 2026/27, crescimento de 4% na comparação anual. O EBITDA ajustado mais que dobrou, chegando a R$ 3,85 bilhões.
O principal impulso veio da distribuição de combustíveis no Brasil, cujo EBITDA ajustado aumentou 269%, para R$ 3,54 bilhões. A margem por metro cúbico passou de R$ 142 para R$ 493.
No segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia, entretanto, o desempenho foi mais fraco. A moagem de cana recuou 2% na comparação anual e o EBITDA caiu 63,1%, para R$ 300,8 milhões.
Mesmo com a melhora operacional consolidada, a Raízen permaneceu no vermelho, com prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão. O resultado financeiro negativo atingiu R$ 2,97 bilhões, alta de 42,4% na comparação anual e, segundo Kawabata, já superou o próprio EBITDA registrado no trimestre.
A alavancagem ficou em 4,8 vezes o EBITDA, abaixo das 5,2 vezes observadas no trimestre anterior, mas acima das 4,5 vezes registradas um ano antes.
Do lado positivo, o capex recuou 32,6% e o fluxo de caixa operacional passou de consumo para geração de R$ 3,56 bilhões. Após o encerramento do trimestre, em 30 de julho, foi homologado o plano de recuperação extrajudicial da companhia.
Para Kawabata, os movimentos de Raízen e SLC mostram que “disciplina de capital virou tema central, ainda que por caminhos opostos”.
“A Raízen reduziu capex em 32,6% a/a e voltou a gerar caixa operacional, enquanto a SLC viu sua alavancagem subir para 4,2x EBITDA mesmo com lucro recorde. O setor entra na próxima safra sob pressão para equilibrar crescimento e geração de caixa, não apenas resultado contábil”, afirma.
Clima e rastreabilidade também entram no radar
Além dos balanços financeiros, Kawabata aponta o clima como um dos principais riscos para eventuais revisões das projeções das companhias no curto prazo.
Na SLC, a estimativa de produtividade do milho segunda safra foi reduzida em 11%, diante do plantio fora da janela considerada ideal e da insuficiência de chuvas. Em sentido contrário, as projeções para o algodão foram elevadas em 7% na primeira safra e 4% na segunda.
“El Niño e clima seguem como o principal risco de revisão de guidance no curto prazo”, avalia Kawabata.
Segundo ele, esse tipo de compensação entre culturas tende a se repetir no setor à medida que o El Niño avance pela safra 2026/27.
Outro movimento destacado pelo executivo é a aceleração das certificações da SLC. A área certificada em agricultura regenerativa pelo regenagri cresceu 79% na comparação anual, enquanto a certificação de rastreabilidade da soja pelo ORIGINS avançou 85%.
Na avaliação de Kawabata, esse ritmo mostra uma mudança no papel dessas certificações dentro das estratégias comerciais.
“Na SLC, rastreabilidade e agricultura regenerativa migraram de diferencial para requisito comercial”, afirma.
Segundo ele, o avanço indica resposta às exigências de compradores internacionais e não apenas a manutenção de uma política de certificação já adotada pela companhia desde 2021.
Kawabata avalia que esse movimento tende a se espalhar pelo setor com a implementação da legislação europeia contra o desmatamento, a EUDR, que amplia as exigências de comprovação de rastreabilidade em cadeias de produtos destinados ao mercado europeu.
“O mesmo movimento se estende ao restante do setor pela via da EUDR, que impõe comprovação de rastreabilidade também a exportadores de proteína animal, o que deve alcançar a Raízen indiretamente à medida que a regulação entra em vigor”, afirma.
Para Kawabata, o setor entra na próxima safra sob pressão para equilibrar crescimento e geração de caixa, e não apenas resultado contábil.
Natália Cherubin para RPAnews





