Ao mesmo tempo, o Brasil acumulou experiência em tecnologias como biodigestores verticais de alta eficiência, sistemas de purificação de gás, logística de transporte de biometano líquido e integração com a produção de fertilizantes de baixo carbono.
Segundo o estudo, esse conhecimento pode ser exportado para países da América Latina, Ásia e África que têm grande disponibilidade de resíduos agrícolas, mas ainda carecem de infraestrutura de biodigestão.
“A grande oportunidade do país não é apenas produzir o combustível, e sim liderar o fornecimento de tecnologia, equipamentos, engenharia e soluções integradas desenvolvidas aqui para outros mercados que buscam se descarbonizar”, afirma a professora Gláucia Mendes Souza, da USP, líder da IEA Bioenergy Task 39 e uma das autoras do estudo.
A experiência já existente no setor sucroenergético ajuda a sustentar essa perspectiva. O estudo cita projetos de produção de biometano a partir de vinhaça e resíduos de cana em empresas como Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro. Na safra 2024/25, o Brasil processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana, gerando um volume estimado de 380 bilhões de litros de vinhaça.
O mercado internacional, por sua vez, já apresenta escala para sustentar essa expansão. O biometano é produzido em cerca de 40 países e utilizado no transporte em quase 30 mercados.
O potencial sustentável mundial de biogás e biometano é estimado em cerca de 1 trilhão de metros cúbicos por ano, equivalente a aproximadamente 25% da demanda mundial de gás natural. A União Europeia estabeleceu a meta de chegar a 35 bilhões de metros cúbicos anuais de produção até 2030, com investimentos estimados em 37 bilhões de euros.
Além de criar um mercado para equipamentos e serviços brasileiros, a expansão do biometano pode aumentar a competitividade do próprio combustível no transporte pesado.
Segundo o estudo, a substituição do diesel por biometano reduz as emissões de CO2 equivalente em 45% a 75% no ciclo poço-à-roda. Em determinados projetos baseados em resíduos e dejetos, considerando a eliminação de emissões fugitivas de metano, o balanço pode chegar a -246% em relação ao diesel.
Também há potencial econômico. Simulações de custo total de propriedade para frotas pesadas indicam custo de US$ 1,73 por quilômetro para gás natural comprimido (GNC) ou biometano, ante US$ 1,87/km para o diesel. Em diferentes cenários, o estudo estima que o custo por quilômetro rodado com biometano no Brasil pode ficar de 30% abaixo a 25% acima do diesel.
O modelo de negócio ainda pode incorporar receitas além da venda do combustível. Em mercados mais maduros, entre 20% e 60% da receita total de uma planta de biometano vem de atividades como tratamento de resíduos, comercialização do digestato como biofertilizante e créditos de carbono.
Agência Estado| Leandro Silveira